Festival de Tiradentes premia "Separações"

Separações, comédia romântica de Domingos de Oliveira, foi escolhida pelo público que lotou as sessões da 6.ª Mostra de Cinema de Tiradentes (MG) como o melhor entre duas dezenas de longas exibidos pelo festival nos últimos dez dias. O melhor curta foi A Lasanha Assassina, de Alê McHaddo, de São Paulo. Os mineiros venceram a categoria vídeo, com O Ciclone Lento e Sutil, criação que mobilizou 17 jovens autores. Os três premiados pelo público - a mostra não conta com júri oficial - receberam o Troféu Barroco. Os realizadores do curta e do vídeo ganharam, também, latas de negativo, serviços de laboratório e infra-estrutura para seus próximos trabalhos. Na festa de encerramento, foram exibidos dois vídeos realizados pelas oficinas que atenderam a centenas de jovens. Um deles, um documentário sobre o próprio festival (orientado pelo cineasta Luiz Carlos Lacerda), foi dedicado ao rapper Sabotage, assassinado há dez dias. O clima que cercou o evento - o primeiro após a posse de Lula e dos governadores - foi de entusiasmo. A passagem do secretário de Cultura de Minas, o ex-ministro Luiz Roberto Nascimento Silva, pelo festival semeou esperança de "dias melhores". O mesmo sentimento tomou conta dos cineastas que assistiram à palestra do documentarista Leopoldo Nunes, representante do secretário do Audiovisual, Orlando Senna. Nas reuniões, o tom era de euforia. "Pela primeira vez", comentou Mário Vaz, da Associação Mineira de Cineastas, "temos um secretário de Cultura que, ao assumir o cargo, criou uma Superintendência do Audiovisual para fomentar a produção cinematográfica no Estado". Luiz Guilherme de Pádua, da Associação Curta Minas, complementou: "No plano federal, um dos nossos é o principal assessor do secretário do Audiovisual; nunca a possibilidade de interlocução foi tão grande." O diretor mineiro se referia a Leopoldo Nunes, que deixou a presidência do Conselho Nacional da ABD (Associação Brasileira de Documentaristas) para atuar no órgão que, no MinC, responde pelo fomento do cinema cultural. Grandes platéias - O festival mineiro transformou o cotidiano da pequena cidade de Tiradentes, que tem 4,8 mil habitantes. Nem as chuvas, torrenciais no Estado, impediram a participação do público. Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, mobilizou centenas de espectadores de cidades vizinhas, em especial de São João del Rey (85 mil habitantes). Foi visto por público jovem e entusiasmado, obrigado a provar, com documento na mão, ter idade superior a 18 anos. A exigência foi do Juizado de Menores, atento desde que a mostra mineira exibiu, há dois anos, Cronicamente Inviável, de Sérgio Bianchi, em praça pública. O filme, proibido para menores de 18 anos, acabou sendo visto por adolescentes e crianças. O rigor, desta vez, foi tão grande, que Cidade de Deus, apresentado em todo o País para maiores de 16 anos, teve sua faixa etária aumentada pelas autoridades locais. Mesmo assim, e apesar da chuva, o Cine-Tenda lotou para aplaudir os atores Leandro Firmino da Hora, o Zé Pequeno, Matheus Nachtergaele, o Sandro Cenoura, e Alexandre Rodrigues, o Buscapé. Matheus Nachtergaele, que subiu ao palco também com a equipe de Amarelo Manga, do pernambucano Cláudio Assis (no qual interpreta Dunga), dividiu aplausos com Dira Paes, presente no elenco de dois filmes. Além de Amarelo Manga, no qual interpreta Kika Canibal, ela protagoniza, com Fábio Nassar, o longa brasiliense Celeste & Estrela, de Betse de Paula. Outros atores, entre eles Lázaro Ramos, intérprete de Madame Satã, Roberto Bomtempo, de Dois Perdidos numa Noite Suja, Ary França, o Durval Discos, e Ilana Kaplan, de A Festa de Margarette, prestigiaram a mostra. Dos cineastas presentes, o mais requisitado foi Jorge Furtado, que distribuiu autógrafos entre os fãs do curta Ilha das Flores e do longa que o trouxe a Tiradentes, Houve Uma Vez Dois Verões. Furtado contou que sua protagonista, a atriz gaúcha Ana Maniéri, que vive Roza ("com z") e enrola o ingênuo Chico (André Arteche), está grávida de verdade. O pai do filho da atriz que interpretou a jovem, que finge sucessivos estados de gravidez, é o diretor João Pedro Goulart, parceiro de Jorge nos curtas Temporal e O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda. Quem também causou sensação em Tiradentes foi o ator Gianfrancesco Guarnieri, que recebeu o Troféu Barroco por seus serviços prestados ao cinema. A mesma láurea foi entregue ao cineasta Eduardo Coutinho. Os dois ilustraram, com suas obras, o tema escolhido pela mostra: Heróis do Cotidiano no Cinema Brasileiro. Nada mais apropriado a um festival realizado na terra de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O seminário que debateu o tema mobilizou pesquisadores, cineastas (Paulo Cezar Saraceni, João Batista de Andrade e Alain Fresnot) e ensaístas e constatou que nossa tradição cinematográfica dedicou poucos filmes a heróis de nossa história. Ismail Xavier, professor da USP, lembrou que a idéia do herói e do anti-herói cabe melhor na tradição do cinema norte-americano. Lá, heróis enfrentam diversos obstáculos até o triunfo final. Aqui, os cineastas, sintonizados na tradição moderna, preferem cultivar o "personagem-problema" em seus filmes. Jorge Furtado quis saber por que nós, brasileiros, ao contrário dos norte-americanos, parecemos ter pudor em celebrar a vitória. "Parece até que experimentamos um certo prazer na derrota." Seria isso, indagou, conseqüência de nossa formação católica, enquanto os americanos, de formação protestante, cultivam o êxito individual acima de tudo? Ismail ensaiou algumas reflexões. Lembrou "o arraigado sentimento nacional dos norte-americanos", visível em "filmes povoados por heróis potentes", capazes de sozinhos derrotar todos seus antagonistas. Já nossa tradição viria do cultivo da ironia e do ceticismo, este, conseqüência de nossa condição periférica. "A grande literatura brasileira, vide a obra de Machado de Assis, é irônica." O ensaísta lembrou, ainda, duas importantes fontes de nossa tradição e apego pela ironia: o Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes, e Dom Sebastião, o rei morto em Alcácer-Quibir, centro da "questão portuguesa". Dom Sebastião, arrematou, "representa a oportunidade perdida, não a vitória, tão celebrada pelos norte-americanos". Jorge Furtado, que tem a ironia como matéria-prima de seus filmes, gostou das idéias de Xavier. Afinal, concluiu, "se, no Brasil, realizássemos um filme como Independence Day, em que o próprio presidente dos EUA embarca num avião para salvar o País, seríamos motivo de escárnio geral".

Agencia Estado,

03 de fevereiro de 2003 | 13h03

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