Festival exibe primeiros filmes

Como estava no programa, a noite de gala do 57.º Festival de Cinema de Veneza foi dedicada a Clint Eastwood. Clint recebeu um Leão de Ouro especial pela carreira das mãos da atriz Sharon Stone, que trajava um vestido de oncinha, artificial e, portanto, ecologicamente correto. Na cerimônia, Clint agradeceu, falou bem do país anfitrião, e prestou tributo póstumo ao diretor Sergio Leone, responsável pelos filmes que o projetaram ao estrelato internacional. Em seguida, chamou ao palco do Palácio do Festival seus companheiros de aventura em Caubóis do Espaço, James Garner, Tommy Lee Jones e Donald Sutherland.Capítulo homenagens e badalações hollywoodianas encerrado, passa-se aos filmes. Foi muito bem-sucedida a sessão de Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna, que, em italiano, ficou sendo Il Rap del Piccolo Principe contro le Anime Malvage. A Sala Volpi (uma das salas médias do festival, com cerca de 300 lugares) lotou. E boa parte do público permaneceu para o debate com o diretor após a projeção. Aparentemente era grande a curiosidade do público italiano por aquele mergulho radical na violência e na dívida social brasileira. O Corriere della Sera fez uma referência positiva ao filme nacional, adjetivando-o de "instrutivo e chocante".Foram apresentados os dois primeiros concorrentes da mostra competitiva, o indiano Uttara, de Buddhadeb Dasgupta, e o italiano I Cento Passi (Os Cem Passos), de Marco Tullio Giordana. O primeiro é interessante, mas não deve contar muitos pontos para a premiação. Mergulha na realidade da Índia, aquela menos conhecida pelos turistas. Fala da condição da mulher, de castas humilhadas, da repressão sexual. Como mistura tudo, fica a impressão de que o diretor não soube centrar seu foco sobre um tema principal e desenvolvê-lo.A precisão que falta ao filme da Índia sobra no da Itália. Giordana (autor do documentário Pasolini: um Delito Italiano, apresentado em São Paulo) revive um caso real ocorrido na Sicília. O jovem Peppino Impastato (Luigi Lo Cascio) revolta-se contra o predomínio da Máfia em sua cidade, Cinisi, mantém uma rádio livre na qual faz denúncias e resolve candidatar-se a vereador. Acaba sendo morto antes da eleição. O filme recebeu acolhida consagradora do público italiano. Não apenas porque fala de um difícil problema local, a luta contra o crime organizado, mas porque o faz de maneira emocionada, porém lúcida e segura. Na concorrida entrevista que concedeu hoje à imprensa, Giordana disse que, apesar de se reportar em Os Cem Passos aos anos 60 e 70, sente-se como se estivesse falando de hoje. "Todo cineasta, em qualquer trabalho, é contemporâneo do seu tempo." Trata-se de forte candidato. Recorde-se que, há dois anos, outro italiano, Gianni Amelio, levou o Leão de Ouro com Assim É Que se Ria, também um trabalho político e humanístico.Grave defecção em Veneza: Martin Scorsese mandou avisar que seu documentário A Minha Viagem pela Itália não ficará pronto a tempo de ser exibido no festival, como estava programado. O projeto é um grande hino de amor ao cinema italiano e está sendo em parte patrocinado pela grife Giorgio Armani. Scorsese intercala trechos de antigos filmes da península com comentários pessoais, tentanto mostrar que o cinema, tal como o conhecemos hoje, não seria possível sem a grande tradição italiana a sustentá-lo.Na carta que enviou ao presidente da mostra, Alberto Barbera, Scorsese confessa-se "desolado" com a impossibilidade de apresentar "nem sequer uma cópia de trabalho". "O atraso se deve à dificuldade de manipulação de um material fílmico que tem às vezes 40 ou 50 anos", escreve o diretor ítalo-americano. Em resposta, Barbera se diz desapontado com o cancelamento daquela que seria uma das principais atrações do festival, mas que compreende as dificuldades técnicas que o motivaram.

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