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Festival É Tudo Verdade lança livro com textos de 32 grandes documentaristas

Volume é organizado por Amir Labaki

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2015 | 03h00

E, afinal, Filmoteca de Filmes não é o nome de uma coleção de livros agregada ao Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Diante da informação fornecida pelo repórter no texto de lançamento do volume da Impresa Oficial com os textos de Vladimir Carvalho – Jornal de Cinema –, o sr. É Tudo Verdade, Amir Labaki, brinca e até diz que está pensando em adotar o nome para uma coleção de verdade. Ao longo de sua história, o festival de documentários já lançou muitos livros. Este ano, está lançando dois – além do de Vladimir Carvalho, que também é tema de uma retrospectiva que comemora seus 80 anos, o festival lança neste sábado, dessa vez em parceria com a Cosac Naify, A Verdade de Cada Um.

É uma antologia de textos escritos por grandes documentaristas. O livro, que reúne textos de 32 (grandes) diretores, será lançado em São Paulo (às 11 h na Livraria Cultura) e no domingo, (às 16 horas) no Rio, na Blooks, livraria localizada no bairro de Botafogo. Amir Labaki, que faz o prefácio de A Verdade de Cada Um, sente-se honrado por autografar ao lado de Vladimir Carvalho, que também lança amanhã seu volume no Rio de Janeiro. O repórter comenta que não terá sido o menor efeito dessa edição do É Tudo Verdade – revelar o grande escitor, além do grande documentarista, que Vladimir Carvalho também é. “Que bom que você pensa assim, mas eu já sabia disso. Quando Vladimir lançou Os Engenhos de Zé Lins, comentou comigo que José Lins do Rêgo não era só o admirável romancista que todo mundo reconhece, mas também um grande cronista. Pois bem, ouso dizer que Vladimir, na modéstia dele, é um estilista, tão grande escritor nas suas reflexões sobre o cinema como o próprio Zé Lins nas crônicas dele.”

Na sua apresentação de A Verdade de Cada Um, Amir destaca que uma das características mais distintas e fascinantes do documentário em relação aos outros gêneros audiovisuais “é a frequência com que os cineastas do real empunharam a pena, antes, durante e depois de empunhar a câmera, para refletir sobre sua produção, seja genericamente (o gênero como um todo), seja especificamente (a criação de uma obra em particular)”. O desejo desse livro é antigo. Amir começou a pesquisar há bens uns 12 anos, mas só no último ano e meio lançou-se ao desafio de condensar suas extensas pesquisas. Os 32 autores de documentários que ele lista – e cujos textos escolheu – foram organizados segundo duas linhas cronológicas quase coincidentes – a data de nascimento e os anos de aparecimento de suas produções documentárias marcantes.

Temos assim um arco que compõe uma verdadeira história – e também, quem sabe, uma teoria do documentário – desde Robert Flaherty, diretor da obra-prima Nanook, o Esquimó, dos anos 1920, até João Moreira Salles, que cobre a atualidade. Entre esses extremos, Amir seleciona temas de diretores como Joris Ivens, Santiago Alvarez, Fernando Birri, Fernando Solanas e Octavio Getino, Marcel Ophuls, Rithy Pahn e Jia Zhang-ke, com sua manifesta preocupação política, com outros que refletem sobre a construção do discurso não ficcional de um ponto de vista mais, digamos, estético. Mas ele não os divide em dois grandes grupos. É tudo misturado – é tudo verdade. 

“Até por conta do meu envolvimento com o festival, tornei-me um voraz leitor de tudo o que se publica sobre documentário, em todo o mundo. E nunca encontrei um livro como esse, que reúne só os próprios diretores. Em geral, são entrevistas, ou uma mescla de textos de pesquisadores com textos de (auto)reflexão, mas nunca, como aqui, a voz dos diretores, por eles mesmos.” Flaherty conta como filmou Nanook, John Gierson estabelece os primeiros princípios do documentário, Joris Ivens fala da subjetividade que se constrói por meio da montagem, Jean Rouch teoriza sobre o filme etnográfico e Chris Marker sobre a memória. São muitas as formas de olhar para o real, e os diretores refletem sobre elas.

“Quando selecionava os textos e trabalhava com a editora para criar o design do livro, nunca me passou pela cabeça, mas agora que já estou com ele pronto, na mão, dou-me conta de uma coisa que agrega valor sentimental ao projeto. Desses 32 diretores, tive o privilégio de conhecer 22, dois terços deles. Alguns dos maiores diretores do mundo”, emociona-se Amir. Esse primeiro volume inclui textos de documentaristas brasileiros –João Moreira Salles, já citado, e Eduardo Coutinho, claro. João fala sobre a dificuldade do documentário e Coutinho, sobre o olhar do documentarista. Amir anuncia – promete? – que vai se empenhar agora para que surja um volume 2 – A Verdade de Cada Um/Brasil.

O lançamento do livro em São Paulo, neste sábado, precede de algumas horas a cerimônia de encerramento, que será realizada a partir das 19 horas, no Cine Livraria Cultura. Logo após a premiação – das competições brasileira e internacional –, serão exibidos os vencedores . Cada espectador que viu os filmes brasileiros e estrangeiros ao longo da última semana, ou mais, terá seus preferidos. O suspense termina. O importante é que nós, o público, e os diretores, e os jurados, reflitam sobre o que diz João Moreira Salles na conclusão de seu texto. Marcel Ophuls diz que, no exercício da função de cineasta do real, conviveu muito com a injustiça. Muito cineasta há de querer usar a câmera, e o documentário, como armas para mudar o mundo. João adverte. Diz essa coisa linda. Não se deve definir o documentário pelo que se pode fazer com o mundo, mas pelo que não se pode fazer com o personagem. Para resumir tudo numa palavra – a ética atravessa o texto do apresentador e os dos 32 diretores. Sem ética poderá até existir documentário, mas não é – Patricio Guzmán não se cansa de dizer – o que queremos contemplar.

A VERDADE DE CADA UM

Organização: Amir Labaki

Editora: Cosac Naify (288 págs.; R$ 39,90)

Lançamento: Livraria Cultura do Conjunto Nacional, Av. Paulista, 2.073. tel.: 3170-4033. Sábado, 18, 11 h

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