Festival do Rio: força dos latinos e um ótimo filme do Brasil

Em 1972, o diretor mexicano Arturo Ripsteinjá tinha dez anos de carreira quando fez um de seus filmesfundamentais, "O Castelo da Pureza". O Festival do Rio, 34 anosdepois, mostra o novo Ripstein, o seu castelo da impureza."Carnaval de Sodoma" integra a Première Latina. Realizado comtecnologia digital, o filme oferece verdadeira suntuosidade demise-en-scène, mas essa visão do mundo desde um bordeldesconcertou o público, na noite de terça-feira. Na segunda-feira, ao apresentar Alejandro GonzálezIñárritu, o autor de "Babel", a diretora artística do festival,Ilda Santiago, destacou a importância da conexão latina, no Rio.O festival quer ser essa vitrine não apenas da produçãobrasileira (na Première Brasil), mas também da produção dospaíses da América Latina (na Première Latina). Há uma importanteseleção de filmes latinos no Festival do Rio 2006. Ripstein éuma de suas estrelas. E o festival, claro, prossegue com aPremière Brasil. Na quarta-feira, o destaque foi "O Ano em Que Meus Pais Saíram deFérias", o novo filme de Cao Hamburger, que será distribuídopela Buena Vista. É ótimo. Conta a história desse garoto cujospais, em 1970, partem em viagens de férias - metáfora para oingresso na clandestinidade, nos duros anos da ditadura militar.O menino é adotado por um velho judeu e logo se integra àcomunidade judaica do Bom Retiro. Seu sonho é ser goleiro. O paipromete voltar após a Copa do Mundo, a do tri, no México. Hamburger foi persuadido a trocar o título original,"Minha Vida de Goleiro", sob a alegação de que as mulheres é quelevam os maridos aos cinemas e elas não vão ver filmes defutebol. "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias" força umaponte com "Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios", de EmirKusturica, o que talvez gere certa antipatia. Não permita queisso ocorra. O filme de Cao faz bonito nessa Première Brasil quetem Karin Aïnouz, Heitor Dhalia, Ricardo Elias, Tata Amaral -todos na linha de frente da nova geração do cinema brasileiro. A história é emocionante, existem vários subtemas, mas ogrande tema de "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias" é oexílio interno desse garoto, privado do pai, da mãe, e que vive,malgrado a corrente de solidariedade que o envolve, como umestranho em seu País. Cao confirma que o cinema não precisamostrar para dizer. De volta a Ripstein, o pai, em "O Castelo da Pureza",isolava a família para afastá-la da degradação do mundo. Aqui, obordel é um antro de perdição, mas a Igreja e a hipócritasociedade das boas famílias são piores ainda. Ripstein é fogo. Ea Première Latina está mostrando "As Leis de Família", de DanielBurman; "Meus Quinze Anos", de Ricardo Glatzer e WashWestmoreland; e "Só Deus Sabe", de Carlos Bolado. Tomara quetodos estejam na Mostra de São Paulo.

Agencia Estado,

28 de setembro de 2006 | 13h31

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