Festival em Goiás termina apontando mais causas que soluções

Uma visão desolada do mundo, devastado em suas florestas e afogado em lixo e água podre. O 2.º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) terminou hoje, na cidade de Goiás, apontando mais causas do que soluções. A maioria das obras inscritas preferiu retratar a perigosa situação atual, em que o desflorestamento e os problemas de saneamento básico crescem perigosamente em diferentes pontos do planeta.A própria reação do público, eufórico no aplauso para os filmes mais focados na denúncia, demonstrou a tendência afinada com os realizadores. Puerto Principe Mio, do cubano Rigoberto López, eleito o melhor do festival e ganhador de um prêmio de R$ 20 mil, é um exemplo: retrato cruel da degradação da capital do Haiti, onde a falta de planejamento urbano provocou uma desordenada ocupação territorial, trouxe a miséria e a violência e causou ainda um descontrole completo da água que vem das montanhas, o filme (rodado em vídeo) apresenta dados alarmantes.Como o revelado por uma pesquisadora, que aponta 45% do ar da cidade contaminado por odores fecais. Não menos desolador, o documentário termina com o depoimento de jovens beirando os 25 anos, que se confessam pessimistas. "Não há futuro para o Haiti", afirma um deles, desconsolado - a frase tirou a platéia do silêncio, num aplauso nervoso.Também o drama de homens obrigados a trabalhar em condições sub-humanas, além do farto prejuízo à natureza, apresentados em Os Carvoeiros, de Nigel Noble, convenceu o júri a classificar o filme como o melhor longa-metragem. O melhor média foi o francês Maharadja Burger, de Thomas Balhés, que trata das diferentes formas de culto da vaca, na Índia e Inglaterra.Humor corrosivo - A preocupação com o impacto ambiental norteou até mesmo as obras mais despretensiosas. Como Entrevista com o Morcego, curta de animação com bonecos modelados em massa, dirigido e criado por Dustan Oeven e Moisés Cabral. Com um orçamento modesto (R$ 3.200, financiados por um colégio de Goiânia, Dimensão), o filme trata das agruras de um velho morcego, obrigado a abandonar sua caverna que será inundada graças à construção de uma represa."Temos uma preocupação muito grande com o problema provocado por mudanças radicais na natureza", comenta Moisés que, como Dustan, tem formação em antropologia social. "Trabalhar com bonecos é uma forma de atrair mais a atenção para esses problemas." O humor corrosivo acompanhou também o trabalho do francês Konstantin Bronzit, que trouxe seu curta Au Bout du Monde que, em tradução educada, seria No Rabo do Mundo. Trata-se de uma animação sobre uma casa delicada, localizada no topo de uma montanha e que balança para os lados, ameaçando cair. Apesar de extremamente simpático, o desenho (como vários outros concorrentes) não trata de assunto ambiental, o que deixou confuso o método de avaliação. Mesmo assim, foi escolhido como melhor curta pelo júri.Trabalhos mais bem definidos com a temática do meio-ambiente, porém, foram apresentados. Muitos com qualidade, como Uma Assembléia Ticuna, de Bruno Pacheco de Oliveira, documentário enxuto e preciso sobre a reunião anual das tribos daqueles índios, em que são apontadas, além das tradições, as várias formas de ameaça.Mudanças - Para o próximo festival, os organizadores pretendem redefinir os critérios de classificação, criando novas categorias. Também a premiação será engordada: o primeiro prêmio por exemplo, passará a faturar R$ 50 mil. A preocupação ambiental espalhou-se na verdade para fora do cine-teatro São Joaquim, onde foram projetados os filmes competitivos.Próximo dali, o artista plástico Siron Franco terminou sua homenagem aos índios goyases, que habitavam a região e foram dizimados, sem deixar nenhum vestígio de sua história. Franco, que já havia desenhado máscaras em pedras próximas ao Rio Vermelho, completou o trabalho na manhã de ontem (03), colorindo a ilustração com ouro. "Além de uma homenagem aos índios, fiz um alerta para a necessidade de se recuperar o rio, que está poluído", afirmou. O ponto final dos cinco dias de filmes e atividades culturais foi o show de Gilberto Gil e Egberto Gismonti, que atraiu um público gigantesco.

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