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Festival É Tudo Verdade destaca a arte do documentário para iluminar a crise

Amir Labaki divulga a seleção de 2017 e destaca resistência do gênero

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2017 | 20h13

Amir Labaki reuniu a imprensa na manhã de ontem, na Reserva Cultural, para anunciar a programação do 22.º Festival de Documentários É Tudo Verdade, que este ano ocorre entre 19 e 30, em São Paulo e no Rio. O festival de 2017 em números – 82 filmes, 30 países representados, nove lançamentos internacionais, 16 títulos do Brasil. A abertura paulista será com Cidade de Fantasmas e a do Rio, com Eu, Meu Pai e os Cariocas – 70 Anos de Música no Brasil.

É a estreia mundial do longa de Lúcia Veríssimo, e da própria Lúcia como diretora. Ela revisita a história de Os Cariocas, um dos grupos mais importantes da MPB, integrado por seu pai, o maestro Severino Filho, que morreu no ano passado. E também é a estreia latino-americana do documentário de Matthew Heineman, que provocou sensação no Sundance, em janeiro. Heineman dirige sua câmera para os jornalistas ativistas do grupo Raqqais Being SlaughteredSilenly, que diariamente arriscam suas vidas para mostrar ao mundo as atrocidades que o Estado Islâmico que transformou em sua capital.

Labaki, criador e diretor do É Tudo Verdade, não deixou por menos – “Tenho de advertir que quem não gosta de ver o horror real não deve ver esse filme porque é muito forte e impactante. Mas, justamente por isso, quem se interessa pelo que ocorre no mundo tem de ver esse filme porque é um documento estarrecedor. E ainda é valioso porque mostra a importância da resistência da imprensa num momento em que ela vem sendo acossada e colocada em xeque pelo desenvolvimento das redes e mídias sociais.”

Cercado pelos representantes do BNDES e do Itaú Cultural, Labaki agradeceu aos patrocinadores, lembrando que esse não foi apenas o ano mais difícil para o festival mas para a própria sociedade brasileira que, segundo ele, viveu a pior recessão da (nossa) história. Justamente por causa da crise, ou contra a crise, ele registra um extraordinário desenvolvimento do documentário, e não apenas no Brasil. “Tivemos recorde de inscrição, o que mostra que, num momento tão grave, os artistas estão comprometidos com a verdade e não com a alienação.”

O festival deste ano lembra o centenário da Revolução Russa de 1917 – a foto do cartaz, anônima, é do interior de um trem em que o lendário Dziga-Vertov percorria a Rússia, captando imagens, exibindo filmes e promovendo debates. “Estimulados e também censurados pelas autoridades, os documentários compõem uma espécie de continente submerso da cinematografia russa, como boa parte da produção brasileira sob a ditadura cívico-militar.” Entre os títulos programados nessa seção do É Tudo Verdade estão – Avante, Soviete, de Dziga-Vertrov; Sal para a Svanécias, de Mikhail Kalatozov; e A Batalha por Nossa Ucrânia Soviética, codirigido pelo mítico Alexander Dvjenko, a quem se deve o mais belo poema revolucionário do cinema russo e mundial – Terra, de 1930.

A competição brasileira, com filmes de longa e média-metragem, terá títulos como Cidades Fantasmas, de Tyrell Spencer, que mapeia espaços extintos pela falência de ciclos econômicos ou por cataclismos naturais; Mexeu Com Uma Mexeu com Todas, de Sandra Werneck, sobre mulheres guerreiras na denúncia de abusos sexuais; e Em Um Mundo Interior, em que Flávio Frederico e Mariana Pamplona investigam a complexidade do universo do autismo. No Estado das Coisas, Permanecer Vivo – Um Método, de Erik Lieshout, consegue reunir experiências (e personalidades) tão distintas quanto o escritor Michel Houellebeq e o roqueiro Iggy Pop.

Mas é nos Programas Especiais que você terá oportunidade de assistir a alguns dos filmes mais atraentes dessa seleção. 78/52, de Alexandre O. Philippe, dos EUA, dedica 91 minutos à dissecação da emblemática cena do assassinato na ducha de Psicose, de Alfred Hitchcock, que dura, no total, menos de três minutos e o ataque, propriamente dito, tem cerca de 70 posições de câmera para 50 segundos de filme. Eu, Um Negro resgata o clássico de Jean Rouch. E ainda tem O Intenso Amanhã, de João Moreira Salles que – Labaki não arrisca, afirma – será o filme brasileiro do ano. Tudo isso e o É Tudo Verdade ainda abriga a Conferência Internacional do Documentário, com importantes participantes do Brasil e do exterior.

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