TABA BENEDICTO /?ESTADAO
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Filme ‘1982’ expõe medos e sonhos de um garoto durante guerra no Líbano

Diretor Oualid Mouaness reflete o amor em tempos de guerra retratando crianças como se fossem adultos

Matheus Mans, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2022 | 20h00

O cineasta libanês Oualid Mouaness era uma criança e não entendia nada. O ano era 1982. Ele estava na escola e, entre uma prova e outra, pontuadas por um amor típico da idade, viu quando a Primeira Guerra do Líbano explodiu nas ruas do país. Na época, as Forças de Defesa de Israel invadiram o sul do Líbano com o objetivo de fazer cessar os ataques dos palestinos da Organização para a Libertação da Palestina. Os professores não tinham como conter a tensão, enquanto as crianças tentavam decifrar aquele sentimento de medo. E é justamente essa história que é contada em 1982, em cartaz nos cinemas.

Estreia de Oualid como diretor de longas, ele repete o que Alfonso Cuarón fez com a obra-prima Roma e Kenneth Branagh fez com o dividido Belfast. Afinal, para contar a história de um fato histórico importante, passa a história pelo filtro infantil e um tanto quanto ingênuo de alguém que não atingiu a maioridade. É a jornada de Wissam (Mohamad Dalli), um garotinho que está em processo de descobrir as dores e as maravilhas do amor por conta de uma paixão avassaladora por uma colega de classe. Há, ainda, o amigo que não entende muito bem esse amor e a professora (Nadir Labaki), preocupada com a guerra.

É um microcosmos daquele momento de tensão histórico, carregado de um medo coletivo, em que detalhes dos sentimentos do país são exemplificados pela reação dos alunos, professores e pais. “É uma ideia que esteve comigo por muito tempo, que nasceu quando conversei com um produtor libanês sobre onde cada um estava quando a guerra estourou. Lembro totalmente, por exemplo, do dia dos atentados do 11 de Setembro. E durante a guerra do Líbano?”, questiona o cineasta, em entrevista realizada durante sua vinda à São Paulo. “É baseada em minha própria experiência, no meu último dia na escola em 1982”.

 


Com esse olhar infantil comandando a história, Oualid não vai para o caminho estético mais óbvio. A guerra nunca é mostrada. Há tanques atravessando a rua da escola, o rádio a pilha do professor gritando notícias sobre os avanços das tropas. Mas, aqui, o foco é o romance, também inspirado em experiências do diretor, de Wissam com a sua jovem paixão. “Eu mandava cartinhas quando estava na escola. Minha mãe chegou a ser chamada pela direção”, conta Oualid, aos risos, se divertindo com a lembrança. “É uma história de amor”.

Hoje, Oualid mora em Los Angeles, na Califórnia – já está lá há cerca de 20 anos, desde que se estabeleceu para estudar ainda mais o cinema e produzir seus primeiros curtas. Esse distanciamento, porém, ajudou o diretor e roteirista a compreender como seus pares não são retratados nas telonas como deveriam. É de olho nisso que também construir melhor o que queria contar com 1982. “Não havia um filme sobre esse ponto da história do Líbano, que representa as pessoas comuns e que não participaram de tudo que aconteceu na guerra”, diz. “Ninguém sabe exatamente quem somos, nem como vivemos ou como somos parecidos com o restante do mundo. As pessoas só nos conhecem pelas notícias”.

Logo que chegou para a entrevista, Oualid mostrou como estava confortável e feliz em estar no Brasil – apesar de ter confessado que tomou cuidado redobrado, na noite anterior à entrevista, na hora de sacar o celular do bolso enquanto andava pelas ruas. Ele diz, afinal, que é um conforto esperado, já que o Brasil conta com uma comunidade libanesa maior do que a população total do Líbano. “Sinto que o Líbano é do tamanho de um quarteirão de São Paulo”, diz o diretor, enquanto olha a vista lateral para o centro de São Paulo. Segundo ele, o filme chega em um momento importante no País, já que contém assuntos universais e que dialogam com algumas particularidades do Brasil, como estereótipos vistos no cinema.

“Você só consegue quebrar esses estereótipos quando o filme transcende a mídia e chega na humanidade. No fim, as crianças no Brasil, no México, nos Estados Unidos ou na Arábia Saudita têm os mesmos sentimentos. Somos essencialmente os mesmos. Somos pessoas”, diz o cineasta. “Por isso espero que o ‘outro lado’ veja o meu filme, que assista a filmes que tragam essa humanidade. Assim, as pessoas perceberão que somos todos iguais”.

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