´Filhos do exílio´ revivem a história do filme

O paulistano Rodrigo Andrade viu os pais ?saírem de férias? e foi morar com a avó. A carioca Laura Malin ?saiu de férias? junto com seus pais e foi um dos ?filhos do exílio?. A paulistana Beatriz Lefrève também viu o pai ?sair de férias? e até hoje não sabe exatamente quais circunstâncias o levaram a passar um ano preso durante a ditadura militar no Brasil. Semelhanças com a história do garoto Mauro, de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, não são coincidência. "O período deixou marcas profundas nas crianças, principalmente as que tiveram pais envolvidos com a oposição ao regime. A sensação latente de medo que pairava no ar acabou fazendo parte da nossa formação", comenta Beatriz, que perdeu o pai há 20 anos. "É difícil falar disso. Meu pai era arquiteto, mas participou ativamente do movimento contra a ditadura. Tinha 8 anos quando ele foi preso. Nunca conversamos a fundo sobre isso. Do que me lembro muito, que senti vendo o filme, é do temor que o Mauro sentia, mas não sabia definir o que era", completa a fotógrafa, que ia visitar o pai toda semana no Presídio Tiradentes, em São Paulo. "Meu pai era cientista político e minha mãe, geógrafa" Rodrigo também freqüentou o Presídio Tiradentes. "Estava em casa no dia em que minha mãe foi presa. Tinha 8 anos. E ia toda semana visitá-los. Os dias de visita eram de festa. Eu tinha uma visão heróica dos meus pais. Meu pai era cientista político e minha mãe, geógrafa", conta o artista plástico, que, assim como o garoto do filme, também era fanático por futebol de botão. "Também jogava sozinho. Também mudamos de casa. Vi a Copa de 70 com meu pai. Mas ficávamos sozinhos. Nunca vou me esquecer da sensação de solidão. Até hoje me vejo empinando pipa sozinho. Quando foram presos, foi horrível, mas voltei para minha antiga casa e recuperei meus amigos." Perseguição até na Disney Os pais de Laura Malin não chegaram a ser presos, mas ela passou longos períodos longe deles. "Quando eu ainda era bebê, minha mãe, economista, teve de passar um tempo em treinamento comunista. Eles eram do Partidão (o PCB), onde se conheceram. Minha mãe não queria ir, mas era obrigação. Já meu pai, jornalista, vivia viajando. Estávamos sempre sendo seguidos", conta a roteirista e escritora, que, no exílio, morou nos EUA e na França. "Quando os arquivos do Deops foram abertos, descobrimos que fomos seguidos até na Disney, para onde minha mãe me levou aos 2 anos", conta ela, que, como Mauro, é filha de mãe católica e pai judeu. "Até hoje não tenho religião definida. Em várias cenas me identifiquei com os conflitos do menino", conta ela. "É um período ainda mal explicado. O cinema sempre opta pela luta armada, que é mesmo mais interessante. Mas a maior luta foi a ideológica." O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (Brasil/2006, 110 min.) - Drama. Dir. Cao Hamburger. 10 anos. Em grande circuito. Cotação: Ótimo

Agencia Estado,

01 Novembro 2006 | 19h22

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