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Festival de Tiradentes premia ‘Baronesa’, belo filme da estreante Juliana Antunes

Evento e a Mostra Aurora se fixaram como a grande vitrine da produção autoral e independente do País

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 Janeiro 2017 | 18h05

TIRADENTES - Homenageada – com Leandra Leal – da 20.ª Mostra de Tiradentes, a atriz e diretora Helena Ignez terminou dando nome a um novo prêmio do evento. O Troféu Helena Ignez contempla uma personagem feminina de destaque nas mostras Aurora e Foco. A primeira vencedora foi a diretora de fotografia Fernanda de Sena, pelo filme mineiro Baronesa, da estreante Juliana Antunes. Ganhou, segundo a justificativa do júri da crítica, “pela ressignificação do olhar sobre um universo de exclusão; pela ocupação qualificada do espaço, numa função raramente conduzida por mulheres.”

Mas Baronesa ainda ia ganhar mais na noite de sábado, 28. Há três anos, Juliana Antunes integrou o júri jovem que premiou A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, um dos grandes filmes da história da Mostra Aurora. Agora, foi a vez dela, e por um filme do qual Uchoa é um dos montadores. Baronesa ganhou o prêmio da crítica. Ao repórter, Juliana disse que o Tigre foi, em definitivo, o filme que despertou nela a vontade de fazer cinema. Existem semelhanças entre os dois filmes. Ambos se constroem em torno à ideia de perdas viscerais e dão voz aos excluídos das periferias – os jovens, no Tigre, as mulheres negras, em Baronesa.

Novamente, vale atentar para a justificativa do júri – “Pela cumplicidade sem condescendência em relação às pessoas filmadas; pelo enfrentamento de estereótipos apaziguadores da boa consciência; pelo reconhecimento e afirmação da alegria e do prazer em meio aos desastres da experiência social brasileira; pela retenção da violência do extracampo; pelos riscos da mise en scène, ao assumir um gesto fílmico na iminência de desabar.” Por tudo isso, Baronesa levou o Troféu Barroco na Aurora de 2017.

E não sem polêmica. O debate levantou a questão da propriedade de uma diretora branca e de classe média filmar mulheres negras da favela. Houve réplica e réplica, mas o filme se impôs. Tiradentes outorga outros prêmios, atribuídos por outros júris. O júri jovem deu o Prêmio Carlos Reichenbach, da mostra Olhos Livres – nome do bloco de Carlão – a Lamparina da Aurora, de Frederico Machado. O júri da critica atribuiu seu prêmio de curta a Vando Vulgo Vedita, de Andréia Pires e Leonardo Mouramateus, do Ceará, exibido na Mostra Foco. O curta também recebeu o prêmio Aquisição, do Canal Brasil. O público preferiu outro curta, Procura-se Irenice, de Marcos Escrivão e Thiago B. Mendonça, e o longa Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga.

Ao longo de oito dias e em todas as seções (Aurora, Foco, Olhos Livres, Praça etc), a Mostra de Tiradentes exibiu, de graça, mais de 100 filmes. De curta, média e longa-metragem. Abrigou oficinas e debates, sob o título geral Cinema em Reação, Cinema em Reinvenção. A ideia era refletir sobre as transformações operadas no cinema brasileiro desses 20 anos, e nos dez da Aurora. Por mais que o curador Cleber Eduardo evite chamar de ‘experimentais’ os filmes de sua seleção – ele diz que são ‘inquietos’ –, Tiradentes, e a Aurora, se fixaram como a grande vitrine da produção autoral e independente do País. Até do exterior vêm olheiros de festivais importantes para garimpar as pérolas exibidas em Minas.

E é emocionante ver o carinho do público – muitos jovens, boa parte de fora, mas a população participa ativamente – em todas as sessões. Onde mais um autor maldito como Luiz Rosemberg Filho, que apresentou seu deslumbrante Guerra do Paraguay, é aplaudido de pé até as mãos ficarem vermelhas? A Mostra de Tiradentes é uma realização da Universo Produção, que, sob o rótulo Cinema sem Fronteiras, realiza mais dois eventos ao longo do ano – a Mostra de Ouro Preto, sobre o cinema de arquivo, e a Mostra Cine BH, voltada ao mercado. Há apreensão com que vai ocorrer com o cinema em 2017. Tiradentes refletiu isso, mas com qualidade e diversidade.

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