Festival de Gramado troca de presidente em cima da hora

A pouco mais de uma semana de seu início, em 14 de agosto, o Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino atravessa uma fase de turbulência como nunca ocorreu antes em sua história de 34 anos. Há duas semanas, ao divulgar a seleção de filmes, o festival já anunciara uma mudança de curadoria e de conceito - Sérgio Sanz e José Carlos Avellar foram contratados pela comissão organizadora do evento para mudar a cara de Gramado, devolvendo à mostra uma credibilidade que ela vinha perdendo ao favorecer o glamour do tapete vermelho sobre a competição, propriamente dita. A coletiva de anúncio da seleção oficial de 2006 foi feita em Porto Alegre e conduzida pelo presidente da comissão organizadora, Enoir Zorzanello. Na segunda-feira, o próprio Zorzanello abandonou o cargo, pressionado por uma denúncia de irregularidade administrativa.Em linguagem simples e direta - as contas do Festival de Gramado não estão fechando. A conseqüência foi que o Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul, que avalia as concessões da LIC, a Lei de Incentivo à Cultura, não deu sinal verde para os investidores, colocando em risco o co-patrocínio do evento. O Festival de Gramado está orçado em R$ 4,5 milhões, distribuídos em três cotas de R$ 1,5 milhão cada - uma, através do MinC; outra, da LIC; e a terceira representando investimentos de empresários locais, por meio de serviços prestados (de hotelaria e alimentação, principalmente). Vetada na Comissão de Cultura do Estado, a LIC de Gramado está parada.O novo presidente da comissão organizadora, o secretário de Cultura e Turismo de Gramado, Alemir Coletto, garante a realização do festival deste ano e dá todo apoio à direção artística que assina a curadoria. Sérgio Sanz diz que Avellar e ele estão assumindo para resgatar a essência do festival. "Nossa função é devolver credibilidade a Gramado, com mudanças que já estão sendo implementadas, mas não no ritmo em que gostaríamos." Ele admite que encontrou resistências - na classe cinematográfica gaúcha, mais do que na nacional -, o que fará com que as mudanças ocorram de maneira um pouco mais lenta. "Em dois ou três anos, o festival vai ser outro", promete. As primeiras mudanças incluem a realização de um encontro de roteiristas, inédito não só em Gramado como em qualquer outro festival brasileiro, além de seminários para debater a produção e o mercado de DVD.Ele espera que a crise de bastidores não respingue na curadoria. "Avellar e eu fomos contratados para uma função específica. Não temos nenhum envolvimento com a parte financeira e, se você me perguntar, não saberia nem dizer por qual empresa aérea os convidados deste ano vão voar." De sua parte, Enoir Zorzanello, que se afastou da presidência mas permanece na comissão organizadora, diz que a saída foi a solução que encontrou para evitar constrangimentos. "O festival tem de ser maior que as pessoas", avalia. "Saindo, eu possibilito que a análise do benefício da LIC seja feita sem preconceito." Mas ele espera ter tempo e espaço para se defender das acusações de irregularidades administrativas.Zorzanello diz que há um prazer perverso em buscar irregularidades na área de cultura para desqualificar o patrocínio a esse segmento, no País. Garante que não houve roubalheira e que os os problemas são muito mais por inexperiência do que má fé. A empresa que fazia a prestação de contas do festival enviou ao MinC e à LIC as mesmas notas fiscais. "Não são notas fraudadas. Quando for convocado, poderei mostrar que não houve dolo. Inclusive, temos outras notas fiscais que nem chegamos a apresentar. Nossas contas vão fechar", ele diz. Desde o ano passado, a prestação vem sendo feita pela Associação de Cultura e Turismo de Gramado, presidida por Luiz Antônio Barbacovi. Os problemas referem-se a anos anteriores, que levaram o Ministério Público a solicitar à Justiça que declarasse os bens de Zorzanello indisponíveis. "É só uma garantia", o ex-presidente analisa, acrescentando que seu advogado entrou com recurso "porque não fomos ouvidos". Sua intenção de mudar a cara de Gramado foi decorrência de uma constatação. "Existem cem eventos de cinema no Brasil, que terminam se repetindo e anulando. Gramado é um dos festivais mais antigos e tradicionais do País. Não poderíamos permitir que isso ocorresse porque se trata de atividade cultural e econômica muito importante numa região em que o turismo é fundamental."

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