Festival lança cinema na folia do carnaval

Carnaval e cinema sempre se deram bem, seja no Cinema Novo, no tempo das chanchadas ou nos cinejornais que antecediam os filmes até os anos 70. Uma pequena e bem-sucedida mostra dos frutos desse casamento termina nesta terça-feira e movimentou o Sesc-Rioarte, em Copacabana, na zona sul, que funciona onde existiu o cinema Ricamar. O minifestival O Cinema Cai na Folia exibe 12 títulos ? seis longas, cinco curtas e um média -, dando um panorama no carnaval carioca neste século, através de documentários ou filmes de ficção.Entre os longas estão Aviso aos Navegantes, de Watson Macedo, de 1950, e Carnaval Atlântida, de 1953, com direção de Carlos Manga. Os dois filmes têm praticamente o mesmo elenco (Eliane Macedo, Grande Otelo, Oscarito, José Lewgoy, como vilão, e Anselmo Duarte ou Cyl Farney, como galãs) e seguem o gênero de paródia dos grandes musicais americanos. Ou seja, são exemplos perfeitos da nossa melhor chanchada, misturando comédia ingênua com números musicais, avós dos videoclipes. Carnaval Atlântida tem até um personagem produtor de cinema, Cecílio B. de Milho, alusão ao produtor da Metro, Cecil B. de Mille.O Cinema Novo é representado por A Lira do Delírio, de Walter Lima Júnior, com Anecy Rocha, Cláudio Marzo e Paulo César Pereio, e Amor, Carnaval e Sonho, de Paulo Cezar Saraceni, feito em 1972, com Leila Diniz, Ana Maria Miranda, Arduíno Colassanti e Hugo Carvana. Ambos contam histórias de amor bem cariocas, tendo como cenário o desfile carnavalesco. Em A Lira, um bloco de sujos é quase personagem da trama, enquanto no segundo, o gigantesco bloco Cacique de Ramos é enfocado. Neste último, há a derradeira aparição de Leila Diniz no cinema e, coincidentemente, cenas do último baile de carnaval do Theatro Municipal do Rio, além de Colassanti, na época um galã para ninguém botar defeito.Beija-Flor - Samba da Criação do Mundo, documentário de Vera Figueiredo lançado em 1978, tem a curiosidade de mostrar a primeira vitória de Joãozinho Trinta assinando sozinho o enredo de uma grande escola, com A Criação do Mundo na Tradição Nagô, de 1976, da Beija-flor de Nilópolis. O que hoje é banal nos desfiles (grandiosidade dos carros, nudez das passistas, samba em ritmo acelerado e uma riqueza visual que beira o barroco, além do chamamento de Neguinho da Beija-flor, antes de cantar o samba) era novidade naquela época e a diretora conseguiu captar não só a preparação da escola, a movimentação no barracão e na concentração e o próprio desfile, mas também a surpresa e o encantamento que essas novidades causaram no público.Banana is my Business, de 1995, dirigido por Helena Solberg, mistura ficção e realidade para contar a história de Carmem Miranda nos Estados Unidos. A Pequena Notável, em sua fase brasileira, aparece no curta Isto é Lamartine, de Carlos Frederico, documentário sobre Lamartine Babo, compositor de marchinhas clássicas e dos hinos dos clubes de futebol. Os carnavais do início do século passado estão no curta O que Foi o Carnaval de 1920, mostrando os corsos nas avenidas Rio Branco e Beira-Mar, as grandes sociedades (Tenentes do Diabo, Fenianos e Democráticos), precursores das escolas de samba. A herdeira da Cinédia, Alice Gonzaga, reuniu imagens da produtora feitas do carnaval da década de 30, em Memória do Carnaval.As escolas de samba a partir dos anos 70 estão em dois títulos. O curta Artesanato do Samba, de Zózimo Bubul e Vera Figueiredo, foi um dos primeiros a mostrar os barracões onde se constrói o desfile. De quebra, há uma exibição da bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, ainda sob a batuta do lendário mestre André. O média-metragem Fala Mangueira, de Fredi Confalonieri, mostra o cotidiano da escola mais famosa e traz depoimentos de Carlos Cachaça, Cartola e de sambistas tradicionais, como Babaú, Padeirinho, Clementina de Jesus, Tantinho, Delegado, Beto Fim de Noite etc.Planos - "Pretendemos realizar pequenas mostras como esta, sempre temáticas, a cada dois meses", promete a gerente cultural do Serviço Social do Comércio (Sesc) do Rio, Loana Lagos Maia. Em dezembro, a instituição se associou à prefeitura, através da Rioarte, e inaugurou o centro cultural num pronto nevrálgico de Copacabana. A sala de exibição ganhou o nome de Baden Powell e tem servido de palco também para espetáculos musicais, sempre a preços populares. "Nesses primeiros meses de funcionamento, decidimos programar música, para atender aos turistas que se hospedam no bairro no verão. O festival de cinema sobre o carnaval é decorrência da oportunidade de exibir os filmes com a proximidade da festa."Os 12 títulos selecionados são do acervo da Atlântida, uma das principais produtoras brasileiras na primeira metade do século passado, do Canal 100, o principal produtor de cinejornais, e da Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM), do Rio.

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