Festival de Veneza começa lutando pela sobrevivência

O mais antigo festival do mundo, o de Veneza, agora em sua 63.ª edição, promete ser ótimo. Mesmo porque seu diretor, Marco Müller, precisa fazer frente a uma concorrência da pesada, já que Roma inaugura este ano sua mostra, justamente para concorrer com a tradição de Veneza. A mostra de Veneza começa nesta quarta e termina em 9 de setembro com a entrega dos Leões de Ouro e Prata. Esta exibe suas armas a partir do filme de abertura, o noir "A Dália Negra", de Brian de Palma, com a, perdão pelo termo, esfuziante Scarlett Johansson no elenco. Aliás, De Palma seria convidado hors concours, mas ele mesmo fez questão de competir, um bom exemplo para veteranos que se julgam acima dessas contingências mundanas. Quer colocar um Leão de Ouro em sua estante, o que não é nada mau. A estatueta é bonita e o seu prestígio, grande.Acontece que, para receber o prêmio máximo de Veneza, De Palma terá de enfrentar outros 20 concorrentes, e, entre eles, alguns pesos pesados como Gianni Amelio, Stephen Frears, Alain Resnais, Jean-Marie Straub e Tsai Ming Liang, figurinhas carimbadas no circuito dos festivais internacionais.Então, não será uma surpresa se alguém menos badalado levar o prêmio principal. Entre esses azarões, podem se contabilizar o belga Joachim Lafosse ("Nue Proprieté"), o chinês Johnnie To ("Fangzhu") ou o russo Ivan Vyrypaev ("Ejforija"), entre alguns outros dos quais pouca gente, mesmo especialistas, ouviu falar. Aliás, é nessas surpresas que muitas vezes consiste o encanto de um festival, lugar onde se deveria descobrir o novo, o surpreendente, o que abre caminhos. Brasileiros fora da competição e presentes em HorizontesEntre as possíveis surpresas não estará nenhum brasileiro. Aliás, apenas um latino-americano figura na competição principal, o mexicano Alfonso Cuarón, e mesmo assim com um filme de produção anglo-americana, "Children of Men". Veja a lista e confira que quem domina a mostra são os europeus de sempre e os norte-americanos, com uma pequena inserção asiática.No entanto, o Brasil não estará ausente em Veneza. "O Céu de Suely", de Karim Aïnouz (de "Madame Satã") entra na mostra paralela Horizontes. Outro filme da Horizontes também tem muito a ver com o Brasil. "O Cobrador", apesar de dirigido pelo mexicano Paul Leduc, escalou elenco brasileiro (Lázaro Ramos à frente) e baseia-se em cinco contos de Rubem Fonseca, entre os quais aquele que dá título ao filme. Também na seção Corto Cortissimo haverá um brasileiro, Paulo Miranda, com o filme "Faça sua Escolha". Retrospectiva de Joaquim Pedro de AndradeMas a presença mais marcante do Brasil no Lido será através da retrospectiva consagrada a um grande autor, Joaquim Pedro de Andrade. A mostra tem curadoria da diretora Alice de Andrade, filha do cineasta, e compõe-se de filmes inteiramente restaurados, como "Macunaíma" e "Garrincha, Alegria do Povo". Quanto a nós, resta esperar que, depois da estréia na Itália, esta retrospectiva completa de Joaquim (incluindo os curtas) seja repetida em sua terra. As atrações de Veneza 63 não se esgotam nas três seções competitivas do festival. Há muita coisa para ser vista sob a rubrica ?fora de concurso?. Como é o caso, por exemplo, das concorridas sessões da meia-noite, reservadas, em tese, para obras mais comerciais. Há também a seção de documentários Orizzonti Doc, e os ?eventos especiais?, cujas maiores atrações são o novo filme de Alain Robbe-Grillet, "C?est la Gradiva qui Vous Appelle", e o de Giuseppe Bertolucci (irmão de Bernardo), consagrado a um cineasta muito querido: "Passolini Prossimo Nostro". Fora de concurso obrigatóriosEntre os ?fora de concurso? obrigatórios estão o novo Manoel de Oliveira, "Belle Toujours", revisitando "Belle de Jour "de Luis Buñuel, filme vencedor do Festival de Veneza de 1967. Pode ser coincidência, mas quem viu o filme de Buñuel não esquece jamais de Catherine Deneuve no papel principal. Ela volta agora ao Lido na função de presidente do júri, que vai atribuir o Leão de Ouro ao melhor filme.Outros hors concours para não perder: a interpretação de Oliver Stone para o atentado de 11 de setembro, "World Trade Center"; "Inland Empire", de David Lynch, "Ostrov", do russo Pavel Lounguine (o mesmo de "Táxi Blues"), e mais a leitura de Kenneth Branagh para "A Flauta Mágica", de Mozart. Se você quiser alguns números, ei-los: são 62 longas-metragens, nas três seções principais do festival - 21 na chamada Veneza 63 (a que dá o Leão de Ouro), 24 na Horizontes, 17 fora de concurso. Para chegar a essa seleção, os curadores viram 2.587 filmes, dos quais 1.429 longas-metragens. Enfim, uma deliciosa maratona. Pelo menos em teoria.

Agencia Estado,

29 de agosto de 2006 | 16h04

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