Ficção 'O Grão', de Petrus Cariry, é bem recebido no Cine Ceará

Documentário 'Tambogrande' também tem boa recepção na sessão de segunda-feira da 18.ª edição do festival

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado S. Paulo,

08 de abril de 2015 | 19h18

Dois longas muito aplaudidos pelo público fizeram o programa de segunda-feira do Cine Ceará. Na ficção, o brasileiro O Grão, de Petrus Cariry; e no documentário, Tambogrande: Mangas, Morte, Mineração, de Ernesto Cabellos e Stephanie Boyd, do Peru.  Veja também:Acompanhe a cobertura do Cine Ceará no blog do Zanin  Veja programação completa do evento  Bem, a ótima recepção de O Grão pode ter sido facilitada, num primeiro momento, por um motivo bairrista, pois Petrus é cearense e, além disso, filho de Rosemberg Cariry, muito conhecido de todos e cineasta mais importante do Estado. Esses fatores podem facilitar no início, mas não explicam o êxito de um filme que, diga-se, nada tem de fácil e expressa a linguagem de um diretor, em sua estréia em longas, pouco disposta a concessões.  O Grão mostra uma família no interior do Ceará, pobres, criadores de cabras, sem muitas perspectivas na vida. Há uma velha senhora, a avó, doente, e que sente a morte chegar. O pai consola-se na cachaça e é explorado pelo dono do açougue para quem vende suas cabras. A mulher a tudo assiste de forma passiva, e a filha mais velha prepara o vestido de noiva, pois vê no casamento a única forma de escapar àquele mundo fechado. Há também um garoto, que cria um cachorrinho e escuta sua avó moribunda contar uma fábula que fala, não por acaso, de nascimento, vida e morte, do ciclo da vida, enfim.  O Grão é um belo filme, mas não se vê nele aquela beleza estetizada do sertão, estéril, como às vezes se encontra no cinema brasileiro. Não existe nenhuma intenção de cosmetizar a miséria, mas, pelo contrário, acompanhar o ciclo sem saída dos impasses sociais do interior brasileiro, colocando ao lado uma sabedoria sertaneja (a avó) capaz de aceitação da finitude. E com dom de fabulação para transmiti-la a uma criança. É um cinema despojado, porém sofisticado; de planos longos e economia de sons e música.  Quanto a Tambogrande, documentário bastante convencional em sua forma, impressiona pela história de uma vitória popular, algo bem raro no mundo de hoje. O título se refere a uma região do Peru que, de desértica, foi transformada pelos habitantes em pequeno paraíso agrícola. Até o dia em que se descobriu que o subsolo abrigava ouro e outros metais preciosos, o que atraiu a atenção de uma mineradora canadense. A Manhattan Minerals chegou ao local com as bênçãos do então presidente Alberto Fujimori e lá se instalou. Até ser rechaçada por uma população que mostrou mais apego às terras que ao dinheiro fácil oferecido por ela.  Um tanto redundante na montagem, quase todo narrado "de um lado só", Tambogrande foi bastante aplaudido no final. É interessante ver esse exemplo de força numa improvável união dos fracos. Aconteceu daquele jeito mesmo e os camponeses continuam em suas terras.  O repórter viajou a convite da organização do festival

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