"Filhas do Vento" empolga platéia em Gramado

O ator Milton Gonçalves foi responsável pelo momento de maior emoção na coletiva de imprensa do longa-metragem Filhas do Vento, do qual faz parte do elenco. Ele lembrou momentos de sua carreira e da longa luta contra o preconceito racial no Brasil. Milton começou no Teatro de Arena, em São Paulo: ?Eu era apenas um operário e lá aprendi, na convivência com pessoas que sabiam mais do que eu, tudo o que uso até hoje para me orientar no mundo?, disse. O ator mescla, assim, suas participações na televisão a trabalhos que considera fundamentais, como os personagens em Rainha Diaba (que, por acaso está sendo lançado em DVD pela Funarte aqui em Gramado) e Carandiru. Mas, seu xodó atual é Filhas do Vento, dirigido por Joel Zito Araújo, e que ontem à noite recebeu a maior ovação destinada a um filme até agora no Palácio dos Festivais.O público aplaudiu com entusiasmo esta saga de uma família de Lavras Novas, Minas Gerais, cujo patriarca é o próprio Milton Gonçalves. A história, pontuada por rivalidades internas, brigas, separações e redenção, tem enredo deliberadamente novelesco, e é interpretada por um elenco quase inteiramente composto por atores negros: Léa Garcia, Maria Ceiça, Ruth de Souza, Taís Araújo, Kadu Carneiro e Rocco Pitanga, entre outros. Baseia-se, de maneira informal, na história verdadeira de Ruth de Souza, que saiu do interior para se tornar uma grande atriz no Rio de Janeiro, tendo de enfrentar todo o tipo de preconceitos que restringe o mercado de trabalho dos atores negros a papéis subalternos ou estereotipados. A certa altura, uma das personagens diz que está cansada de ser empregada doméstica de novelas, uma alusão mais do que direta ao mercado televisivo e também à biografia de Ruth. Longe de ser panfletário, Filhas do Vento procura apenas contar uma boa história, de feitio narrativo clássico, que poderia se passar com qualquer família humilde, mas que é conformada pelos elementos da separação de raças que existe, ainda que de forma oculta, no Brasil. De narrativa enxuta, econômica, o filme tira boa parte de sua emoção, sem dúvida, do desempenho de duas grandes atrizes como Ruth de Souza e Léa Garcia, magníficas ambas. São duas grandes damas, que interpretam com dignidade exemplar, nunca querendo se sobrepor à emoção implícita dos papéis escritos para elas. Filhas do Vento é, até agora, a boa surpresa desse festival, uma vez que se trata da estréia, na ficção, do diretor Joel Zito Araújo. Antes, ele havia feito um documentário, A Negação do Brasil, no qual evidenciava justamente a atribuição de papéis secundários aos negros na televisão, no cinema e no teatro. De certa forma, ele retorna ao tema, agora com a liberdade e a emoção que a forma ficcional permite. Além de A Filha do Vento, Gramado assistiu a dois outros filmes de boa qualidade na programação de ontem: o documentário Soldado de Deus, de Sergio Sanz, e o longa-metragem latino Vereda Tropical, do argentino Javier Torre. No primeiro, procura-se compreender a origem e o significado do integralismo de Plínio Salgado, o fascismo à brasileira que tanta influência teve na história do País durante os anos 30. A inteligência do filme procura mostrar como algumas questões daquela época não se esgotam no passado e não estão resolvidas até hoje, como é o caso da oposição entre nacionalismo e internacionalismo. Já Vereda Tropical mostra, com radicalidade mas também com delicadeza, como foi a estadia brasileira do escritor argentino Manuel Puig, que morou no Rio durante a década de 80.Puig, interpretado por Fabio Aste, era escritor de belos livros, como Boquinhas Pintadas, mas também uma pessoa difícil, às vezes frívola, cheio de angústia e problemas pessoais. O filme procura fazer um retrato íntegro dessa personalidade dividida, um artista que havia sido praticamente expulso do seu país natal por causa de sua militância homossexual. Um crítico presente ao festival observou que a trama era falha porque nela não havia conflitos visíveis, como prega a boa dramaturgia. Acontece que Puig era, ele próprio, um conflito pleno e em tempo integral, sempre à beira do abismo. A difusa linearidade do filme só pode ser entendida dessa maneira. Veja Especial

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