"Filhote" mostra a força do preconceito na Espanha

Filhote, de Miguel Albaladejo, faz um retrato dos mais interessantes da Espanha pós-franquista. Como se sabe, depois de décadas de repressão política e sexual, a sociedade espanhola se abriu, progrediu, antenou-se com o mundo moderno do qual se sentia excluída e, em algumas vezes, o superou. Outro dia mesmo começaram a ser celebradas as uniões gays na Espanha. O filme tenta mostrar que, apesar de toda essa liberação, o homossexualismo ainda não está lá muito bem assimilado pela sociedade espanhola. A história é a de um dentista gay, Pedro (José Luis Garcia-Perez), que tem um namorado francês e mantém casos amorosos ocasionais. Sua vida é alterada quando precisa tomar conta de um sobrinho de 11 anos, cuja mãe, uma maluquete dos novos tempos, partiu para a Índia em companhia do namorado. Albaladejo evita de cara todas as armadilhas mais fáceis, como a da "criança que dá lição de vida ao adulto, etc." Mostra apenas o essencial, o convívio complicado, nessa situação, e como o afeto se instala naturalmente entre os dois. Depois, entra na, digamos assim, intimidade da cena gay de Madri sem glamourizá-la, por um lado, e sem folclorizá-la, por outro. Não tenta criar um ambiente asséptico quando o assunto é sauna gay ou becos escuros nos quais se busca satisfação com desconhecidos. A faceta conservadora da Espanha é representada pela avó do moleque. Albaladejo coloca tudo em perspectiva, ao mostrar como a senhora pode ser fraca apesar da intolerância.Albaladejo não se deixa embriagar pelo drama e sabe que o humor permeia sempre as situações humanas - o difícil, às vezes, é identificá-lo.

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