Festival do Recife define favoritos

Quando defendem a existência do cinemanacional, os diretores do País costumam dizer que o brasileirogosta de se ver na tela. O problema é que, num mercado formatadopara a produção de Hollywood, há pouco espaço para que obrasileiro se veja nas telonas do Brasil. O Festival do Recife éuma das grandes vitrines para essa exposição tão necessária, atécomo afirmação da identidade nacional. Cabem 2,6 milespectadores sentados no Cine Teatro Guararapes, onde ocorrem asexibições oficiais do evento. Havia cerca de 3 mil pessoas naquinta à noite. Gente de pé, pelos corredores, sentada no chão.Aplaudiram muito o documentário O Fim do sem Fim, de BetoMagalhães, Cao Guimarães e Lucas Bambozzi. Aplaudiram bastanteO Invasor, de Beto Brant, antes da projeção e um pouco menosno fim. A platéia quase veio abaixo quando Beto subiu ao palcocom sua numerosa equipe, fez as apresentações (e osagradecimentos) de praxe. Até aí, normal. O estouro ocorreuquando o titã Paulo Miklos puxou o rapper Sabotage para o centrodo palco e juntos executaram um rap cheio de som e fúria,falando de violência e exclusão social. É o tema do filme deBeto. Miklos faz o invasor do título, um assassino de aluguelque entra na vida de dois executivos que o contrataram para umamissão. Não apenas entra - instala-se, com todas asconseqüências dessa invasão do centro pela periferia. Sabotageparticipa da trilha e faz um pequeno papel. Antes da sessão,falou da sua alegria de estar na tela, menos por ele mesmo e porseu ego do que pelo fato de que sua música põe no cinema afavela e, com ela, o Brasil dos excluídos. Embora ainda falte exibir neste sábado o últimoconcorrente, As Três Marias, de Aluízio Abranches, o mesmodiretor de Um Copo de Cólera -, já é possível anteciparalguns movimentos do júri, na premiação de domingo à noite. OInvasor dificilmente deixará de receber alguns troféus Passista,talvez seja até o favorito para as categorias principais, defilme e direção, mesmo que não seja uma unanimidade. Arealização é mais interessante, tecnicamente, do que o olhar queBeto e o roteirista Marçal Aquino lançam sobre o Brasil deFernando Henrique Cardoso. Neste sentido, os aplausos meiotímidos do desfecho, ao contrário dos entusiásticos do começo,explicam-se pelo caráter anticlimático desse final, que corre orisco de deixar o espectador meio frustrado. O Fim do sem Fim também produz certa frustração.Possui o toque sofisticado do videomaker Lucas Bambozzi - ealgumas cenas são ótimas -, mas prova que bons documentários,mesmo de personagens, não se fazem só com bons depoimentos.Bambozzi e seus parceiros de direção quiseram mapear profissõesem extinção no Brasil atual. Vêem nelas um signo de resistênciado Brasil a esse mundo globalizado. Incluem o cinema nessemovimento. Alguns momentos - o depoimento do nordestino quecritica a modernidade, toca o celular, ele atende e diz que vaimentir mais um pouquinho para os repórteres - tiveram a maiorovação, a cena aberta, desse festival. O Fim do sem Fimbateu na veia do público. O festival deste ano, que investe nanordestinidade como tema, mostra quanto é grande aregionalização do País globalizado na TV. O público gosta de sever na tela. O de Pernambuco identificou-se totalmente comalgumas das figuras mostradas em O Fim do sem Fim.(O repórter viajou a convite do festival)

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