Festival ganha ares orientais

O Festival de Veneza se impregnou neste sábado de um singular sabor do Oriente com a apresentação dos filmes Takeshi´s, do admirado diretor japonês Takeshi Kitano, e o violento Sympathy for Lady Vengeance, do coreano Park Chan Wook. A chegada dos diretores asiáticos, com histórias cheias de sangue, disparos, comida e vômitos, mas narradas com talento, já que refletem também sentimentos complexos, confirma a importância e o peso atual da cinematografia desse continente. O criativo diretor japonês, várias vezes premiado na Europa (Leão de Ouro em Veneza em 1997 com Hana-Bi), convidado surpresa a concorrer este ano na Mostra, apresentou uma obra qualificada de "psicanalítica". Os dois personagens são interpretados pelo próprio cineasta, popular ator da televisão japonesa, que rejeita toda explicação ou indicação autobiográfica. "Não pretendo que entendam o conteúdo, quero que se divirtam apenas. É só um filme", asseguro, apesar de o novo filme ter sido comparado a Oito e Meio, de Federico Fellini, pela concatenação de sonhos e pesadelos, personagens e recordações. "Fellini e Godard são meus diretores preferidos, mas não entendo bem seus filmes. Os meus não têm necessidade de serem entendidos", acrescentou. Conhecido pela ironia com que aborda personagens populares como os chamados "yakuzas", os mafiosos japoneses, Kitano faz muitas referências a suas filmes do passado ainda que tenha anunciado que não voltará a dirigir histórias violentas. "Em minha segunda fase cinematográfica quero falar de beleza, paz e mulheres", declarou. Para Tullio Kezich, do jornal italiano Il Corriere della Sera, Kitano, de 58 anos, tem "um estilo excelente, mas excessivo, repetitivo, que não provoca o riso nem faz sorrir". Menos divisões na crítica suscitou o filme do coreano Park Chan Wook, autor também dos elogiados Old Boy e Sympathy for Lady Vengeance, que compete em Veneza pelo cobiçado Leão de Ouro. No último capítulo de sua trilogia dedicada à vingança, Chan Wook aborda esse comportamento através dos sentimentos profundos de uma mulher, a bela Geum-ja, a atriz Lee Young-ae, conhecida por séries de televisão coreanas, e que interpreta uma jovem acusada injustamente do assassinato de um menino de cinco anos, com requintes de crueldade. Depois de pegar 13 anos de prisão, onde se comporta como prisioneira modelo e a consideram um anjo, apesar das atrocidades às que assiste, a protagonista cumpre sua "doce" vingança, capturando o verdadeiro assassino, seu pervertido ex-professor de inglês, que gravava as torturas e as violências às quais submetia as suas vítimas. "É um filme surpreendente, muito bem dirigido e demonstra o próprio modo de ver o mundo da Ásia, que está deslocando o eixo do planeta", comentou o escritor italiano Roberto Cotroneo. "Não se trata de um fenômeno apenas cinematográfico. Estamos assistindo a um momento histórico. Em poucos anos o mundo vai girar em torno da Ásia, tanto na parte comercial como na cultural, principalmente na literatura", acrescentou. A maldade e a obsessão da protagonista, misturada com poesia e dor, são empregadas pelo diretor para enviar uma mensagem: "Paga-se por todas as culpas", como o diz e repete o personagem central do filme. "Culpa e expiação são sentimentos muito próximos ao mundo feminino e dão uma nota de esperança ao filme", assegurou o artista coreano.

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