Festival do Rio BR tem edição engajada

Você não agüenta de vontade de ver os novos filmes de Nanni Moretti, Jean-Luc Godard e Eric Rohmer, de ver, em primeiríssima mão, as novidades do cinema brasileiro que vão dar o que falar nos próximos meses? Quer participar de debates, ver personalidades do País e do exterior, ver cinema na praia, sessões malditas à meia-noite? Mude-se para o Rio, pelo menos no período entre 27 deste mês e 8 de outubro, quando a Cidade Maravilhosa estará abrigando o Festival do Rio BR 2001.Só não é o maior evento do gênero no Brasil porque, você sabe, em outubro realiza-se por aqui a 25.ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo. Não vale a pena estimular polêmicas do tipo "qual é o maior". O importante é que esses eventos fazem a delícia dos cinéfilos cariocas, paulistas e de todo o País, que atravessam as fronteiras de seus Estados para curtir a grande festa do cinema mundial que as duas cidades promovem. Faltando pouco mais de duas semanas para o seu início, o Festival do Rio BR 2001, pelo segundo ano consecutivo patrocinado pela BR Distribuidora, permite-se fazer previsões extraordinárias: 400 filmes serão exibidos durante 12 dias em 30 salas do Rio de Janeiro. A expectativa dos organizadores é chegar ao fim do evento deste ano contabilizando 150 mil espectadores.Até pelo apoio que a BR Distribuidora costuma dar ao cinema brasileiro, uma produção nacional foi escolhida para inaugurar o festival deste ano, na noite de 27, no cine Odeon, em pleno coração da Cinelândia. O escolhido foi O Xangô de Baker Street, que Miguel Faria Jr. adaptou do best seller de Jô Soares, mas de resto o Festival do Rio BR 2001 vai mostrar outros 40 títulos representativos da produção brasileira recente, de curta e longa-metragem. E, a exemplo do ano passado, quando o festival homenageou Gillo Pontecorvo com uma retrospectiva, outro grande nome do cinema político, e também da Itália, estará presente no Rio para a retrospectiva que vai exibir toda a sua obra: Francesco Rosi. Essa preferência por cineastas de esquerda não é fortuita: o coração que anima o Festival do Rio BR está na esquerda.Ilda Santiago e Walkíria Barbosa são as "donas" do festival. Ressaltam que se trata, essencialmente, de um festival político, feito para marcar posições. A BR Distribuidora, de novo, patrocina a festa, investindo R$ 3 milhões em troca da exclusividade que lhe garante até o BR incorporado ao nome do evento. A parceria vem do ano passado, deve prosseguir no ano que vem - o acordo inicial foi de três anos -, mas Ilda e Walkíria esperam que dure muitos mais. "É outra coisa poder planejar com antecedência, sabemos que teremos recursos para realizar nossos projetos", diz Ilda, do Grupo Estação, que, além da distribuidora de filmes, acaba de adquirir o conjunto de cinemas Belas Artes, em São Paulo. Como Leon Cakoff, que organiza a mostra de São Paulo, Ilda e Walkíria têm uma relação de amor com o cinema.São cinéfilas, querem abrir a janela do cinema para o maior número possível de espectadores, oferecendo alternativas mais inteligentes que o cinemão de Hollywood que ocupa as telas do País. Só alguns dos títulos anunciados para o Festival do Rio BR 2001, entre os 400 prometidos, já evidenciam essa disposição: La Stanza del Figlio, o novo Nanni Moretti, por ele dirigido e interpretado, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano; L´Eloge de l´Amour, o novo Godard, também fez sensação em Cannes; Italiensk for Beginerer (Italiano para Principiantes), da dinamarquesa Lone Schertij, primeira diretora do Dogma, ganhou o prêmio do júri em Berlim; Monsoon Wedding, da indiana Mira Nair, acaba de ganhar o Leão de Ouro em Veneza; e L´Anglaise et le Duc, de Eric Rohmer, só não tirou o prêmio de Mira porque foi exibido fora de concurso, também no recém-concluído Festival de Veneza, onde o diretor francês da ex-nouvelle vague, trabalhando pela primeira vez com tecnologia digital, recebeu um Leão de Ouro especial por sua extraordinária carreira.Filmes, muitos filmes. Nacionais, internacionais. E as seções que a cada ano ganham mais força: Mundo Gay, com filmes de temática GLS; Midnight Movies, com produções experimentais (este ano a força estará com a italiana Asia Argento, com o cult Scarlet Diva). Além dos numerosos lançamentos internacionais, a Première Brasil e a mostra competitiva de curtas brasileiros destinam-se a exibir (e a premiar) o melhor da nova produção nacional. E ocorrerão seminários para discutir a produção e a exibição, com representantes de diversos países, que tentarão usar o fórum do Festival do Rio BR 2001 para criar frentes comuns senão de combate à hegemonia hollywoodiana, pelo menos capazes de garantir uma circulação mais ampla para os seus produtos alternativos à poderosa indústria do cinema americano.

Agencia Estado,

10 de setembro de 2001 | 10h44

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