Festival de Veneza muda de cara

Walter Salles, com Abril Despedaçado, traz o Brasil de volta à mostra competitiva do Festival de Veneza. O filme disputará o Leão de Ouro com outros 19 longas-metragens no festival que começa no dia 29 de agosto no Lido veneziano. A distribuição dos competidores é bem equitativa, conforme anunciou hoje, em Roma, o presidente do festival, Alberto Barbera. Apenas quatro países aparecem com dois títulos em competição: Itália, França, Estados Unidos e Grã-Bretanha. Os outros entram com um filme cada: Espanha, Portugal, Hong Kong, Brasil, México, Israel, Coréia, Irã, Índia, Irlanda, Romênia e Áustria. Quer dizer, um pacote diversificado, ainda que de acento europeu, ponto positivo para a principal função de um festival que é tomar o pulso da produção internacional.A presença brasileira não se restringe à competição principal, à qual o País volta depois de quatro anos (o último representante brasileiro a disputar o Leão de Ouro fora Walter Lima Jr., com A Ostra e o Vento, em 1997). Julio Bressane retorna a Veneza com seu Dias de Nietzsche em Turim, escalado para o segmento Novos Territórios, tido como experimental. Bressane já havia participado na mesma seção com seu São Jerônimo, dois anos atrás.Veneza traz outras novidades em termos de formatação do festival. Aboliu uma das seções mais badaladas, Sogni e Visioni (Sonhos e Visões), título pomposo que designava o espaço reservado às produções comerciais, sobretudo norte-americanas. Com a extinção, alguns observadores temem que as divas deixem de comparecer ao Lido, o que tiraria o charme mundano do festival. No entanto, o espaço para o cinemão está devidamente reservado nas seções fora de concurso. Lá comparecerão, certamente, Steven Spielberg e sua trupe, sempre ruidosa e numerosa, para apresentar seu A.I. Artificial Inteligence. E, como de hábito, também fora de concurso, haverá a pré-estréia mundial do novo Woody Allen, The Curse of de Jade Scorpion. Woody, também como de praxe, não deverá comparecer, o que em nada atrapalhará a repercussão do filme, um dos tradicionais frissons do festival.A outra novidade é o segmento Cinema del Presente, também competitivo. Barbera tem brigado com a imprensa italiana quando esta diz que se trata de uma série B da mostra competitiva, numa analogia futebolística. Ele alega que são autores menos clássicos, que experimentam mais. Essa competição do B dará um prêmio chamado Leão do Ano e a soma nada negligenciável de US$ 100 mil ao vencedor. Mas o que vale mesmo é concurso oficial, não importa o que se invente. Entre aqueles 20 filmes privilegiados estará o ganhador do cobiçado Leão de Ouro, a ser escolhido por um júri presidido por Nanni Moretti, o grande vencedor do Festival de Cannes deste ano.O diretor francês Erich Rohmer, um dos principais nomes da nouvelle vague, é o homenageado deste ano em Veneza. Rohmer recebe um Leão de Ouro especial pela carreira e terá seu trabalho mais recente, L´Anglaise et le Duc, exibido após a premiação. Segundo a organização do festival, Rohmer é um desses raros artistas coerentes consigo mesmos, avessos a modismos, e que souberam manter uma linha de trabalho independente ao longo de toda uma carreira. Coerente, mas aberto à novidade, pois filma agora com câmera digital.É possível que seu Conto de Outono, que concorreu na edição de 1998 no festival, tenha tido uma parcela de responsabilidade na homenagem que ocorre três anos depois. A história de uma mulher que tenta arrumar marido para uma amiga seduziu Veneza naquele ano pela leveza e encantamento com que um assunto, em aparência tão banal, é tratado. Rohmer ganhou as notas mais altas nas pontuações dos críticos, mas seu filme ficou apenas com uma premiação secundária. Homenageá-lo, agora, pode ser a maneira de Veneza admitir que os filmes de Rohmer podem não ser feitos para ganhar festivais, mas permanecem mais que os outros na memória afetiva das pessoas.Além de Rohmer, duas personalidades do mundo do cinema, estas já desaparecidas, serão lembradas pelo festival: o polonês Andrzej Munk e o francês Guy Debord. Munk é tido como um dos mais importantes diretores do novo cinema polonês, tendo influenciado gente como Polanski, Skolimowski, Zanussi e Kieslowski. Em sua curta vida (1921-1961) produziu uma obra significativa, transição entre o cinema do pós-guerra e a liberdade formal que viria a seguir - um tempo que ele não conheceria, mas que ajudou a preparar. Já a escolha de Guy Debord é mais insólita. Debord é muito conhecido no meio culto, mas não como cineasta e sim como o autor de um livro profético, A Sociedade do Espetáculo, que prevê, em 1967, o mundo da imagem, do marketing e da publicidade que viria a seguir e no qual nos encontramos mergulhados até o último fio de cabelo. Veneza recupera um fato até então pouco conhecido, ou esquecido - Debord é, também, dono de uma obra cinematográfica. E não das mais modestas: tem em seu currículo três longas-metragens, além de vários curtas. Estes filmes serão exibidos em cópias novas e devidamente discutidos em mesa-redonda. O festival lança ainda um livro comemorativo, com artigos sobre esse profeta sincero do apocalipse.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.