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Festival de Veneza começa com protocolos sanitários e filmes brasileiros

‘Deserto Particular’, de Aly Muritiba, e 7 Prisioneiros, de Alexandre Moratto, são apresentados fora da competição

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

01 de setembro de 2021 | 05h00

No ano passado, quando o Festival de Veneza foi realizado de modo presencial poucos meses depois de Cannes ser obrigado a cancelar sua edição por conta da pandemia, havia esperança de que 2021 seria diferente. Mas, a despeito das vacinas desenvolvidas em tempo recorde, a covid-19 ainda assombra o mundo. 

E o 78º Festival de Veneza, que começa hoje, 1º, e vai até o dia 11, é realizado novamente sob medidas rigorosas de segurança, com limitação do uso das salas, ingressos com lugares marcados, uso de máscara obrigatório, sem aproximação do público no tapete vermelho para evitar aglomerações. A verdade é que a cidade sabe como lidar com pandemias. Foi lá que o termo quarentena foi criado, com a obrigatoriedade de 40 dias de isolamento para os navios mercantes na Idade Média. Não muito longe do Lido, onde o festival acontece, um hospital já isolava pacientes da peste desde o século 15. E os médicos usavam máscaras com bico cheias de ervas aromáticas. 

Mas a verdade é que, com boa parte do norte global vacinado, o 78º Festival de Veneza vai ter uma presença muito mais expressiva do que em 2020 dos astros e estrelas que são peça da engrenagem e de filmes de olho no Oscar – nos últimos anos, saíram dali vencedores das cobiçadas estatuetas como Nomadland (2020), Coringa (2019) e A Forma da Água (2017). Entre os candidatos ao Leão de Ouro deste ano e a uma vaga no Oscar 2022, estão Madres Paralelas, de Pedro Almodóvar, The Power of the Dog, de Jane Campion, e Spencer, de Pablo Larraín. Outros filmes badalados – e cheios de atores e atrizes famosos – passam fora de competição, como Duna, de Denis Villeneuve, com Timothée Chalamet, Oscar Isaac, Zendaya, Javier Bardem, O Último Duelo, com Matt Damon, Ben Affleck e Jodie Comer, e Noite Passada em Soho, com Anya Taylor-Joy. 

Apesar de todas as dificuldades, o Brasil também está presente na seleção, ainda que não na competição principal. O filme 7 Prisioneiros, de Alexandre Moratto, com Christian Malheiros e Rodrigo Santoro, passa na seção Horizontes Especial, que vai ter um prêmio dado pelo público. Bárbara Paz, premiada no festival com o documentário Babenco: Alguém Tem de Ouvir o Coração e Dizer: Parou, em 2019, volta com o curta Ato, fora de competição na seção Horizontes. Brasileiro radicado em Londres, Alex Carvalho apresenta Salamandra na paralela Semana da Crítica. E Aly Muritiba, que acabou de levar três Kikitos no Festival de Gramado com Jesus Kid, apresenta, na Jornada dos Autores, Deserto Particular. “O cinema que me interessa é um cinema político. Ambos fazem comentários sobre o Brasil contemporâneo”, disse o cineasta em entrevista ao Estadão. O que muda é o ritmo, como ele diz: enquanto Jesus Kid é uma comédia ácida baseada na obra de Lourenço Mutarelli, Deserto Particular é um melodrama sobre afetos masculinos. 

Muritiba começou a trabalhar no romance entre Daniel (Antonio Saboia, de Bacurau) e uma moça do interior da Bahia em 2016. “À medida que o tempo foi passando e o contexto brasileiro foi se transformando nessa coisa aguda e raivosa, o projeto foi ganhando mais sentido”, disse o diretor. “Quando ele surgiu, vinha de um desejo de fazer um filme de encontros e de amor. E, em um tempo de ódio como este que a gente está vivendo, um filme de amor ganha mais relevância, importância e ressonância.” Para ele, a história de um sujeito criado em um ambiente bastante conservador e preconceituoso, como é o ambiente militar, policial, no Sul do Brasil, viajando até o Nordeste para travar encontros com pessoas de outro universo talvez em 2010 soasse quase banal. “Mas, como ele foi filmado em 2019 e ficou pronto em 2020, é um longa que trata não de como o mundo é, mas de como pode ser, de como na chave do afeto, do amor, da tolerância a gente pode construir um universo melhor.”

A pandemia adiciona outra camada de necessidade de alento, de respiro e de beleza. “A gente passou o último ano e meio vivendo cotidianamente a presença da morte ou a perspectiva da morte, vivendo cotidianamente o isolamento e o enclausuramento”, disse Muritiba. “Deserto Particular é um filme de viagem, com um monte de paisagem, com planos gerais abertos. É um filme sobre um sujeito que vivia confinado, sufocado em um ambiente muito hostil, que vai aos poucos descobrindo como é respirar mais livremente.”

