Brigitte Lacombe
Brigitte Lacombe

Festival de Veneza: diretora saudita Haifaa al-Mansour apresenta curta de viés feminista

É o 16.º filme do projeto Women’s Tales, patrocinado pela grife Miu Miu

Sergio Amaral, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 06h00

Seis anos se passaram desde que a diretora saudita Haifaa al-Mansour foi revelada ao mundo no Festival de Cinema de Veneza com seu longa de estreia. O Sonho de Wadjda era, à época, o único filmado inteiramente em seu país, uma monarquia absolutista teocrática em que a Sharia é lei, e o primeiro dirigido por uma mulher. Neste domingo, 2, ela volta ao evento com o curta The Wedding Singer’s Daughter (A Filha da Cantora do Casamento em tradução livre).

É o 16.º filme do projeto Women’s Tales, patrocinado pela grife Miu Miu, a irmã mais nova e rebelde da Prada, que desde 2011 vem convidando nomes como Agnés Varda, Lucrecia Martel e Miranda July para dirigir curtas de sua autoria com uma única condição: ter as personagens vestidas pela marca.

Em tempos de #MeToo e mulheres reivindicando mais espaço e igualdade também no cinema (bandeira levantada por Frances McDormand, no Oscar), a escolha de Haifaa al-Mansour cai tão bem quanto uma roupa bem cortada. “Passamos por um longo período em que os filmes eram só sobre homens conquistando coisas. Ver mulheres fortes e heroínas nessas histórias é certamente empoderador”, afirma, em entrevista por telefone, de Los Angeles, onde vive há três anos. 

Protagonistas destemidas, mulheres ou meninas, são uma das marcas do cinema de Haifaa. Era uma menina a heroína de seu longa de estreia e o fundamento se repete no novo curta, em que a filha da cantora do casamento defende a mãe da sabotagem de parte das convidadas do enlace. “As crianças têm um jeito de enxergar o mundo que não temos. Ela não é como sua mãe, de certa forma conformada, a filha é quem vem para questionar o status quo”, justifica.

The Wedding Singer’s Daughter ilumina questões caras à cultura saudita. A subversão de uma mulher cantar (ou ser cineasta), por exemplo, e o fato de cobrirem seus luxuosos looks (Miu Miu) com abaias assim que o noivo aponta no salão. “Na Arábia Saudita existe uma distinção muito grande entre o que é público e o que é privado. Sempre achei fascinante quando ia aos casamentos e via essas cenas”, lembra, aos risos.

O curta é apenas uma das produções a que a diretora vem se dedicando. Ela acaba de lançar Mary Shelley, uma cinebiografia da autora de Frankenstein, e estreia Felicidade por um Fio na Netflix em 21 de setembro. Na paralela, trabalha na pré-produção de novo longa The Perfect Candidate, sobre médica que embarca numa jornada para se tornar política, filme que vai contar com financiamento de um fundo saudita. “As coisas estão mudando por lá. Este ano tivemos a abertura de cinemas e estão surgindo esse fundos. Há bastante encorajamento para a arte e isso é impressionante. Ainda há muito a se fazer, mas estamos no caminho certo.”

Clássico de Alain Resnais da nouvelle vague é restaurado

Ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1961 e considerado um clássico da nouvelle vague, O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais, passou por um processo de restauração e digitalização em 4K a partir de seus negativos originais de 1960. Realizado pela equipe técnica do StudioCanal e da Hiventy, a reconstituição foi viabilizada com apoio do Centro Nacional de Cinema e Imagem Animada da França e da Chanel, que vestiu a personagem interpretada pela atriz Delphine Seyrig com sua coleção de alta-costura. A versão recuperada do filme será exibida na próxima quarta, 5, em Veneza.

 

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