Associated Press
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Festival de Veneza tem Michael Moore e trechos de Toy Story 3

Insolação, filme sobre Brasília e a utopia perdida da cidade planejada, representa o cinema brasileiro

Flavia Guerra, de O Estado de S. Paulo,

06 de setembro de 2009 | 13h46

Com clima de Domingo no Parque, George Lucas entregou o Leão de Ouro a John Lesseter durante cerimônia especial no 66 Festival de Veneza. Um formação de bexigas, crianças e personagens da Disney-Pixar transformaram o festival em uma festa. Ao receber o premio, Lesseter, responsável por sucessos como Toy Story, Procurando Nemo e Carros, fez questão de realçar: "Nosso maior objetivo é sempre entreter nosso publico. Não adianta nada termos uma tecnologia incrível se não contarmos uma boa historia, que emocione e envolva as pessoas, das mais jovens ás mais maduras."

 

Entreter também é uma das preocupações essenciais de Michael Moore. O polêmico documentarista encerrou a noite de sábado e abriu a maratona de entrevistas de domingo com seu mais novo filme: Capitalismo: Uma Historia de Amor.

 

Mas de fato de amor pouco ha nesta mais nova tentativa de provocar tanto "os donos do poder" quanto o publico. Como bem definiu um jornalista italiano, Capitalismo: Uma Historia de Amor fala, na verdade, de traição. De como o povo americano foi traído por seus próprios governantes, que lhes venderam um sonho falido, baseado na exploração e na desigualdade de direitos.

 

Ainda que de amor o filme pouco tenha, Moore defende que sua grande preocupação é também mobilizar, emocionar e, claro, ensinar algo a seu publico. Desta vez, seu objetivo é ensinar que é possível resgatar o Sonho Americano. "O capitalismo é um mal que nos foi vendido muito bem por um verdadeiro programa de propaganda. E o mal tem de ser eliminado. No lugar, deve ficar a democracia. Ela é possível", sentenciou Moore durante conversa com a imprensa na manha deste domingo.

 

Questionado sobre o fato se o conceito vendido pelo Sonho Americano não seria também uma outra forma de propaganda, Moore contestou: "Pode até ser, mas pelo menos este conceito nos faz acreditar na igualdade de oportunidades e na justiça. Isso o capitalismo não foi capaz de nos garantir."

 

O americano Michael Moore, que apresentou seu filme sobre o capitalismo em Veneza. AP

 

Muito ar guardado no Lido, Capitalismo: Uma Historia de Amor tem momentos para lá de exagerados, mas não seria um filme de Michael Moore se não houvesse cenas como as que o diretor literalmente embrulhar Wall Street com uma faixa de cena do crime, em alusão aos "ladrões" que dominam o sistema financeiro mundial.

 

Exagerado, ou não, Moore prova que ainda é capaz de provocar e fazer pensar. Necessário, mais do que nunca, necessário.

 

Insolação representa cinema brasileiro

 

Necessário também é o filme brasileiro que abriu as sessões deste domingo. Insolação, de Daniella Thomas e Filipe Hirsh traz um novo olhar ao cinema brasileiro. O olhar de quem vai além dos rótulos que o publico estrangeiro já se acostumou a ver quando o assunto é Brasil.

 

Insolação traz Paulo José, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, entre outros, vivendo personagens que flutuam em narrativas paralelas pelos cenários vazios de Brasília. Não é a Brasília que estamos acostumados a ver nas fotos oficiais. É um cenário de Brasília que não deu certo. Uma utopia que, assim como a utopia socialista em que se inspiraram Niemeyer e Lúcio Costa, deu errado. Quer dizer, deu errado como conceito inicial, mas continua viva de outra forma. Assim como a arquitetura se reinventa, os sonhos também são reaproveitado, explicou Hirsh. 

 

Insolação não fala de violência urbana, não enfoca as favelas nem o subúrbio, não é obvio e muito menos fácil. Na dureza da arquitetura moderna de Brasília, os personagens de Insolação flutuam em uma atmosfera de melancolia tropical. O sol bate na cara de Lucia (vivida pela bela Simone Spoladore) em uma cena em que ela arde de febre. Mas o calor não faz os personagens menos tristes. Ao contrario. É exatamente o clima desértico de Brasília e a arquitetura que cria muitos vazios espaciais que da ao filme um profundo sentimento de Tristes trópicos. "Sabemos que este não é um filme fácil. Ele fala de amor, de amor não correspondido, do que quisermos ser e não conseguimos, de solidão e de como o espaço em que vivemos interfere nestas sensacões", explica Daniella.

 

A diretora e cenógrafa é parceira de Filipe ha muitos anos. Esta é a primeira vez que o diretor teatral se aventura no cinema. "Sempre falei que o Filipe era um diretor nato. E acho que acertei. Foi muito bacana esta parceira", comentou a diretora, que espera que o publico brasileiro seja tão positivo quanto o europeu. "Estou muito feliz de poder trazer este ano a Veneza dois filmes que mostram o quão diversa é a cinematografia brasileira. Tanto Insolação quanto Vou porque preciso, volto porque te amo são prova de que o cinema brasileiro esta mais maduro e múltiplo", comentou o diretor do festival, Marco Mueller.

 

Personagens e criadores da série Toy Story, cujo idealizador foi homenageado no festival. AP

 

Múltiplo mesmo foi este domingo. E a tarde terminou em clima de animação. Durante a cerimônia em homenagem a Lesseter, um trecho inédito de Toy Story 3 foi exibido, para alegria das centenas de crianças que não arredaram pé de frente da Sala Grande enquanto não viram de perto o cowboy Woody e o astronauta Buzz Lightyear.

 

O que se viu na tela foi um aperitivo do filme que deve chegar aos cinemas no ano que vem. Em Toy Story 3, o garoto Andy cresceu, tem 18 anos e esta prestes a entrar para a faculdade. "Ele tem de fazer as malas e empacotar tudo. O que ele não levar para a faculdade ou vai para o sótão  ou vai para o lixo. Ele recomeça a vasculhar seu quarto e acaba achando seus velhos brinquedos, que estavam esquecidos ha anos. Adivinhem o que ele encontra…", adiantou Lesseter.

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