Festival Internacional de Curtas terá como principal atração filme de Godard

Precursor do uso da tecnologia digital, o cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard abriu o Festival de Cannes deste ano com o curta Da Origem do Século 21. Em seguidinha, você poderá ver o que pensa esse Godard digitalizado e à frente, como sempre, das pesquisas de linguagem e política que se realizam em todo o mundo. Da Origem do Século 21 é a principal atração anunciada do Festival Internacional de Curtas, que deve ocorrer em São Paulo entre os dias 17 e 26.Embora o evento tenha muitas atrações, a maior é mesmo Godard. A idéia desse curta surgiu no fim de 1999, quando o então delegado-geral do Festival de Cannes, Gilles Jacob - agora diretor-geral da mostra -propôs a Godard a realização de um curta para ser exibido como complemento na noite de abertura. Jacob, com certeza, pensava no efeito que um filme de Godard teria no quadro de um festival que deveria começar justamente ao fim de um seminário para discutir as novas tecnologias.Jacob queria que, no último festival do século, Godard apontasse os novos rumos do cinema no século 21. O enfant terrible da nouvelle vague, que continuou terrible mesmo depois que o movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960, deixou de existir, topou, mas construiu sua reflexão sobre a origem do século 21 a partir de um olhar sobre o século que se encerra. Les Origines du 21.me Siécle trata, na verdade, do século 20 e da importância que tiveram, para ele, duas descobertas extraordinárias ocorridas no fim do século 19 - o cinema e a psicanálise.Cinema e psicanálise - O cinema, tudo bem, tem uma data oficial - o célebre 28 de dezembro de 1895, em que os Irmãos Lumire realizaram, no Grand Café de Paris, a primeira sessão pública do seu invento chamado de cinematógrafo. O cinema começou a engatinhar lá. Nos anos seguintes, foi aprimorando técnicas até chegar, em 1915, à formulação de uma linguagem por meio das pesquisas do pioneiro David W. Griffith, com seu clássico O Nascimento de uma Nação. Desde então, o século costuma ser chamado das luzes, não só, mas também por causa desse invento extraordinário. A questão da psicanálise é um pouco mais complicada.É mais ou menos aceita como pacífica a idéia do cinema como materialização do sonho, o que o torna um território propício à investigação psicanalítica. Mas a origem da psicanálise? Ela é nebulosa. Não há uma data precisa, mas terminou aceita a da publicação da interpretação dos sonhos, segundo Freud. O livro surgiu em 1899, mas o pai da psicanálise quis que na edição constasse o ano 1900. Continuava sendo o último ano do século passado, mas já atirava os fundamentos da investigação do inconsciente para o novecento.Godard parte daí. Como o cinema e a psicanálise terminaram por marcar o século 20, que ora se encerra. O curta é um exercício de raro brilho que faz um retrospecto dos últimos cem anos por meio de cenas de guerra, imagens de filmes e textos clássicos que Godard nunca se cansa de utilizar, pois ele é um dos pioneiros na arte de usar a palavra escrita incorporada às suas inovações de linguagem. Estão lá alguns dos personagens mais significativos do século. Freud, bien sur, o inevitável Adolf Hitler, Mao Tsé-tung, entre outros. E o próprio Godard, claro. Não é por narcisismo que a imagem do próprio autor aparece em cena. Godard sabe que o cinema nunca mais foi o mesmo depois dele.Da Origem do Século 21 - Brilhante, inovador na sua colagem de imagens e textos gravados em câmera digital e kinescopados, Da Origem do Século 21 foi exibido em Cannes com o Vatel de Roland Joffé. Interpretado por Gérard Depardieu, o filme sobre o célebre intendente que preparou a recepção do príncipe de Condé para o rei Luís XIV documenta os três dias e noites que duraram as festas. Vatel não preparou apenas cardápios elaboradíssimos. Imaginou também mise-en-scnes grandiosas para divertir o rei e a corte de Versalhes, que se transferiu com ele para o castelo dos Condé.Vatel não é ruim, mas foi recebido como um exemplo perfeito do cinema da era da globalização. Um produto híbrido, com equipe técnica e artística, elenco e personagens internacionais, isso para não falar nos capitais mobilizados em diversas fontes e países (embora o filme seja oficialmente inglês). Um representante do cinemão, com sua dramaturgia tradicional, e um experimento que aponta para novos rumos. Foi o retrato perfeito do festival da virada do século.Mas Godard não obteve reconhecimento unânime. Muita gente ficou decepcionada, achando que o curta pode ser muito bem-feito, até demais, mas, a rigor, não traz nada novo para a compreensão do século. É um exercício de estilo - e só. O Festival Internacional de Curtas de São Paulo vai ser o foro para que você também possa discutir a nova provocação desse gênio chamado Godard.

Agencia Estado,

30 de julho de 2000 | 15h06

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