Festival do Recife homenageia atores negros

Ela era linda. "Eu sou linda", corrige Ruth de Souza. Mas era mais, um assombro, quando era jovem. "Não tinha consciência disso", confessa. "Ninguém me dizia; naquele tempo, negro não era considerado bonito; isso só veio depois do Malcolm X", cita o reverendo que liderou a luta por direitos civis dos negros americanos, nos anos 60. Com mais de 50 anos de carreira, Ruth é uma verdadeira instituição do teatro, do cinema e da TV no País. Vai receber uma homenagem especial no Festival do Recife, que ocorre de 24 a 30 de abril. Com Ruth, outro importante ator negro também será homenageado pelo festival na capital de Pernambuco. Milton Gonçalves também é conhecido do teatro, do cinema e da TV.Fez o papel-título do genial A Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura, um dos filmes mais fortes realizados no Brasil, no começo dos anos 70. Um dos raros, senão o único, a colocar na tela a tortura, justamente no momento em que ocorriam coisas terríveis nos porões do regime militar. Com A Rainha Diaba, Gonçalves ganhou os quatro prêmios mais importantes do ano - Coruja de Ouro, Candango, Governador do Estado e Air France. Ele foi também um dos operários de Eles não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman. Só esses dois já lhe valeriam admiração eterna, mas Gonçalves fez muitos outros (foi o lendário Natal da Portela no filme que Paulo César Saraceni dedicou ao personagem). Gonçalves admite estar feliz com a homenagem que Recife vai lhe prestar. Diz que é próprio da natureza humana querer o reconhecimento, mas há motivos que ultrapassam, e muito, a vaidade pessoal. Acha importante voltar, para essa consagração, justamente ao Recife, onde, nos anos 60, a nefasta censura tentou impedir que o Teatro de Arena apresentasse sua importante montagem de Revolução na América do Sul. Acha que o prêmio especial se liga não só à sua arte, mas também à luta pelo resgate da auto-estima da população afro-brasileira, e isso num ano como este, em que vai ocorrer, na África do Sul, um grande debate internacional sobre o racismo.Ruth admite ter uma ligação muito forte com o jornal O Estado de S. Paulo. "O jornal sempre me tratou muito bem", diz. Na estante, guarda com carinho os prêmios Sacis que recebeu nos anos 50. Era o prêmio que o Estado dava aos melhores do cinema, na época. Ruth foi premiada duas vezes - por Terra Violenta, uma adaptação do romance Terras do sem Fim, de Jorge Amado, e por Sinhá Moça, que permanece como seu filme preferido. Sinhá Moça virou um dos marcos da Vera Cruz, quando Franco Zampari tentou criar, em São Paulo, a chamada Cinecittà dos trópicos. Com o filme dirigido por Tom Payne, o trabalho de Ruth ganhou a vitrine do Festival de Veneza, no qual ela "quase" ganhou o prêmio de melhor atriz. Só para constar - quem levou a Taça Volpi de interpretação feminina naquele ano, 1953, foi Lili Palmer, por Leito Nupcial.Ruth e Gonçalves moram perto um do outro, no Rio. São praticamente vizinhos. Trabalharam juntos e até hoje - ela, uma atriz respeitada, ele um ator e diretor não menos respeitado -, representam uma espécie de consciência crítica sobre a situação do negro no audiovisual (e nos palcos) do País. Ruth usa o tempo todo o termo, negro. Gonçalves prefere dizer "afro-brasileiro". Ambos são, de certa forma privilegiados. Ruth ganhou o título de comendadora, é contratada (há 35 anos) da Globo. Além de interpretar novelas e especiais, Gonçalves dirigiu, na mesma emissora, programas importantes, como Carga Pesada e Caso Verdade. Consagrados, festejados, ambos comentam o livro de Joel Zito Araújo, A Negação do Brasil, como uma peça significativa para uma reflexão que se faz necessária.Podem existir grandes atores negros no Brasil - e os dois são a prova -, podem existir