O diretor acredita no poder do cinema e se define como um otimista inveterado. “Eu preciso acreditar que as coisas vão melhorar para continuar existindo. E preciso construir essa melhoria a cada dia com o modo como me relaciono com as pessoas. E tenho a convicção plena, total e completa de que as coisas estão melhorando no mundo e que o que estamos vivendo agora é apenas o soluço dos conservadores – não o último, mas um dos últimos – porque eles pressentem que seu poder está passando.” 

Estar em Veneza com outros filmes brasileiros, em um momento de dificuldade para a cultura nacional, é uma prova disso. “É um recado de que não conseguirão nos parar.” Até o fechamento da edição, Aly Muritiba ainda não sabia se conseguiria ir a Veneza para acompanhar a sessão de amanhã, já que brasileiros estão impedidos de entrar na Itália por conta da situação da pandemia no País. 

Almodóvar abre competição

A competição do 78º Festival de Veneza vem recheada de pesos-pesados – e filmes italianos – em sua seleção de 21 longas, três a mais que no ano passado. 

Pedro Almodóvar faz mais uma parceria com Penélope Cruz com Madres Paralelas, sobre duas mulheres em circunstâncias bem diferentes que se tornam mães no mesmo dia, criando um vínculo entre as duas. O filme abre oficialmente hoje o 78º Festival de Veneza. Cruz também está em Competencia Oficial, de Gastón Duprat e Mariano Cohn, ao lado de Antonio Banderas.

Depois de Jackie, o chileno Pablo Larraín volta a falar de uma mulher ícone em Spencer, sobre o final do casamento da Princesa Diana, interpretada por Kristen Stewart, com o príncipe Charles. 

Jane Campion, a primeira mulher a ganhar a Palma de Ouro em Cannes com O Piano, retorna ao cinema depois de 12 anos com The Power of the Dog, um western sobre um fazendeiro solitário (Benedict Cumberbatch) que recebe seu irmão e sua cunhada (Jesse Plemmons e Kirsten Dunst). 

Campion é uma das cinco mulheres na disputa do Leão de Ouro, ante oito em 2020. As outras são Ana Lily Amirpour (Mona Lisa and the Blood Moon), Audrey Diwan (L’Événement), Natasha Merkulova, que codirige Kapitan Volkonogov Escaped com Aleksey Chupov, e a estreia na direção de longas-metragens da atriz Maggie Gyllenhaal, The Lost Daughter

Paolo Sorrentino volta à sua cidade natal, Nápoles, com o autobiográfico The Hand of God, sobre um adolescente marcado pela alegria da chegada de Maradona ao Napoli e um acidente. Sorrentino concorre com vários compatriotas: Fabio e Damiano D’Innocenzo (America Latina), Michelangelo Frammartino (Il Buco), Gabriele Mainetti (Freaks Out) e Mario Martone (Qui Rido Io).

O veterano Paul Schrader também está no festival e compete com The Card Counter, com Oscar Isaac, Willem Dafoe e Tiffany Hadish. 

A América Latina está bem representada com Sundown, do mexicano Michel Franco, vencedor do Grande Prêmio do Júri no ano passado com Nova Ordem, La Caja, do venezuelano Lorenzo Vigas, ganhador do Leão de Ouro em 2015 com De Longe Te Observo, e o chileno Larraín, mesmo que Spencer seja uma coprodução Alemanha e Reino Unido.

Filmes na competição

Madres Paralelas, do espanhol Pedro Almodóvar 

Mona Lisa and the Blood Moon, da americana Ana Lily Amirpour

Un Autre Monde, do francês Stéphane Brizé

The Power of the Dog, da neozelandesa Jane Campion

America Latina, dos italianos Fabio e Damiano D’Innocenzo

L’Événement, da francesa Audrey Diwan

Competencia Oficial, dos argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn

Il Buco, do italiano Michelangelo Frammartino

Sundown, do mexicano Michel Franco

Illusions Perdues, do francês Xavier Giannoli

The Lost Daughter, da americana Maggie Gyllenhaal

Spencer, do chileno Pablo Larraín

Freaks Out, do italiano Gabriele Mainetti

Qui Rido Io, do italiano Mario Martone

On the Job: The Missing 8, do filipino Erik Matti

Zeby nie Bylo Sladow (Leave No Traces), do polonês Jan P. Matuszynski

Kapitan Volkonogov Bezhal, dos russos Natasha Merkulova e Aleksey Chupov

The Card Counter, do americano Paul Schrader

E’ Stata la Mano di Dio, do italiano Paolo Sorrentino

Vidblysk, do ucraniano Valentyn Vasyanovych

La Caja, do venezuelano Lorenzo Vigas

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