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A poderosa revelação do intenso 'Aspirantes', no Festival do Rio

Evento também terá a exibição de 'Macbeth, A Floresta Que Se Move'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2015 | 19h29

RIO - Toda noite tem gala da Première Brasil no Festival do Rio, que estende o tapete vermelho para o melhor da produção nacional, no complexo de salas Lagoon. A preferida é a Sala 1, onde as equipes vão apresentar seus filmes. Neste sábado à noite, 10, a gala será dupla – duas ficções. Vinícius Coimbra, o diretor do excepcional A Hora e a Vez de Augusto Matraga – que venceu o Festival do Rio, anos atrás –, vai apresentar seu Macbeth, A Floresta Que Se Move. Na sequência, Ruy Guerra, um dos grandes do Cinema Novo, concretiza um projeto de décadas – a adaptação de Quase Memória, de Carlos Heitor Cony.

Coimbra transpõe a tragédia de Shakespeare para o meio financeiro, na época contemporânea. Até por isso, tem gente morrendo de curiosidade para ver como o diretor e sua cúmplice, a roteirista Manuela Dias, resolveram dois desafios da peça. A presença das bruxas e, justamente, o mover-se da floresta. Na ficção shakespeariana, a floresta anda no clamor de uma batalha, mas agora? O repórter, que já viu o filme, e gostou, garante que vem surpresa, e das boas, por aí. Gabriel Braga Nunes e a imperial Ana Paula Arósio formam o casal trágico. No caso de Ruy Guerra, embora as adaptações representem apenas parte de sua obra, são de autores de prestígio. Gabriel García Márquez, Antônio Callado, Chico Buarque (e ele próprio, A Ópera do Malandro) e Cony.

No livro, o escritor explora o território entre a ficção e a memória para mapear a relação com o pai, que morreu. Há também imensa curiosidade pela forma como um racionalista como Ruy vai trabalhar o afeto. O elenco agrega – João Miguel, Tony Ramos, Charles Fricks, Mariana Ximenes, Flávio Bauraqui, Antônio Pedro, Augusto Madeira (que está ótimo em Nise, de Roberto Berliner, também na Première Brasil). Tem havido muita coisa boa na programação da Première, uma ou outra frustração (Órfãos do Eldorado, de Guilherme Coelho, que não melhorou desde sua apresentação na Mostra de Tiradentes, em janeiro). Mas nada supera o impacto que produziu, na quinta-feira à noite, o longa Aspirantes, de Ives Rosenfeld. Se você for à internet, em busca de informações, verá que Aspirantes venceu o Festival de Locarno, no ano passado, na categoria melhor filme em finalização. Já era um sinal de que havia coisa muito boa a caminho.

Aspirantes é sobre dois amigos que integram um time de futebol de várzea em Saquarema, na região dos Lagos, do Rio. Sonham com a profissionalização. Não são muitos os grandes filmes sobre futebol, mesmo que somente como fundo dramático. Esse é (grande). Um dos aspirantes tem uma namorada, que engravida. Ele mora com o tio, mas brigam e ele vai viver na casa da namorada. A mãe dela cobra atitude do casal, agora que eles estão constituindo família. As coisas começam a não dar certo. Todo o mundo trata o personagem de Ariclenes Barroso como ‘moleque’ e ele, que é responsável e tenta fazer tudo direito, sente-se cada vez mais acuado. Explode. Rosenfeld lembra um pouco certos filmes do começo da carreira de Ken Loach, quando o diretor tratava as cenas de forma muito intensa, como psicodramas. O elenco é excepcional – além de Ariclenes, Sérgio Malheiros, Karine Teles, Júlia Bernat, Júlio Adrião. O roteiro, não conclusivo, é muito bem escrito e fornece uma sucessão de cenas fortes. Mãe e filha brigam, os amigos brigam, o casal briga. A tensão e a emoção são quase insuportáveis, no desfecho.

O festival tem proposto homenagens – ao noir mexicano, a Orson Welles. Será preciso reescrever a história do cinema – a de Welles, pelo menos. Três anos antes do cultuado Cidadão Kane, de 1941, ele filmou um pastiche silencioso para agregar a uma peça do Mercury Theatre. Too Much Johnson, com Joseph Cotten, Virginia Nicholson e Arlene Francis, não chegou a ser montado, mas o material sobreviveu e, em 2008, uma cópia de nitrato foi encontrada num galpão em Pordenone, na Itália. Em 2013, restaurado, o filme veio à luz. O verdadeiro começo de Orson Welles. E ainda existe a homenagem a Ghibli, o estúdio de Hayao Miyazaki. Meu Amigo Totoro, O Castelo de Cagliostro, Porco Rosso, Meus Vizinhos os Yamada. Atrações não faltam no Festival do Rio.

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