Festival revisa o sertão no cinema nacional

O ator Othon Bastos é modesto quando fala sobre a homenagem que receberá na mostra de filmes e vídeos Miragens do Sertão, que começa hoje no Centro Cultural Banco do Brasil. "Eles me convidaram para comemorar, no dia 28, os 40 anos de Deus e o Diabo na Terra do Sol e isso eu não recuso porque adoro contar essa experiência", comenta o ator, atualmente na minissérie A Casa das Sete Mulheres, como Domingos Crescêncio, um dos comandantes das tropas revolucionárias. "Quando fizemos o filme, queríamos que causasse algum impacto, mas não tínhamos noção da grandeza que ele alcançaria até hoje."O festival, cujas sessões para o público começam amanhã, exibirá 24 longas de ficção e 26 documentários sobre o tema, que é recorrente no cinema brasileiro, desde 1940, quando foi lançado Eterna Esperança, de Léo Marten, contando a aventura de uma aviadora norte-americana que faz um pouso forçado no sertão cearense e recebe a hospitalidade de uma família flagelada. Na época, considerava-se extinta a era do cangaço, com a morte de Lampião e Corisco, os dois cangaceiros mais famosos, quase figuras pops guardadas as proporções da época.Pois foi no papel de Corisco, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, que Othon Bastos, um baiano criado no Rio, ganhou fama nacional. O sucesso o fez evitar personagens parecidos e dar um tempo no cinema. "Não queria virar o John Wayne do cangaço e só voltei a filmar três anos depois, numa versão do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, chamada Capitu, na qual eu era o Bentinho", lembra o ator. Mesmo assim ele voltou a papéis rurais, inclusive São Bernardo, de Leon Hirszman, o seu preferido. "Como repercussão, Deus e o Diabo foi melhor, mas minha maior satisfação artística foi com São Bernardo, por que não era uma atuação física."Os dois títulos estão na mostra, ao lado de filmes premiados como Central do Brasil, Eu Tu Eles e Guerra dos Canudos, todos dos anos 90, e outros seminais, como Vidas Secas, Os Fuzis, A Hora e a Vez de Augusto Matraga e O Cangaceiro, o primeiro filme brasileiro a ter sucesso internacional, em 1953.Literatura e história - Mas a mostra vai além dos títulos badalados e inclui O Cangaceiro Trapalhão, grande sucesso do quarteto de Renato Aragão, O Auto da Compadecida (de Guel Arraes), o maior bilheteria de 2000 e o primeiro filme a alcançar 2 milhões de pagantes na retomada da cinema nacional.O interessante no cardápio da mostra é notar que boa parte dos filmes é adaptação literária (Sagarana, o Duelo, Abril Despedaçado e os já citados São Bernardo, Vidas Secas e O Auto da Compadecida) ou baseados em fatos históricos (Guerra dos Canudos, Coronel Delmiro Gouveia). No entanto, o tema fascina também documentaristas, seja no passado, como é o caso de Memória do Cangaço, de Paulo Gil Soares, em 1965, ou hoje em dia, quando Viva São João, de Andrucha Waddington, sobre uma excursão do cantor/ministro Gilberto Gil pelo Nordeste. Um dos principais títulos é Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, em 1984, um dos filmes que mais marcaram a reabertura política do País após a ditadura militar.Para os organizadores da mostra, o sertão brasileiro comporta várias leituras e nossos cineastas sempre "investigam a paisagem geográfica, humana e cultural do interior brasileiro em suas diferentes facetas". A mostra vai até o dia 28, quando será apresentado Deus e o Diabo, com a presença de Othon Bastos.

Agencia Estado,

18 de março de 2003 | 16h36

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