Fiennes quer enterrar aura de galã atormentado

O telefone toca na redação da Agência Estado. A voz é inconfundível: "É Ralph Fiennes falando." Mas ele não diz Ralph, como diria o leitor ou o repórter. Fala "Reif Faines", sem carregar demais no R. "Reif" está ligando para falar do filme Paixão Proibida, que assinala a estréia de sua irmã, Martha Fiennes, na direção. Mas fala também de Sunshine - O Despertar de um Século, de István Szabó. Por um desses acidentes de distribuição, tão freqüentes no mercado brasileiro, Sunshine estréia antes em São Paulo. Entra sexta-feira em cartaz. Para ver Paixão Proibida, o espectador ainda terá de esperar uma semana ou duas. Valerá a pena.Ralph Fiennes já havia feito o Heathcliff de O Morro dos Ventos Uivantes, na insatisfatória versão de Peter Kosminsky - Juliette Binoche era a sua Catherine -, quando Steven Spielberg lhe deu a grande chance. Escolheu-o para o papel do nazista arrogante, brutal e sedutor de A Lista de Schindler. Fiennes foi indicado para o Oscar de coadjuvante. Anos mais tarde (Schindler é de 1993), ele fez O Paciente Inglês, com direção de Anthony Minghella, em 1996. O filme foi coberto de Oscars e consolidou Fiennes como astro. Podia-se esperar, por isso, que ele tivesse uma gratidão especial por Spielberg e Minghella. Não deixa de ser surpreendente vê-lo apontar os diretores com quem mais aprendeu e gostaria de trabalhar de novo. Fiennes não vacila ao citar Neil Jordan e István Szabó.Ele ama Fim de Caso, de Jordan, e acha que talvez seja o melhor filme que já fez. Mas tem um carinho especial por Szabó. "Havia visto Mephisto, que foi um filme importante dos anos 80, mas não sabia o quanto seria enriquecedor trabalhar com ele." Acha que seria maravilhoso trabalhar com esses diretores, aprofundar a camaradagem, a colaboração. "A gente demora um pouco para criar um clima de família no set, mas o filme só dá certo quando está todo mundo unido." Seria ótimo voltar a conviver com Jordan e Szabó. "Se me chamarem de novo, irei com o maior prazer."Conta o que mais o fascinou em Szabó. "É um homem essencialmente político, faz uma arte que é política e isso não é muito freqüente no cinema atual." Lembra Mephisto: a história do ator que, por vaidade, adere ao nazismo era narrada com suntuosas imagens barrocas. Szabó criava um jogo de máscaras para discutir a função do ator e as relações de poder numa sociedade autoritária. Com Sunshine, conta cem anos de história da Hungria, por meio da saga de uma família judaica. "Confesso que não sabia nada ou sabia muito pouco sobre a Hungria; hoje, não acredito que pudesse participar de um quiz show sobre a história húngara, mas sei bem mais sobre o país e devo isso a Szabó."Anti-semitismo - Arrisca-se a desconcertar, mais uma vez. Com A Lista de Schindler, Spielberg ganhou todos os Oscars a que tinha direito. O filme descreve o horror da vida (e da morte) nos campos de extermínio para tornar convincente o retrato do homem (o personagem de Liam Nesson) que salvou a vida de milhares de judeus na 2ª Guerra. O anti-semitismo já era o tema de Spielberg, retomado mais tarde em O Resgate do Soldado Ryan, mas Fiennes acha que aprendeu mais sobre o assunto com Szabó. Por meio de sucessivas gerações de uma mesma família, os Sonnenaschein, o diretor conta a história da Hungria e do anti-semitismo em seu país.É um filme do qual Fiennes está orgulhoso e não adianta dizer que muitos críticos fazem reparos, não à habilidade narrativa do cineasta, mas justamente à qualidade da sua interpretação. Ele interpreta três personagens diferentes e o faz, segundo esses críticos, exatamente do mesmo jeito. "Interpretei os personagens exatamente como Szabó queria; ele sempre ficava satisfeito ao fim de cada tomada; não quero reclamar de nada, mas se alguém tiver alguma conta a apresentar que a apresente ao diretor; de minha parte, estou satisfeito e, como digo, gostaria muito de voltar a trabalhar com ele."Paixão por Púchkin - No caso de Sunshine, a admiração é pelo diretor. No de Paixão Proibida, pelo personagem. Fiennes ainda era um estudante de arte dramática quando descobriu Eugene Onegin, de Púchkin. Foi amor à primeira vista. Durante anos acalentou o sonho de trazer esse personagem para a tela. Concretizou-o com direção da irmã. Martha Fiennes era diretora de comerciais. Nunca havia trabalhado com atores. Ralph acha que ela fez um excelente trabalho: cita Liv Tyler, que confirma sua maturidade como atriz ao interpretar Tatiana. E Martha, observa o repórter, tem um olho mágico para a beleza. As cenas de interiores, de bailes, são suntuosas. "É uma qualidade dela mesma, pois a produção foi barata", diz Fiennes.Por que, desde a primeira hora, ele ficou tão apaixonado por Eugene Onegin? "Li o livro numa tradução, pois não conhecia o russo, como não conheço até hoje; mas Martha e eu nos preparamos bastante e hoje posso dizer que sei bastante sobre o autor e o personagem." Púchkin talvez seja a figura mais completa da literatura russa. Escreveu livros que apontaram o caminho para Tolstói, Dostoievski e Gogol. Com Eugene Onegin, criou o primeiro grande romance russo, com a característica extra de não ser um romance de prosa, mas de versos."Não se pode esquecer que a Rússia, no começo do século 19, era ocidentalizada e, mais que isso, francesa; Onegin é o tipo do aristocrata blasé, do homem inútil que vai aparecer, mais tarde, em tantas obras de Tolstói e Chekhov", diz Fiennes. Esse homem que se defronta com os erros de suas escolhas e descobre o vazio da própria vida é um personagem fascinante. Mas sedimenta a imagem de romântico e atormentado que persegue Fiennes. Seu sonho? "Gostaria de fazer uma comédia, de interpretar um personagem bem leve e divertido, para acabar de vez com essa imagem." O problema, diz, é que ninguém lhe propõe esse papel miraculoso. Mas ele não desiste. Ainda vai enterrar a aura de galã atormentado.

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