Festival de Paulínia retorna com competição de inéditos

Mostra que esteve ameaçada de extinção inicia nova empreitada

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

21 de julho de 2014 | 18h50

Depois de uma interrupção que levou muita gente a pensar que não voltaria mais à cena, o Festival de Paulínia ressurge agora – e com força total. O evento, que abre nesta terça-feira, 22, sua 6.ª edição com a exibição de Não Pare na Pista – A Melhor História de Paulo Coelho, de Daniel Augusto, surgira como o mais promissor dos novatos no calendário nacional. No entanto, teve sua edição de 2012 cancelada pelo então prefeito José Pavan Jr., sob alegação de que destinaria a verba para obras sociais, mais urgentes. Ano passado, Paulínia fez uma mostra compacta em dezembro, apenas para não configurar dois anos de interrupção.

Agora voltou com tudo. A edição de 2014 conta com nove concorrentes brasileiros inéditos, feito que poucos, ou talvez nenhum festival brasileiro, podem hoje ostentar. Abre, nesta terça à noite, no Theatro Municipal, com um título de grande apelo popular, a cinebiografia do autor de Diário de Um Mago e O Alquimista, dirigida por um estreante em longas de ficção, Daniel Augusto (Leia entrevista abaixo). O mago é interpretado por Julio Andrade, ator de filmes como Cão Sem Dono, Serra Pelada e Gonzaga – De Pai Pra Filho.

Compreensivelmente, no meio cultural, existe ainda um temor pela continuidade do evento. De acordo com a secretária de Cultura de Paulínia, Monica Trigo, para garantir a continuidade não apenas do festival, mas do polo de cinema que funciona na cidade, foi assinado um acordo de cooperação com o governo federal. “Conseguimos também criar um decreto que regulamenta o incentivo fiscal para o cinema e outras áreas culturais”, diz a secretária.

Paulínia vai até domingo, 27, e encerra esta edição distribuindo prêmios e exibindo um filme polêmico. Bem-vindo a New York, de Abel Ferrara, fala sobre o rumoroso caso de assédio sexual do político e economista francês Dominique Strauss-Kahn que, com o escândalo, viu ruírem suas chances de candidatar-se à presidência da França, como pretendia. Embora inspirado nesse caso real, o diretor garante que fez um filme de ficção. O personagem de Gérard Depardieu, por exemplo, chama-se Deveraux. Ferrara e a atriz Jacqueline Bisset, que interpreta a mulher de Deveraux, são esperados em Paulínia.

Os longas que concorrem aos prêmios são: A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante (Ficção, PE); Aprendi a Jogar com Você, de Murilo Salles (Doc., RJ); Boa Sorte, de Carolina Jabor (Ficção, RJ); Casa Grande, de Fellipe Barbosa (Ficção, RJ); Castanha, de David Pretto (Ficção, RS); Infância, de Domingos Oliveira (Ficção, RJ); Neblina, de Fernanda Machado e Daniel Pátaro (Doc., SP/Paulínia); Sangue Azul, de Lírio Ferreira (Ficção, PE); e Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas (Ficção, SP).

Na mostra competitiva de curtas aparecem: De Bom Tamanho, de Alex Vidigal (Ficção, BSB); Edifício Tatuapé Mahal, de Carolina Markowicz e Fernanda Salloum (Animação, SP); Jessy, de Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge (Doc., BA); 190, de Germano Pereira (Ficção, SP); O Clube, de Allan Ribeiro (Ficção, RJ); O Bom Comportamento, de Eva Randolph (Ficção, RJ); O Menino Que Sabia Voar, de Douglas Alves Ferreira (Animação, SP); e Recordação, de Marcelo Galvão (Ficção, SP).

Por inéditos, nada se pode dizer sobre a qualidade desses filmes. Mas existem motivos para boas expectativas. A mostra mescla novatos promissores e diretores de currículo alentado. É o caso de um cineasta como Murilo Salles (autor de Como Nascem os Anjos), Lírio Ferreira (coautor, com Paulo Caldas, de Baile Perfumado) e Domingos Oliveira, este um patrimônio do cinema nacional desde os anos 1960 com obras como Todas as Mulheres do Mundo e Edu, Coração de Ouro, até as mais recentes, Separações, Carreiras e Primeiro Dia de Um Ano Qualquer.

Sobre o ineditismo, que caracteriza essa retomada do Festival de Paulínia, o curador do evento, o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, diz não ser fanático do critério. “Eu não sou a favor de filmes inéditos exclusivamente. Na verdade, procurei qualidade e diversidade”, diz em entrevista ao Estado. “Queria filmes interessantes, até polêmicos, diferentes.” 

Entre esses filmes “interessantes”, Rubinho, como é conhecido no meio cinematográfico, não se esquiva de destacar o novo trabalho de Domingos Oliveira, Infância. “Acho que será o filme do ano, o melhor dele e com a Fernandona (Fernanda Montenegro), num filme inteiro, do começo ao fim, como a mãe dele. É muito belo”, afirma.

O lado mais provocante promete ser contemplado com Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas. “É o mais fora do comum, um musical que se passa num cemitério, não há nada parecido no mundo. Acho que vai ter gente saindo da sala”, acredita ainda o curador. 

“Mas o que seria de um festival sem polêmica?” De fato.