atores negros mais jovens, belos e talentosos, mas a TV do País que o cientista social Darci Ribeiro chamou de "mulato" limita esse elenco aos papéis de coadjuvantes. Não se escrevem, na televisão, grandes papéis para negros. "Os autores são brancos, escrevem sobre o que conhecem", conta Ruth. Os negros, nas tramas, são quase sempre assaltantes, marginais, meninos de rua. E, assim, toda uma temática dos negros de classe média não aparece, ou aparece muito timidamente na sua TV. Gonçalves, que foi muito amigo de Janete Clair e Dias Gomes, conta que surpreendeu ao dizer, certa vez, que queria interpretar um negro de colarinho, para expressar essa nova temática. Ruth, que agradece à Globo por mantê-la sob contrato, diz que a discriminação é também econômica. Recebe menos que os artistas brancos. Diz sem mágoa, como a constatação de uma verdade.Um dia muito especial - Emociona-se ao falar dos papéis principais. No palco, não esquece o Réquiem para uma Negra, de William Faulkner, nem a dramatização do texto da favelada Carolina Ana de Jesus, Quarto de Despejo (que depois virou especial na Globo, numa das vezes em que a TV proporcionou um grande papel a uma atriz negra). Conta que Nélson Rodrigues escreveu O Anjo Negro para o Teatro Experimental do Negro, mas quem terminou fazendo a peça foi Maria Della Costa, em parceria com Sandro Polônio. O dia 8 de maio de 1945, ela não esquece. Pisou pela primeira vez no palco do Teatro Municipal, do Rio, quebrando um tabu. O teatro não admitia atores negros. Ruth, integrando o Teatro Experimental do Negro, orgulha-se dessas pequenas coisas que, na verdade, foram grandes passos numa caminhada que ainda não terminou. Mas aquele dia não foi importante só por isso. O povo comemorava, nas ruas da cidade, o fim da 2.ª Guerra. As duas coisas ligaram-se para sempre na sua memória. E o fim da guerra, quando a democracia prevaleceu sobre o totalitarismo do nazi-fascismo, coincidiu com o fim de uma regra hedionda, que segregava os atores negros.Segregava, assim no passado, em termos. Com todo o avanço obtido nas últimas décadas, Ruth diz o óbvio - que a discriminação continua. Por isso mesmo, espera que o reconhecimento, seguido dos debates que ocorrerão no Recife - Joel Zito Araújo vai participar de um seminário -, ajude a ampliar espaços para o ator negro no País. Gonçalves, mesmo destacando a importância do trabalho de Joel Zito - "É sério, ele é um moço fino, deu ao tema um tratamento científico" -, faz ressalvas. A mais forte delas diz respeito à análise do próprio papel no processo criativo da TV brasileira. Você pode não saber, mas ele dirigiu, entre outras, a novela de maior sucesso internacional da Globo, a cultuada A Escrava Isaura. Dirigiu, ou co-dirigiu, outras igualmente importantes. E, além do Carga Pesada, deu o ponto de partida para um programa que também virou cult e hoje a própria Globo tenta ressuscitar - A Grande Família.No fundo, gostaria que o livro de Joel Zito recuperasse seu papel decisivo na teledramaturgia brasileira. E não como um reconhecimento pessoal, mas como forma de culivar a auto-estima do artista brasileiro de origem afro, que tem hoje mais consciência do seu valor. Da sua raça - no duplo sentido da etnia e da garra. Foi por esse rótulo, "um festival de raça", que o Festival do Recife resolveu homenagear Ruth e Gonçalves, informa o homem que comanda o evento, Alfredo Bertini. O brilho da homenagem, mais do que merecida, pode ser empanado por um detalhe. Ruth, que sofre de claustrofobia, não anda de elevador nem viaja de avião, de jeito nenhum. Se fosse mais jovem, aventurava-se a viajar de carro do Rio para o Recife. "Não vou, não é desfeita, mas não quero me estressar; já pedi ao Milton (Gonçalves) que me represente."

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