Festival de Paris premia Jorge Furtado

O júri do 5.° Festival de Cinema Brasileiro de Paris, elegeu como melhor longa-metragrem o filme Houve uma vez Dois Verões, de Jorge Furtado. Além dele, foram premiados o curta-metragem À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel, julgado por um corpo de alunos das escolas de cinema Femis e Louis Lumière, e Rádio Favela, de Helvécio Ratton, melhor filme para o publico do festival.Não havia nada nulo na seleção de filmes desta edição. Essa foi uma das frases conclusivas do júri especializado francês, formado por Jerôme Paillard (diretor do Mercado de Filmes do Festival de Cannes), Martine de Clermont-Tonnere (co-produtora de Central do Brasil), Cristophe Jörg (Diretor de Programação do canal franco-alemão Arte) e Jacques Arlandis (diretor da Escola de Cinema Louis Lumière).A mostra, que começou no dia 26 e terminou ontem, foi realizada pela Associação Jangada em duas salas de cinema parisienses e reuniu cerca de seis mil pessoas.Entretanto, mesmos satisfeitos com o panorama recente da produção nacional e a escolha principal, "uma comédia leve, simples, bem-feita e prazerosa", após o debate uma proposta de discussão inesperada, tanto quanto a eleição, surgiu ali, por parte de Arlandis. "Observo que a cada ano a criação cinematográfica brasileira tem se aproximado progressivamente da estética da televisão".Admitindo um ponto de vista limitado por ser "uma visao de europeu sobre o cinema brasileiro atual, pouquissimo difundido e conhecido" o diretor da Escola de Cinema Louis Lumière disse sentir a influência das telenovelas brasileiras em grande parte dos filmes da seleção de longas-metragens inéditos, que participaram da competição. "Hoje essa influência é notoria. Eu não conheço bem essa geração. Falo isso sem saber se os novos cineastas trabalham ou nao para televisão. Ao acompanhar o festival, vi muitos roteiros extremamente televisivos, desde a maneira de abordar as situações, utilizando seqüências que permitem uma montagem cortada, de pequenas cenas, até mesmo a concepção geral e cenários. Isso acaba dando um ritmo à pelicula muito mais proximo da televisão que do cinema", opina.Para ele, o filme escolhido pelo juri não foge dessa influência. Houve uma vez Dois Verões, no seu começo, tem um pouco dessa cultura, mas tem qualidades de filme de pouco orçamento, bons resultados, luz de cinema, enfim, está mais proximo do rigor de cinema. Possivelmente, essa influência, no geral, seja tão forte hoje por causa dos atores que participam: atuam como se estivessem na TV. Quero dizer que isso é uma perda para o cinema, aqui ou no Brasil. E este é um momento de transição dessas linguagens. A atuação, a escritura de roteiro e a estética perdem".A briga com a televisão é uma constante entre muitos profissionais franceses. Aceitam a sua importância econômica, como difusora do cinema, mas não seus principios artisticos, como afirma Suzette Glénadel, diretora do prestigiado festival Cinema do Real (Cinéma du Réel), mostra de documentarios nacionais e internacionais criada há 25 anos. "Nossa briga diária e atual é a de impor o registro documental verdadeiramente talentoso à lógica da TV, já que após o festival os vídeos são difundidos por meio de emissoras privadas e do Estado. Assim, a TV nos divulga e não tem poderes de interferir na produção e na linguagem. A meu ver, essa é a nossa veia combatente", argumenta ela. "Somos de fato um contraponto na TV. Você já viu que esses programas da vida real, os reality show, classificados como uma nova modalidade de documentários, estão impregnados na nossa programação. Aqui a TV é uma catástrofe. Não aceito essa nova modalidade, assim como não aceito qualquer produção doméstica, feita atualmente com facilidade pela presença da câmera digital", diz ela.Outros debates? Nesta edição, o Festival do Cinema Brasileiro de Paris propôs uma reflexão sobre o imaginario francês acerca do sertão. "Mesmo com uma produção (a de 2002) claramente calcada em motivos como a violência, tenho certeza de que não debatê-la foi mesmo uma escolha acertada. Reforçaria um novo estigma. Essa imagem do sertão é recorrente e acho que ao abordá-la é como se a gente terminasse uma etapa do cinema brasileiro, dando, a partir disso, subsídio para um próximo debate." O debate levantou algumas questões, mas também se ateve a um ponto inesperado. O jornalista e historiador de cinema Paulo Paranaguá deu o tom da discussão. «Não acho que devemos discutir somente ética e técnica, cada geração fala sobre a história de seu tempo, mas uma diferença brutal do cinema de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e outros era o seu princípio. Fizeram filmes baseados numa literatura como a de Graciliano Ramos, por exemplo. E hoje, que literatura é essa que nos inspira, seja para filmar o sertão, a miséria das cidades ou o retrato de Copacabana?"O cinema francês também não escapa da auto-critica, especialmente sobre questões estruturais tão importantes, como o texto, o roteiro. "O cinema francês ficcional não vai muito bem. Histórias complicadas, sobre os maneirismos franceses, sem narrativas interessantes. E o documentário, que vejo como a tendência mais criativa no mundo, luta pra se fazer produtivo, mas não é um período de relevância numérica, quantitativa.Mesmo com todos esses debates, de pouca repercussão e que não aprofundam essas importantes problemáticas; o que mexe mesmo com a cabeça dos jovens é a presença de Cidade de Deus, na capital francesa. E não pelo possível debate sobre violência e ética, mas pela força da imagem e realização. É o caso do estudante francês de cinema, Rémy Daru, membro do juri criado nesta edição para julgar os curtas-metragens. Praticamente sua referência de cinema brasileiro é a produção baseada no romance de Paulo Lins. E por quê? "Pela força da imagem, o vigor e a agilidade do cinema brasileiro, diferente do tempo do cinema francês. Quero trabalhar no Brasil, entender e aprender essa dinâmica, que me inspira bastante e que vi em outros filmes do festival", responde. Ele, entretanto, não participou do debate na Escola de Cinema Femis, um dos eventos do festival que trouxe Eduardo Coutinho para uma discussão sobre Cabra Marcado para Morrer, também exibido no festival. Segundo Louise Botkay, franco-brasileira e também parte do júri, foi importante assistir Coutinho."Poder passar Cabra Marcado para Morrer para os jovens estudantes de cinema, a maioria franceses, foi um privilégio. As pessoas se emocionaram e se impressionaram com a franqueza de Coutinho. Acho que falta isso. Ele é muito ético. Nos ajudou a conhecer um pouco do cinema brasileiro, especialmente agora que o nossa produção começa a ser difundida comercialmente, o que é muito importante, por meio de Cidade de Deus."A quinta edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris exibiu 10 recentes longa-metragens e 31 curtas-metragens, todos inéditos na capital francesa, uma homenagem a atriz Marieta Severo, cinco exposições de fotografia, pintura e xilogravura em diferentes espaços públicos, debates, pockets shows de música brasileira, espetáculos na Fnac e um concerto de encerramento com a cantora Elza Soares. O público francês pode assistir mais de 60 filmes novos e antigos. Complementar a atuação do festival e ao trabalho cultural feito pela Jangada, a diretora da mostra, Kátia Adler conta que deve abrir uma distribuidora de filmes brasileiros ainda neste ano com o produtor Tarcisio Vidigal, de o Grupo Novo de Cinema e TV.

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