Piroschka van de Wouw/Reuters
Piroschka van de Wouw/Reuters

Festival de Veneza: Wagner Moura foi para Cuba para filmar 'Wasp Network'

Ator brasileiro está no Festival de Veneza com o filme do francês Olivier Assayas, baseado em livro de Fernando Morais, sobre espiões infiltrados em organizações anticastristas nos EUA

Entrevista com

Wagner Moura

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2019 | 14h55

VENEZA – Wagner Moura conhecia a história dos cubanos que formaram uma rede e infiltraram organizações anticastristas em Miami, retratada em Wasp Network, filme do francês Olivier Assayas, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, baseado no livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, e exibido na competição do 76.º Festival de Veneza. “Eu tinha lido o livro e me lembrava bem quando os caras foram presos em Miami. Lembro de ver na televisão e da repercussão na imprensa”, disse o ator em entrevista ao Estado, em Veneza. 

No filme, ele interpreta o ambíguo Juan Pablo Roque, um tenente-coronel da Força Aérea cubana que nadou até a base americana de Guantánamo, pediu asilo e acabou se mudando para Miami, onde se casou com Ana Margarita Fernandez (vivida pela atriz cubana Ana de Armas), trabalhando para evitar a ação dos grupos anti-Fidel Castro que estavam fazendo ataques a Cuba. O longa tem no elenco o venezuelano Édgar Ramirez (Carlos) no papel de René González, que deixou a mulher Olga (a espanhola Penélope Cruz) e a filha em Cuba para cumprir sua missão, além do mexicano Gael García Bernal e o argentino Leonardo Sbaraglia.

A seguir, trechos da entrevista com Wagner Moura:

Juan Pablo é muito ambíguo. Qual foi sua dificuldade em abordar o personagem?

Eu tinha lido o livro, mas não sabia mais nada sobre ele. Li outros livros, tem um muito bom de um jornalista canadense exatamente sobre Os 5 de Cuba. Li o livro que o próprio Juan Pablo escreveu. É horrível, chama-se Desertor, muito chato de ler. Li muito sobre Cuba nos anos 1990, com o fim da União Soviética. Fui para Cuba, conheci Cuba, fiz amizades. A direita diz que Cuba é um lixo, a esquerda diz que é um paraíso, e não é nada disso. É tudo muito mais complexo do que falam. E, exatamente como fiz quando interpretei o Pablo Escobar, esqueci de tudo isso depois de um tempo e passei a pensar em quem era o personagem, como se fosse uma criação mesmo, um personagem de ficção.

Eu imagino que você já conhecia Cuba.

Não. O pessoal do Brasil me manda muito ir para Cuba. Aí eu fui! (risos) Mas para pesquisar e fazer o filme, que nem eu tinha feito com a Colômbia em Narcos. Aluguei um apartamentinho, fiz um monte de amigos, gente muito linda e muito querida. Vou com meu filme Marighella para o Festival de Havana deste ano, estou super feliz com isso. Mas não conhecia Cuba.  

Voltando aos personagens, é muito impressionante o ponto a que eles chegaram: o René deixa a família para trás, o Juan casa com uma mulher nos Estados Unidos. 

É impressionante. Claro, a gente pensa que ele é um espião e que esse casamento é uma fachada. Mas é tudo misturado. Porque claro que ele se envolveu com aquela mulher. Não é que existe uma mente maligna – claro, também é isso, porque no final ele volta para Cuba e tal. Mas tem uma mistura da missão com o viver. E, sendo ator, eu digo que não existe nada mais poderoso para uma atuação do que viver. Aliás, é o que todos os manuais de atuação dizem, que você tem de viver o presente, viver o personagem. E eu adoro a cena em que o Gael está ensaiando uma fala como o personagem e alguém diz: “Como um ator”! E ele responde: “Melhor do que alguns atores”. 

Mas, sendo ator, seria um bom espião?

Eu, não. Não dá. Porque tem a parte moral. O cara destruiu a vida daquela mulher. Ela processou o governo cubano como se ela tivesse sido estuprada por Cuba, que cada vez que ela fez sexo com ele é como se o governo cubano a tivesse violentado. E ela ganhou. 

O elenco é praticamente os 'Vingadores' da América Latina. Como foi?

(risos) Essa parte foi tão boa! O Leonardo da Argentina, o Gael do México, o Édgar da Venezuela. Ana, de Cuba. Penélope é da Espanha, mas também é latina. E a gente em Cuba! Com a Venezuela pegando fogo, Bolsonaro presidente. A política era sempre um assunto, porque Édgar, Gael e Olivier, sobretudo, são pessoas que pensam muito a política. Então nossa vida era permeada por rum, muita risada, alegria de estarmos, nós latinos, juntos. Ontem, quando a gente passou no tapete vermelho aqui, eu pensei nisso, que havia ali uma declaração política. Porque os latinos são sub-representados em Hollywood. E está essa galera aqui, neste filme, contando a história sob o ponto de vista da América Latina, baseado num livro do Fernando Morais e com produção do Rodrigo Teixeira

   

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.