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Festival mostra a evolução do cinema português

Mostra 'De Portugal para o Mundo' que começa nesta quarta no CCBB e vai até 9 de agosto será gratuita, com 28 filmes como 'Vitalina Varela', de Pedro Costa

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

13 de julho de 2021 | 15h00

Pedro Costa veio ao Festival do Rio, no final de 2019. Trouxe seu longa Vitalina Varela, que chegou precedido das melhores referências em festivais internacionais. Pedro faz filmes na contramão do cinema industrial. Consegue destacar-se no cinema português, que teve/tem autores como Manoel de Oliveira, Miguel Gomes e João César Monteiro. Entrevistado pelo Estadão, Pedro anunciou que voltaria ao Brasil em março de 2020 para uma homenagem no Instituto Moreira Salles. Antecipou que o IMS lhe outorgara uma carta branca, e ele ia aproveitar para mostrar aos brasileiros três filmes de Mikio Naruse, o chamado Douglas Sirk japonês. Naruse, o mestre do intimismo e do melodrama. 


A pandemia impossibilitou a homenagem e a programação, mas agora, mais de um ano depois, cabe a Pedro Costa inaugurar - com Vitalina Varela - uma mostra de cinema português que começa nesta quarta, 14, no Centro Cultural Banco do Brasil, e vai até 9 de agosto. Com curadoria de Pedro Henrique Ferreira, a mostra De Portugal para o Mundo será gratuita, com 28 filmes como o citado Vitalina Varela, O Estranho Caso de Angélica (de Manoel Oliveira), Tabu (de Miguel Gomes), A Portuguesa (de Rita Azevedo Gomes) e outros. Vale destacar que, em janeiro deste ano, a Associação de Críticos dos Estados Unidos votou em Vitalina Varela como quarto melhor filme estrangeiro de 2020, após Collective, do húngaro Alexander Nanau, Bacurau, dos brasileiros Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e Uma Mulher Alta, do russo Kantemir Balagov. 

A ideia da mostra, explica o curador, “é entender os elementos que possibilitaram a emergência de um período tão exitoso no cinema português, num diálogo com a experiência cultural e cinematográfica brasileira hoje”. A abertura, com Vitalina Varela, não poderia ser mais reveladora. Pedro Costa ganhou o respeito da crítica por filmes que não são exatamente palatáveis para o grande público. Mais que filmes, o que ele propõe para os espectadores são experimentos. Realizados com equipes mínimas e orçamentos modestos, quase sempre sem roteiro, o que cada um desses títulos estabelece é a cumplicidade do autor com seus atores. 

Vão tateando, repetindo, à exaustão, as cenas. Pedro tem filmado a comunidade de Cabo Verde em Lisboa. Foi assim que encontrou Vitalina em 2013, quando filmava Cavalo Dinheiro. Ele procurava imigrantes num lugar chamado Cova da Moura. Bateu numa porta e viu-se diante de Vitalina. Por muitos anos, ela havia esperado, na antiga colônia, que o marido emigrado a chamasse para juntar-se a ele. O que recebeu foi um chamado muito mais dramático: o marido havia morrido. O cinema de Pedro procura dar voz a pessoas que o cinemão não considera interessantes. 

O cinemão busca os destinos extraordinários, os super-heróis. Pedro busca as pequenas vidas, os personagens ordinários, mas de tal maneira que essas pessoas - pobres, marginalizadas -, ao se revelar, permanecem no imaginário do espectador. Ele temia ser invasivo com Vitalina, que sofrera tanto. Ela, que entendera o projeto, o incentivava a ir mais fundo. “Nos festivais a que fomos, era emocionante vê-la, intuitivamente, pois não é uma intelectual, mas uma mulher simples, estabelecer a diferença entre Vitalina Varela, o filme, e Vitalina, a pessoa, ela própria.” 

 


Pedro filma muito, consciente de que sua história está tomando forma, de um jeito que ele talvez não esteja percebendo. A montagem é sempre o momento mais difícil para ele. Escolher as cenas, as imagens. “Não é só a fisicalidade, a expressividade do rosto, dos gestos. É também a palavra, e uma coisa que é decisiva. O som e o silêncio. O cinema, para mim, é a arte de dosar os dois.” Falando de sua relação com Vitalina, que foi de uma entrega muito grande, Pedro refletiu para o repórter: “Todos os filmes devem se despedir de seus personagens, é necessário”. 

Em Mikio Naruse, seu mestre japonês, ele encontrou uma forma de minimizar essa ruptura. De volta ao começo. “O filme fecha um ciclo. Cavalo Dinheiro já era uma tentativa de voltar no tempo, aos sonhos que a dificuldade de viver muitas vezes inviabiliza. O começo de Vitalina é o encontro com o marido, o amor por Joaquim, que ela termina por enterrar. A sabedoria das pessoas simples.” Vitalina Varela, o filme, exigente como é, será um belo começo para a mostra do CCBB. De Portugal para o mundo, abre-se uma janela que ilumina a importância das pequenas vidas, e a do cinema como instrumento de conhecimento.

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