Festival Internacional de Cinema de Brasília abre com Geraldine Chaplin

Evento começou nesta quinta-feira, com exibição de 'Luzes da Ribalta'; homenageados são Charles Chaplin e sua filha

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2014 | 10h15

BRASÍLIA - Geraldine Chaplin estava muito elegante vestindo pantalona preta e tênis branco na inauguração do BIFF, Brasilia International Film Festival, nesta quinta-feira, 28, à noite. Subiram ao palco o ator Antônio Pitanga e os produtores Luiz Carlos e Lucy Barreto para homenageá-la. Em nome dos organizadores do evento, Luiz Carlos deu a Geraldine uma caixa com DVDs de filmes brasileiros, para que ela leve consigo um pedaço do Brasil. Geraldine ouviu declarações de amor a seu pai, o grande Charles Chaplin.

Comemora-se este ano o centenário de Carlitos e todo mundo - de uma certa idade - tem histórias para contar sobre o genial vagabundo. Lucy lembrou o cineminha do lado de sua casa, onde viu seu primeiro Carlitos. Antônio Sampaio, hoje Pitanga, disse que nem sabia que seria ator e já era seduzido por aquele homenzinho que sempre deu lições de humanidade. O BIFF homenageia os 100 de Carlitos com uma retrospectiva de seus filmes (curtas, principalmente) e com o prêmio honorário para sua filha, Geraldine. Há aqui uma retrospectiva com seis de seus filmes. Nenhum de Carlos Saura, o cineasta espanhol com quem foi casada. Na entrevista ao Estado, ela disse que teria selecionado Cria Cuervos, se fosse chamada a escolher os filmes.

Quando o microfone parou em sua mão, Geraldine surpreendeu a plateia – “Não posso acreditar. Brasília, I’M HERE, ESTOU AQUI!” E ela contou a seguinte história. No começo dos anos 1960, a jovem Geraldine foi trabalhar como au pair na casa de uma família de poloneses, em Londres. Falando em espanhol, referia-se aos ‘polacos’. O casal estivera na inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960. Ambos apaixonados pela mais jovem capital do mundo, comemoravam sua inauguração com uma grande festa, em todo dia 21 de abril, como se fosse um aniversário da família.

“Comia comida polaca, bebia bebida polaca (vodca), mas a música era brasileira, muita bossa nova”, lembrou Geraldine. E o casal a atormentava. Para uma jovem de 17 anos, louca de desejo de viver a vida, marido e mulher diziam que Geraldine ia morrer e Brasília seria sempre jovem. Ela passou a idealizar a cidade moderna (futurista?) criada pelo gênio de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Ao chegar a Brasília, a primeira coisa que fez foi andar pela cidade. “Surpreendi uma sombra familiar, de um pequeno vagabundo que gostaria de ter vandado por aqui. Feliz aniversário, Carlitos! Felicidades, Brasília!” A plateia adorou. Geraldine Chaplin tornou-se, imediatamente, brasiliense honorária.

E veio o filme da noite – Luzes da Ribalta/Limelight, como parte da dupla homenagem, a Geraldine e ao criador de Carlitos, Charles Chaplin. Os críticos gostam de lembrar que, na evolução de sua carreira, Chaplin já matara Carlitos ao fazer M. Verdoux, em 1946. O protagonista de Luzes da Ribalta é Calvero, o velho palhaço que perdeu seu público e vive sonhando em voltar. Calvero toma sob sua proteção uma jovem bailarina que tentou o suicídio. Como sua pior inimiga, ela vive criando para si mesma empecilhos. Acha que não poderá mais dançar. Calvero insufla-lhe confiança. Agradecida, ela quer se casar com ele, mas Calvero sabe que ela ama o pianista a quem ajudou, Neville. É interpretado por Sidney Chaplin, filho do diretor.

Logo no começo, Geraldine faz uma pequena participação. Foi sua estreia no cinema, como umas das crianças que, na rua, apontam o dedo para Calvero, quando ele chega bêbado à pensão. Chaplin, que resistiu quanto pôde a utilizar a palavra, quando o cinema começou a falar, fez um filme em muitos momentos verborrágico. Mas tudo o que Calvero diz é relevante. São as críticas do autor ao estado do mundo. Na época, 1950, ela já estava exilado na Europa, fugitivo do macarthismo. Calvero fala, Claire Bloom, como Terry, a garota, dança as composições do próprio Chaplin.

O filme é o testamento cinematográfico de um grande artista. Por causa da perseguição do macarthismo, permaneceu inédito por mais de 20 anos em Los Angeles. Só estreou no começo dos anos 1970. Chaplin ganhou seu único Oscar, o de canção (por Smile). Faz parte da história da Academia de Hollywood. A standing ovation, o aplauso de pé, para o grande artista banido. Chaplin morreria pouco tempo depois, no Natal de 1977. Geraldine também foi aplaudida de pé. Seu encanto a todos conquistou, aqui em Brasília.

O repórter viajou a convite do Festival de Brasília.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.