Leo Lara/Universo Producao
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Festival de Tiradentes chega ao fim neste fim de semana

Em março, público paulistano vai conferir alguns filmes; a mostra Aurora apontou caminhos inovadores para o audiovisual brasileiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 Janeiro 2015 | 18h58

TIRADENTES - Havia uma intensidade radical, visceral em O Signo das Tetas, o longa de Frederico Machado sobre corpos em movimento. O da mãe, com seus seios imensos, o do filho que cai na estrada, numa jornada de carro, bike, moto, a pé em busca de quê? Desse momento de encontro e violência com a prostituta, que remete à crueldade de Sam Peckinpah. Há, pelo contrário, um frio distanciamento em Mais do Que Eu Possa Me Reconhecer, o longa de Allan Ribeiro que leva jeito de ser um dos vencedores (o vencedor?) na premiação da 18.ª Mostra de Tiradentes, na noite deste sábado (31). Algum prêmio o filme há de ganhar com certeza.

Maria Clara Escobar talvez tenha feito escola aqui em Tiradentes, há três anos, com Os Dias com Ele. A diretora tentava filmar seu pai, o filósofo Carlos Henrique Escobar. É um dos mais belos filmes da Mostra Aurora, que aponta caminhos inovadores para o audiovisual brasileiro. Carlos Henrique resiste a ser filmado e o processo do filme ilumina a ambos, ao pai e à filha, que não têm uma relação muito fácil, mas que é intelectualmente estimulante para todos. Na abertura de Mais do Que Eu Possa Me Reconhecer – o título vem de uma música de Sueli Costa cantada por Nana Caymmi, mas o filme não diz – o pintor Darel Valença Lins brinca com a câmera, filma (grava) a equipe e depois, ops, deleta o registro. É quase uma preparação para o que vai vir.

Dividido em capítulos, o filme talvez não seja sobre Darel, mas com ele. Mais que o retrato do artista, retrata sua solidão. É curioso, pensando-se no retrato, como Darel, abrindo-se para a câmera, de certa forma arregaça tudo (experiências, sua arte, fragmentos de vida) para permanecer secreto. É o movimento do retratado, que o filme não quebra. Num segmento chamado de O Quarto do Filho, tudo a ver com o filme de Nanni Moretti, Darel conta, e espero que não seja ofensivo dizer, quase com indiferença o suicídio do filho, como se nada tivesse a ver com aquilo. Só para efeito de comparação, em outro filme visto ontem, Retratos de Identificação, de Anita Leandro, o ex-guerrilheiro, falando do suicídio da companheira, diz que é uma experiência terrível sobreviver a quem se ama. Ele chega a sair do quadro, que fica vazio por longo tempo. Darel, no filme, comenta a série de autorretratos de Rembrandt. A questão – em que momento a exterioridade (o retrato, a filmagem) pode captar/revelar o interior? E se o objeto resiste?

No debate, Allan contou que Darel não o encarava como interlocutor, como o filósofo faz com a filha em Os Dias com Ele, como ela (Maria Clara) força Carlos Henrique a fazer. Para Darel, Allan é um técnico – o pintor faz vídeos domésticos que são listados no final – e, na verdade, se tornou um amigo para aliviar a solidão que ele sente naquela casa imensa e que um dia, como conta, já esteve cheia de crianças, mulheres, empregadas. Pelo filme, pode-se dizer que o movimento da vida de Darel foi rumo a esse isolamento. Mostra um retrato em que aparece com grandes artistas brasileiros. Todos já se foram, só falta eu, ele ri. E anda naquela casa como dando razão ao poema de Fernando Pessoa. O artista é um fingidor, que – no caso dele – finge não ser dor a dor que sente de verdade.

A 18.ª Mostra de Tiradentes e, dentro dela, a Aurora, vai chegando ao fim. Ainda faltavam dois filmes para ser exibidos nesta sexta (30) à noite, Ressurgentes, um Filme de Ação Direta, de Dácia Ibiapina, e Medo do Escuro, de Ivo Lopes Araújo. Um documentário e uma ficção. Em março, a Mostra Tiradentes migra para São Paulo e terá sessões no Sesc Consolação. Será interessante ver a reação do público paulistano ao cinema mais independente e autoral, que é o celebrado aqui no interior das Gerais. A mostra não é feita só de filmes, mas também de debates e seminários. O encontro com os autores para debater os filmes é sempre muito esperado. Mas existem outros debates, mais amplos, de fundo.

Trânsito entre telas. Tiradentes discutiu a transitoriedade entre mídias, cinema e TV. O crítico Rodrigo Fonseca mediou o debate com diretores como José Luiz Villamarin, da minissérie Amores Roubados, Marcos Bernstein e Juliana Rojas. Afloraram temas como representatividade – a do negro, por exemplo – e público. Nos debates sobre autoria, o público, transformado em mercado, tende a ser visto como inimigo na trincheira, o que é no mínimo discutível. Mesmo que filmes radicais de autor, como são muitas vezes os da Mostra Aurora, sejam o oposto dos blockbusters, ocupam um nicho do mercado. Julio Bressane, respeitadíssimo autor do cinema brasileiro, é também um dos nossos cineastas mais prolíficos, com uma obra extensa que tem chegado às salas.

Ele brinca. Diz que faz filmes tão baratos que, eventualmente, dão ‘pequenas perdas’. Nesta sexta (30), a discussão foi sobre o lugar da política no cinema, de certa forma um contraponto ao seminário inicial – Qual o Lugar do Cinema? Num contexto de ampla produção de imagens – para diferentes plataformas e distintos modos de percepção –, a política vira questão de forma, diferença e recusa, muitas vezes. O professor Fernão Ramos, o cineasta Luiz Rosemberg Filho, a professora e cineasta Anita Leandro debateram a política com mediação de Hernani Heffner.

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