Edison Vara/Pressphoto
Edison Vara/Pressphoto

Festival de Gramado reafirma a força de longas latinos

O paraguaio ‘Guaraní’ e o boliviano ‘Carga Sellada’ exibem narrativas distintas, mas de grande força dramática

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2016 | 16h02

GRAMADO - Um curta com camadas – barroco, seguindo a própria diretora –, e outro minimalista deram continuidade à competição do gênero na terça à noite, em Gramado. Super Oldboy, de Eliane Coster, e Horas, de Boca Migotto. Esse mesmo contraponto caracterizou os longas das competição latina, no dia 30. O boliviano Carga Sellada, de Julia Vargas, e o paraguaio Guaraní, de Luis Zorraquín. Para o repórter, tudo começou em Cannes, 2006, quando ele integrou o júri da Caméra d'Or. Hamaca Paraguaia, de Paz Encima, poderia muito bem ter levado o prêmio, mas trombou com a incompreensão dos irmãos Dardenne, que presidiam o júri. Hamaca é duplamente econômico, como meio de produção e como estética. O mesmo pode-se dizer de A Última Terra, de Pablo Lamar, destaque no recente Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo. É a característica do cinema paraguaio.

Guaraní é sobre um velho que vive cercado de mulheres. Ele se recusa a falar espanhol. Seu idioma é o nativo, o guarani. Esse personagem parece resumir a tragédia histórica do Paraguai, cuja população masculina foi dizimada pela Tríplice Aliança, que incluía o Brasil, na grande guerra do século 19. O velho sonha com um neto varão, para perpetuar sua cultura. Faz uma longa viagem de mais de mil quilômetros, quando descobre que a filha está grávida de um menino em Buenos Aires. Leva a neta, filha dessa mesma mulher. Está indo para tentar convencê-la a voltar com o neto, ou, pelo contrário, para entregar-lhe a filha? O filme não é só minimalista. Termina em aberto, lindíssimo.

Carga Sellada, Carga Lacrada, inspira-se numa história real. Um trem militarizado percorre o Altiplano boliviano, levando uma carga tóxica. As populações sublevam-se ao longo da rota. Há uma mulher libertária dentro do trem, existem mulheres fortes, camponesas, protestando ao longo do caminho. E existe a própria diretora, Julia Vargas. Como uma mulher aciona o que parece um universo basicamente masculino, o da polícia militar, das armas? Ao contrário de Guaraní, em que a sensação é de que não ocorre nada, acontece muita coisa em Carga Sellada. Há um elemento xamânico, fantástico, na narrativa. As forças da terra – e do povo – triunfam. É um belo filme. A diretora não pôde vir. Vieram a atriz Daniela Lema e o ator Fernando Urze, que fala um português perfeito – embora nascido na Bolívia, criou-se no Rio. A competição latina, após o cubano Espejuelos Oscuros, esquenta.

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