Festival se recupera com Soderbergh

Esqueça o Instituto do Mundo Árabe, a arca e a pirâmide de cristal que dá acesso ao Louvre. Se você é arquiteto e quer ver, no presente, a arquitetura do futuro tem de vir a Berlim. Há alguns anos, Potzdamer Platz, era uma terra de ninguém. Aqui passava o infame muro. Dos dois lados, era uma terra devastada. Como símbolo da Berlim unificada, os alemães transformaram Potzdaner Platz num imenso canteiro de obras. Muita coisa já está pronta. Há coisas ainda por fazer. O Sony Center, com sua geodésica que protege a praça cercada de prédios arrojadas, parece um cenário de Blade Runner.Ali pertinho fica o Berlinale Palast. É o palácio do Festival de Berlim. Abriga a principal sala de projeções e o centro de imprensa. Foi aqui que o chanceler da República Federal da Alemanha inaugurou na quarta-feira à noite o 51º Internationale Filmfestspiele. Não foi uma boa escolha selecionar o filme de Jean-Jacques Annaud, Enemy At the Gates para a abertura oficial. Annaud tem em seu currículo alguns filmes interessantes: preto e branco em cores, que ganhou o Oscar de filme estrangeiro, O Urso, o próprio O Nome da Rosa.Enemy custou US$ 90 milhões e é uma pobreza, esteticamente. Mas Annaud posou de grande cineasta na coletiva. Embora fosse o autor, na verdade foi mero coadjuvante de Jude Law, que interpreta um dos papéis principais com Joseph Fiennes. Joseph não deu o ar da graça em Berlim. Ed Harris também não veio. Lá estavam na mesa Annaud, Bob Hoskins, que faz Kruschev, Rachel Weisz e, claro, Jude Law, que fez a festa dos jornalistas.Já não se fazem festivais como antigamente. A sala estava ocupada por tietes do astro. Ele achou divertido, no início, mas começou a ficar constrangido quando um jornalista, na maior cara de pau inverteu o que seria a pergunta normal um festival. E queria saber de Annaud qual era a sensação de estar trabalhando com Jude. Não era o diretor quem importava, mas o astro. Para entender isso, basta assistir a Celebridades, de Woody Allen, que acaba de sair em DVD e vídeo. Enemy trata da batalha de Stalingrado, decisiva para os rumos da Segunda Grande Guerra. O mestre italiano Sergio Leone sonhava com um épico de guerra sobre o mesmo episódio. Morreu sem levantar a fortuna que Annaud agora desperdiça. O começou sugere um parque temático como o de O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg. Annaud quis fazer o seu desembarque da Normandia. Mostra o desembarque de uma leva de soldados soviéticos que, de chofre, é confrontada com o inferno de Satalingrado sob o ataque dos nazista.É a melhor cena, menos pelo show de efeitos do que por um detalhe. Annaud cola a câmera no rosto de Jude Law. Acompanha-o quando ele sai do barco que transporte os soldados e pára, o rosto transtornado. O espectador imagina por um momento o que ele está vendo e lhe causa tanto estupor. Um movimento de câmera descortina, finalmente, o que Vassili, é o nome do personagem, vê. É uma cena que um diretor só pode fazer quando tem um ator como Jude Law em cena.Na história o Exército Vermelho está sendo derrotado. Joseph Fiennes faz um jornalista. Edita o jornal com as notícias da guerra para os próprios soldados. Ele vê quando Vassili mata cinco oficiais alemães com tiros certeiros. Propõe a Kruschev que transforme Vassili em símbolo do novo homem socialista, uma inspiração para a massa de soldados desmoralizados. Vassili vira um herói, mas entra em cena Ed Harris, como o general alemão que lhe move implacável perseguição.Embora o filme seja europeu, com capitais predominantemente de europeus, rodado em Babelsberg, o estúdio perto de Berlim, Enemy é puro Hollywood. Annaud incorre nas simplificações que dominam o modelo reducionista do cinemão americano. O cerco e a batalha de Stalingrado reduzem-se a um embate entre dois lunáticos, um superhomem russo e um nazista. Todo mundo queria saber como ele achava que a platéia americana ia reagir diante de um épico com heróis russos. Ele disse esperar que reaja bem. Fez o filme convencido de que narrava uma grande história, com grandes personagens. Poderia ser mesmo um grande filme, se Leone fosse o diretor. Mas não é com os pobre diálogos que o próprio Annaud escreveu.Diretores deveriam ter mais autocrítica, especialmente quando copiam modelos já batidos de narração. Após o começo decepcionante, as coisas começaram a melhorar na quinta-feira com os dois primeiros filmes da competição (Enemy at the Gates passou fora de concurso). Lucrecia Martel, da Argentina, assina o único filme latino a concorrer ao Urso de Ouro deste ano. La Ciénaga pode não ser 10 (e não é, mesmo), mas tem qualidade. Traffic é melhor ainda. Confirma a boa fase de Steven Soderbergh, que está cotado para o Oscar - por esse filme e por Erin Brockovich, uma Mulher de Talento.

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