Festival leva de volta aos cinemas os melhores filmes de 2013

Programação do CineSesc tem também clássicos da cinematografia brasileira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 de abril de 2014 | 16h34

Sai a mostra Tiradentes em São Paulo e começa o Festival Sesc de Melhores Filmes. Na abertura do evento que trouxe à cidade uma seleção dos melhores filmes do festival mineiro, Danilo Santos de Miranda discursou dizendo que o compromisso da sala da rua Augusta – e do Sesc – é com o bom cinema, independentemente de procedência. O festival abre-se nesta quarta, dia 2, no Cinesesc para convidados com a exibição de um longa brasileiro inédito. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, ganhou o prêmio da crítica para os filmes exibidos na seção Panorama do Festival de Berlim, em fevereiro. A história do garoto cego que sai do armário é narrada com tanta delicadeza que arrebatou – e arrebentou: havia muita gente chorando no fim da projeção – a plateia berlinense. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho tem estreia prevista para o dia 10.

Você não perde por esperar. Como se trata de uma data redonda do Festival Sesc de Melhores Filmes – 40 anos! –, ocorrerá, paralelamente à exibição dos escolhidos pelo público e pela crítica como melhores do ano passado, uma seleção de filmes brasileiros que venceram o evento ao longo de sua história. Eles não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman; O Amuleto de Ogum e Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos; Lúcio Flávio - Passageiro da Agonia e Pixote - A Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco; e A Hora da Estrela, de Suzana Amaral.

Black-Tie passa nesta quarta no Canal Brasil, no ciclo que o canal brasileiro dedica à discussão dos 50 anos do golpe militar. O longa de Leon Hirszman ganhou o Leão de Ouro em Veneza e tem a extraordinária cena em que Fernanda Montenegro cata feijão. Toda a reflexão política do grande Leon – a família divide-se perante a greve – está resumida nesse momento silencioso. Memórias do Cárcere também possui uma dimensão política muito forte. Inspira-se nas memórias de Graciliano Ramos do período em que esteve internado no presídio da Ilha Grande, durante o Estado Novo.

Memórias do Cárcere também ganhou o prêmio da crítica – em Cannes. É um grande filme, mas com as imperfeições que possa ter, O Amuleto de Ogum também é outro grande filme de Nelson, e o que melhor expressa seu sincretismo religioso. A história do garoto que tem o corpo fechado é esfuziante de vitalidade e a trilha "brega" é maravilhosa. Marília Pêra foi melhor atriz para os críticos de Nova York por Pixote e Marcélia Cartaxo foi melhor atriz em Berlim com a austera adaptação que Suzana Amaral fez do livro de Clarice Lispector. Lúcio Flávio foi o filme que "abrasileirou" Hector Babenco. Para encarar a promiscuidade do aparelho repressivo do regime militar com os esquadrões da morte, o diretor argentino naturalizou-se brasileiro. Achava que o olhar estrangeiro não caberia. Era uma mazela do Brasil que, como brasileiro, ele quis denunciar.

Além de ter ganhado o Festival Sesc, Lúcio Flávio foi o primeiro filme a vencer o prêmio da crítica na Mostra Internacional de São Paulo, justamente na primeira, que Leon Cakoff realizou no Masp. Só essa programação paralela, enriquecida por uma exposição de fotos de artistas brasileiros que venceram o evento, já faria do festival um evento importante. Muitos desse filmes foram produzidos sob a ditadura, como obras de resistência. Mas o festival celebra os melhores de 2013. Como sempre, o Cinesesc faz suspense e anuncia os melhores dos melhores somente hoje à noite, na festa de abertura. Vão ganhar o troféu criado por Emanoel Araújo. Qual será o melhor brasileiro? E o melhor estrangeiro? E o melhor ator, a melhor atriz?

Alguns dos filmes que participam da programação – O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho; Mataram Meu Irmão, de Cristiano Burlan; Tatuagem, de Hilton Lacerda; Educação Sentimental, de Júlio Bressane; Tabu, de Miguel Gomes; A Bela Que Dorme, de Marco Bellocchio; Era Uma Vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan; Blue Jasmine, de Woody Allen; Azul É a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche; Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie; O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira; Amor, de Michael Haneke; Django Livre, de Quentin Tarantino; A Caverna dos Sonhos Perdidos, de Werner Herzog.

O festival vai exibir 54 filmes, sendo 28 estrangeiros e 26 brasileiros. Durante a sua realização, ocorrerão duas edições do Cinema da Vela e dois seminários de crítica, um dedicado ao balanço do ano e o outro abarcando as transformações do mercado ao longo dessas quatro décadas.

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