Festival de Locarno dá a largada com filme francês

Embora o 57.º Festival Internacional de Cinema de Locarno, que começa hoje, tenha um filme brasileiro na competição vídeo, não há nenhum título nacional em celulóide, na competição de filmes tradicionais. ?Vi só um filme brasileiro, que prefiro manter anônimo, e não achei no formato para Locarno?, explica essa ausência, a diretora Irene Bignardi, ex-crítica de cinema do jornal italiano Republica, que sucedeu, há três anos, ao ítalo-alemão-brasileiro Marco Mueller, agora diretor da Mostra de Veneza.Marco Mueller já conhecera essa dificuldade de atrair para Locarno os cineastas brasileiros. Agora é a vez de Irene Bignardi. A razão está ligada à proximidade de data com a Mostra de Veneza ? os cineastas brasileiros, que não se poderiam dizer humildes, preferem guardar seus filmes para a seleção de Veneza. ?Onde correm o risco de terem projeções em péssimos horários ou não serem selecionados?, dizia Mueller. Este ano, com a presença de um neto de brasileira de São Vicente, na direção de Veneza, a tentação deve ter sido maior.Entretanto, no passado, Locarno era um dos festivais preferidos dos cineastas do Cinema Novo. E foi em Locarno que surgiram alguns dos grandes cineastas como Abbas Kiarostami, Ken Loach e Jim Jarmuch. Pode-se mesmo dizer que Locarno forneceu, e talvez ainda forneça a Leon Cakoff, da Mostra de São Paulo, algumas tendências (como foi o cinema iraniano) e idéias de personalidades para o júri paulistano. A grande força do Festival de Locarno é estar distante do atual pensamento único do cinema mundial, mais próximo do cinema dos países emergentes e das produções européias. Muitos de seus filmes, exibidos no telão de 300 m2 ou em suas salas imensas para 3.500 pessoas, nunca terão um distribuidor no Brasil, se não tiverem a chance de serem convidados para a Mostra de São Paulo. O Festival de Locarno começa hoje, com a projeção no telão da Piazza Grande, do filme francês Erro de Ortografia, do qual se sabe apenas se tratar de uma revolta juvenil, pois o filme ainda é inédito. Dirigido por Jean-Jacques Zilbermann, tem a bela Carole Bouquet no papel principal. Locarno é o primeiro festival a propor filmes e um livro sobre jornalismo e jornalistas. A série de filmes, paralela sob o título Newsfront, começa com Cidadão Kane e o livro tem artigos escritos por cineastas como Abbas Kiarostami e Mike Moore. Com uma presença de 200 mil pessoas, nos seus dez dias duração, uma de suas grandes atrações são as projeções no telão, em suas noites quentes de verão ticinês. Foi ali que nove mil pessoas viram e também choraram, num impressionante silêncio, filmes como O Sul, de Fernando Solanas, e Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore.

Agencia Estado,

03 de agosto de 2004 | 19h57

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.