ENTREVISTA

Daniel Augusto, diretor de ‘Não Pare na Pista – A Melhor História de Paulo Coelho’

‘O filme dá nova perspectiva para entender a obra dele’

Diretor diz que traça um personagem multifacetado, com defeitos e qualidades, e que não impôs nenhuma restrição ao filme

Em entrevista ao Estado, o diretor Daniel Augusto conta como chegou ao projeto da cinebiografia de Paulo Coelho e como conversou com o mago sobre o projeto. Daniel diz que é fã das parcerias de Paulo Coelho com Raul Seixas e afirma que a obra do escritor ainda não foi devidamente levada a sério pela crítica literária.

Como foi esse projeto e como você conseguiu se aproximar do Paulo Coelho?

Fui convidado pela roteirista e produtora Carolina Kotscho para dirigir o projeto. Eu e ela já havíamos trabalhado juntos na televisão e somos amigos. Faz tempo que eu queria filmar um roteiro dela: nos últimos anos, nós chegamos a conversar sobre mais de uma história. No segundo semestre de 2012, ela me ligou e disse que tinha escrito um roteiro sobre o Paulo Coelho, e que gostaria de convidar-me para dirigir. Eu li o roteiro e gostei muito: vi que havia elementos ali que estavam afinados com o que eu buscava. 

Você fez uma cinebiografia completa dele, ou toma algum aspecto em particular da vida?

O filme aborda desde a adolescência até 2013, mas faz recortes pontuais nesse período. A ênfase está na fase anterior a ele se tornar um escritor famoso. A relação com Raul Seixas, a internação e os choques elétricos na clínica psiquiátrica, a prisão na ditadura, o encontro com os discípulos de Aleister Crowley, a contracultura, o paraíso e o inferno das drogas, o Caminho de Compostela: há tudo isso e muito mais no filme.

No caso, o que você acha mais interessante, cinematograficamente falando, o roqueiro, o mago, o escritor?

Eu acho que são três aspectos complementares do Paulo. Espero que tenham sido contemplados com igual interesse cinematográfico.

Como você lida com a extraordinária popularidade do Paulo, mesmo em nível mundial, e as restrições que lhe são feitas pela crítica brasileira?

Curiosamente, fiz mestrado em literatura brasileira na USP, com orientação do professor e compositor José Miguel Wisnik. Passei três anos e meio estudando para concluir uma dissertação sobre um único conto de Guimarães Rosa, o Cara-de-bronze. Portanto, para mim, crítica literária é assunto sério, que demanda longo estudo da obra. Salvo engano, não há uma crítica de fôlego da obra do Paulo. Com cerca de 165 milhões de livros vendidos, ele merece um estudo aprofundado.

Você teve contato com ele? O que achou da pessoa?

Eu pedi para encontrá-lo antes da filmagem. Uma das minhas origens é o documentário e eu preciso do olho no olho. Deveríamos ter uma reunião de duas horas, que se estendeu por mais de dez. Eu sou cinéfilo, ele adora cinema: tínhamos muito que conversar. Depois desse encontro, ele passou no último dia de filmagem, pois estávamos numa cidade importante para a trajetória dele, Santiago de Compostela. Jantamos juntos na ocasião, cheguei a convidá-lo para o set, mas ele só passou, não quis ficar. Por fim, tivemos um terceiro encontro, pois quis mostrar o filme. Eu estava um pouco ansioso, pois o filme mostra o Paulo com virtudes e defeitos: como um ser humano, enfim. Gostaria de ver como isso repercutiria nele. Ele ficou muito emocionado: deu risada, chorou, entre outros sentimentos que não sei definir. Tenho a impressão que o filme tocou num lugar profundo dele, um pouco além das palavras.

Teve completa liberdade para retratá-lo ou ele impôs alguma restrição?

Não houve nenhum tipo de restrição. O Paulo não participou do filme. Acho uma atitude exemplar para o Brasil, onde há algumas figuras públicas que tentam controlar aqueles que escrevem suas biografias. Um biógrafo tem que ser livre para trabalhar.

Baseou-se na biografia escrita por Fernando Morais?

Não. A roteirista Carolina Kotscho fez uma série de entrevistas e escreveu o roteiro. Depois, como peguei o roteiro praticamente pronto, também não quis fazer uma pesquisa biográfica. O que me interessava era ver se o roteiro tinha uma narrativa eficaz, se os personagens eram consistentes do ponto de vista ficcional, assim por diante.

Você é leitor de Paulo Coelho? O que pensa da obra? E do homem?

O primeiro disco que eu ganhei na minha vida foi Gita. Eu devia ter uns 4 anos. Portanto, a minha convivência com as músicas do Paulo é bem antiga. Uma canção como Sociedade Alternativa faz parte do meu repertório afetivo da vida. Quanto aos livros, como eu disse, crítica literária para mim é um assunto sério: se eu demorei três anos e meio para escrever sobre um conto do Guimarães, não arriscaria falar dos 30 livros do Paulo numa frase. Tenho a impressão que seus livros devem ser lidos em continuidade com seu trabalho como letrista: talvez Gita tenha pontos comunicantes com O Alquimista. Mas isso é uma hipótese, que espero que algum dia alguém desenvolva. Na sua vida pessoal, vejo o Paulo como um legítimo representante da contracultura brasileira dos anos 60 e 70: isto está nas canções, mas também nos livros, na herança de Carlos Castañeda. Acho que o filme, ao mostrar o homem antes do escritor famoso, talvez ajude a dar novas perspectivas para pensar o Paulo.

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