Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters

Festival de Veneza: A infinita admiração de Wajda por Walesa

Fora de concurso em Veneza, cineasta cria retrato fascinante do sindicalista

Luiz Zanin Oricchio - Enviado especial a Veneza, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2013 | 19h29

O filme mais badalado de quinta (5) não estava em concurso, mas o fato se explica: não é sempre que um grande personagem contemporâneo é retratado no cinema como foi Lech Walesa por seu conterrâneo, mestre Andrzej Wajda.

O título não esconde o sentido do projeto – Walesa – O Homem da Esperança é uma hagiografia do líder sindicalista que se tornou a figura mais importante do seu país, enterrou o stalinismo na Polônia e ganhou o Prêmio Nobel da Paz, foi eleito presidente e comandou a nação na primeira fase pós-comunista. Sua trajetória é, de fato, impressionante.

Wajda, aos 86 anos, autor de clássicos como Cinzas e Diamantes, O Homem de Ferro e tantos outros, também o é. Consegue imprimir ritmo frenético a essa vida de luta, quer dizer, fazendo-nos sentir como era o dia a dia de Walesa quando contestava as autoridades do seu país e tentava liderar os trabalhadores rumo a um sindicato independente.

O filme tem um atrativo a mais para os italianos. Serve de âncora à narrativa a recriação de uma entrevista concedida em 1981 por Walesa à mítica jornalista Oriana Fallaci (1930-2006). Controversa, agressiva e cheia de ideias sobre tudo, era, ela própria, uma personagem e tanto. É interpretada por Maria Rosario Omaggio, que tem semelhança física com a personagem real e a mesma voz rouca esculpida em nicotina. No papel de Lech Walesa, Robert Wieckiewicz, assustadoramente parecido ao original. As primeiras cenas entre os dois são muito boas. A uma pergunta agressiva, Walesa acusa a repórter de ditadora e ameaça encerrar a entrevista. Num momento em que ele se gaba de si, pergunta a Oriana se o considera presunçoso. Também ela dotada de um ego monstruoso, responde: “Não, por que acharia?” É engraçado.

Esse colóquio entre entrevistadora e entrevistado pontua a narrativa relembra os momentos-chave da ascensão de Walesa. Wajda filma como jovem. E ele, ou seu roteirista, Janusz Glowacki, mostra-se capaz de encontrar recursos interessantes de narrativa. Por exemplo, a primeira vez em que o ainda anônimo Walesa é detido, antes de sair de casa tira a aliança e o relógio e recomenda à mulher: “Se eu não voltar, venda para pagar as compras”. Será sempre assim. Mesmo quando já homem famoso, mas ainda perseguido pelas autoridades, deixará sempre o relógio e o anel em casa.

O retrato que emerge é fascinante: eletricista de formação, Walesa sabe, intuitivamente, dirigir-se à multidão. É líder nato. Esnoba intelectuais: “Fazem reuniões intermináveis de cinco dias para chegar à mesma conclusão a que eu chego em cinco segundos”. Gaba-se de nunca ter lido um livro. “Vou até a página cinco, depois desisto.” No final da entrevista, despede-se de Oriana e diz: “Se você escrever um livro dessa entrevista, mande para mim. Vai ser o primeiro que vou ler”. Liderando greves, tornando-se conhecido mundialmente, consegue colocar o governo nas cordas. Associando sua figura à do papa Wojtyla, e valendo-se espertamente da queda de braço final entre as superpotências, Walesa acaba por se impor.

“Foi o homem perfeito para aquele momento”, diz Wajda. “O Solidarinos chegou a 10 milhões de associados. Só um operário poderia ter conduzido o movimento que levou ao fim do socialismo na Polônia e à queda do Muro de Berlim, fato esse que me proporcionou enorme prazer.”

Esse retrato enérgico, traçado por um mestre do cinema e anticomunista feroz, tem lá seus limites. Gostaríamos talvez de ver algumas contradições humanas que Walesa, como todos, deve ter. Ao contrário do que pensam os hagiógrafos, essas ambivalências humanizam os personagens e não o apequenam. Mas Wajda preferiu mantê-lo numa esfera unilateral, construída apenas pela infinita admiração que nutre pelo personagem.

Na competição, brilhou de novo a estrela do chinês de origem malaia Tsai Ming-Liang com seu belo Stray Dogs, também confirmado para a Mostra de Cinema de São Paulo. Os personagens do diretor são os deserdados da vida. Famílias que peregrinam por Taipé em busca de comida e um lugar para dormir. São os “cães errantes”ou vira-latas da sociedade de consumo. Bem, esse é o “tema”, digamos assim. Mas não espere de Tsai Ming Liang um vulgar cinema de denúncia. Seu estilo inclui longos planos fixos e uma intensidade sensorial pouco comum. Por exemplo, no começo, vemos duas crianças dormindo no chão, enquanto uma mulher, provavelmente a mãe, se penteia com uma escova. O plano dura uns cinco minutos e é isso só. Noutra, dois homens-sanduíche, vestindo no corpo aquelas placas de propaganda, enfrentam chuva e vento terríveis. Você quase sente o frio e o molhado. E o plano também é longo. Enfim, é preciso entrar no tempo e na visão de mundo do diretor. Há momentos de pura epifania dentro desse filme exigente e recompensador.

Também de rigor se pode falar sobre o novo filme de Philippe Garrel, La Jalousie (O Ciúme), em concurso. Mais uma vez trabalhando com o filho, Louis, o diretor esboça seu estudo sobre o relacionamento de casais e o sentimento de posse. Louis (é esse também o nome do personagem) é um ator separado e tem uma filha do primeiro casamento. Nutre ciúmes pela nova companheira, uma atriz insegura e revoltada com sua pobreza, vivida por Anna Mouglalis. Filmado em preto e branco, tudo no filme lembra a Nouvelle Vague. Parece que estamos dentro de uma obra de Truffaut, ou de Jean Eustache. Vemos Louis e nos lembramos de Jean-Pierre Léaud. Um bonito filme.

 

 

VENEZIANAS

A razão de Scarlett

Scarlett Johansson não gostou de saber que Under the Skin, no qual interpreta uma alienígena devoradora de homens, foi vaiado na sessão de imprensa. Revoltada, a deusa defendeu o diretor Glazer. “É um homem inteligentíssimo, e seu filme deve ser visto em várias camadas para ser compreendido”, sentenciou a musa. Quem se atreve a desmenti-la?

Em família

Uma entrevista com os mal-humorados Philippe e Louis Garrel pode ser muito engraçada. Louis entra primeiro e, como o pai demora, convoca-o ao microfone: “Papá, você está atrasado!” Depois, quando uma pergunta é dirigida a um deles, os dois começam a discutir em busca da melhor resposta. A pergunta era se o filme teria caráter misógino. Isso porque uma das personagens troca um homem pobre por um rico. Depois de muito debate, concluíram que, na vida amorosa, as pessoas fazem mal umas às outras, mas sem qualquer má intenção.

O pornógrafo

Um filme que prometia dar o que falar passou meio batido. É Instinto Brass, de Massimiliano Zanin, que coloca em cena o mais notório diretor de filmes eróticos da Itália, Tinto Brass (1933-2006), famoso também pelo comportamento desabusado na vida civil. Anos atrás, ele foi homenageado em Veneza e os gondoleiros se recusaram a transportá-lo ao Lido pois Tinto queria embarcar com um grupo de senhoras com os seios à mostra. Zanin, porém, prefere destacar o lado inovador e ousado de seu Tinto, relativizando seu lado folclórico, que ele muito cultivou em benefício próprio.

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