Festival do Cinema Brasileiro começa com problemas em Miami

Várias personalidades do cinema nacional estão aqui na Flórida, participando do 7.º Festival do Cinema Brasileiro de Miami. O evento começou no dia 31, mas, para valer mesmo, a mostra competitiva decolou na quarta-feira, dia 4, e não sem problemas. As precárias condições de som e imagem do Lincoln Theatre, uma sala de concertos - da Orquestra Sinfônica de Miami - adaptada para sediar o festival, levaram ao cancelamento da sessão. O Homem do Ano era um dos filmes da malograda primeira noite. Foi adiado para a noite desta quinta. O diretor José Henrique Fonseca, filho do escritor Rubem Fonseca, considerou o episódio desagradável, mas está tão de bem com a vida (e a carreira) que nem esquentou.Fonseca, que circula por Miami acompanhado da mulher, a atriz Cláudia Abreu, e do ator Murilo Benício, que faz o homem do ano, ainda comemora o prêmio que ganhou no Festival de São Francisco. E já considera como altamente positivos dois convites que já recebeu. Em setembro, O Homem do Ano integra a homenagem que o Festival de Toronto presta ao cinema brasileiro, colocando o foco na produção dos anos da chamada ´retomada´. E, mais para o fim do ano, ele vai a Cuba, para participar do Festival de Havana. "Estou achando muito legal", comemora. "Sempre tive a maior vontade de ir a Cuba e agora vou com meu filme." O Homem do Ano baseia-se no romance O Matador, de Patrícia Melo, adaptado para o cinema por Fonseca com a cumplicidade do pai. Ao escrever o roteiro baseado em O Matador, Rubem Fonseca não deixa de retribuir - o quê? Cortesia? - da escritora, já que foi ela que escreveu o roteiro de Bufo & Spalanzani, que Flávio Tambellini asdaptou do romance policial de Rubem.Curiosamente, José Henrique Fonseca pede ao repórter que não veja o filme. "Deixa para ver em Sampa", diz. Acrescenta a explicação ao inusitado pedido. "A versão que passa aqui é a mesma que você já viu em Berlim, em fevereiro. Não tive condições de fazer o print da nova cópia, mas existe agora outra versão, que não pude trazer para cá. Cortei em torno de seis minutos, tirando algumas falas repetitivas do Jorge Dória e do Agildo Ribeiro, que são os ricaços corruptos que estimulam a carreira de assassino do protagonista, levando-o a tornar-se o homem do ano."Outro que está aqui em Miami é o ator e diretor Hugo Carvana. Veio mostrar Apolônio Brasil, Campeão da Alegria, que já concorreu no Recife, no Cine PE - Festival do Audiovisual. Carvana recebe este mês uma homenagem no Maranhão, no Guarnicê, um festival que vai se tornando cada vez mais conhecido (e prestigiado). Também tem um convite para exibir Apolônio Brasil no Congresso Nacional, em Brasília, numa sessão especial para deputados e senadores. Todas essas homenagens e deferências homenageiam o ego, mas Carvana está preocupado. "A RioFilme, que distribui meu filme, está em fase de liquidação e, se isto ocorrer, vai ser uma catástrofe para o cinema brasileiro. É a única distribuidora que temos para filmes autorais, de pequeno e médio porte. Fora ela, só temos as majors, mas os filmes que elas escolhem para distribuir têm um perfil no qual eu acho que Apolônio Brasil não se enquadra muito."Até por causa dessa situação da RioFilme, Carvana ainda não sabe se levará o filme para o Festival de Gramado, em agosto. "Me pediram uma fita, eu enviei", conta. Carvana tem laços fortes com Gramado, que já premiou Vai Trabalhar, Vagabundo. "Será bom se o filme participar", avalia. "Isto me garante exposição na mídia e as pessoas ficam sabendo da existência do Apolônio Brasil." O repórter encontra-se com Carvana num almoço no Spiga, o simpático restaurante italiano (na Collins Avenue) no qual os convidados fazem as refeições. Com ele está José Joffily, que também mostra em Miami o filme que adaptou da peça de Plínio Marcos, Dois Perdidos numa Noite Suja, transpondo a ação para Nova York, onde os protagonistas são agora dois brasileiros que levam uma vida tão miserável quanto clandestina. A mudança de cenário não foi a única - nem a mais forte - que Joffily fez. Ele também mudou o sexo de um dos perdidos, que agora é uma garota andrógina que se disfarça como boy para explorar velhos homossexuais. Dois Perdidos também passou no Recife. Ganhou dois prêmios: melhor fotografia e figurino. "São dois prêmios que o filme ainda não tinha ganhado em Brasília e Gramado."Joffily admite que os prêmios são bem-vindos. "É bom ver os colaboradores da gente sendo reconhecidos." Queixa-se da falta de dinheiro para o lançamento. "Tínhamos só R$ 38 mil para lançar o filme no Brasil inteiro. Começamos no Rio e em São Paulo e o máximo que conseguimos foi fazer algum anúncio na rádio ou pôr tijolinhos nos grandes jornais." Joffily trabalha atualmente num projeto que pretende rodar no começo do ano que vem. Já captou um pouco para Achados e Perdidos. Há quatro anos que ele tenta adaptar o livro de Garcia Roza com o personagem recorrente do escritor, Espinoza. Joffily interrompeu o projeto por causa do documentário O Chamado de Deus e, depois, por causa do Dois Perdidos. Agora, vai. Ele hesita antes de definir Achados e Perdidos como policial: "Será sobre Copacabana, o cenário privilegiado das tramas do Garcia Roza." Também ainda não sabe - garante - quem será Espinoza. "Tenho pensado em muitos nomes, mas ainda não fiz nenhum convite. É complicado convidar e, depois, ter de desconvidar, se algo sai errado."

Agencia Estado,

05 de junho de 2003 | 20h36

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