Festival de Gramado premia Marieta Severo

Alice Gonzaga chiou e aproveitousua subida ao palco do Palácio dos Festivais - quando recebeu umprêmio especial - para corrigir a gafe do apresentador ClóvisDuarte. Ele disse que Marieta Severo foi a primeira mulher areceber o troféu Oscarito, com o qual a organização do festivalpremia uma personalidade que se tenha destacado por sua notávelcontribuição ao desenvolvimento do País. É um prêmio de carreirae Marieta pode não ter sido a primeira mulher, mas foi aprimeira atriz. Fez um agradecimento de rainha. Disse que ali,no palco do Palácio dos Festivais, não era só ela, masrepresentava todas as atrizes brasileiras. E citou de DercyGonçalves a Violeta Ferraz, de Cacilda Becker a Lilian Lemmertz,de Dina Sfat a Fernanda Montenegro. Citou as grandes da novageração: Fernandinha Torres, Marcélia Cartaxo. E a inesquecívelLeila Diniz, claro.Três semanas antes, num encontro com a reportagem, emSão Paulo, para promover o filme de Aluizio Abranches, As TrêsMarias - que estréia na sexta-feira -, Marieta fez cara dedesentendida quando o repórter observou que havia sido uma longae brilhante caminhada, desde que ela fez o Rato, na verdade, aRata, na novela O Sheik de Agadir, na televisão, nos anos1960, até o papel da matriarca que empurra as filhas para avingança no filme de Abranches. "Você virou uma unanimidade",disse-lhe o repórter. "Não sei não se sou tudo isso",respondeu. Se Marieta tinha alguma dúvida, ela caiu por terra naterça-feira à noite. A ovação que recebeu, com o público todo empé, foi o definitivo reconhecimento a "um dos ícones da arte darepresentação no País" (assim ela foi definida pelaapresentadora Tânia Carvalho, ela própria um ícone no Sul e queacrescentou um "gloriosa" para definir sua admiração porMarieta).O início foi modesto: um pequeno papel em Todas asMulheres do Mundo, ofuscada pelo carisma da eterna Leila. Nosanos e décadas seguintes, Marieta foi recebendo papéis cada vezmais relevantes até se transformar num símbolo da retomada docinema brasileiro, após a era Collor, por seu papel em CarlotaJoaquina, a Princesa do Brasil. Antecedendo a subida de Marietaao palco, o Canal Brasil mostrou um especial para lembrarmomentos dessa carreira tão importante - no cinema, no teatro ena televisão. A diretora Carla Camurati não poupou elogios aMarieta, dizendo que era preciso um talento muito especial parainterpretar a princesa do Brasil. Ela chegou a achar que só umaatriz espanhola poderia interpretar Carlota Joaquina. Agradeceaos céus por ter optado por Marieta.Sílvia Buarque, a filha de Marieta e Chico, ao lado damãe na platéia, também deu seu depoimento no especial. Lembrouque Marieta fez histórias em Gramado ao receber dois prêmios demelhor atriz, em 1986: melhor atriz de curta por A Espera emelhor atriz de longa por uma seleção de trabalhos que incluiuCom Licença Eu Vou à Luta e O Homem da Capa Preta. Nofilme de Lui Farias, Marieta faz uma mãe autoritária. Sílviadisse que gostava de ver a mãe naquele papel de mulher raivosa,tão diferente da mãe que Marieta é, na vida.Ela faz uma mãe obcecada pelo desejo de vingança em AsTrês Marias. Desenvolve nas três filhas o ódio pelos homensque mataram o pai delas, seu marido. Cobra delas a vingança. Ofilme de Aluizio Abranches tem a empostação de uma tragédia."Desde que li o roteiro, sabia que o Aluizio não faria o filmede forma naturalista." As Três Marias entra na categoria dacosmética da fome, mas estetização, neste caso, não é sójustificada como necessária. O filme prolonga uma pesquisa dodiretor que começou em Um Copo de Cólera, adaptado do livrode Raduan Nassar. Um cinema teatralizado, que assume aimpoprtância da palavra e do gesto. "Foi gostoso de fazer, maseu sabia, nós sabíamos - o Aluizio, a Júlia (Lemmertz), a MariaLuiza (Mendonça) -, que era importante achar um ponto deequilíbrio, um tom."Tanto quanto a carreira - "Por temperamento, nãoconsigo ficar parada" -, Marieta adora a família. É totalmentedevotada à família, aos dois netos. Fez Castelo Rá-Tim-Bumpensando neles, perguntou a um dos garotos o que tinha achado davovó no papel de bruxa, se ela estava assustadora. Ele disse quenão e acrescentou que era uma bruxa "do bem". Marieta resolveudar um tempo no teatro e na TV. Os próximos projetos são todosde cinema. Vai fazer a mãe de Cazuza no filme de Sandra Werneck- "Ele mesmo dizia que eu tinha a cara da mãe dele, na verdadefui escolhida pelo Cazuza" -, antes, filma a adaptação queDaniel Filho vai fazer da peça A Dona da História, de JoãoFalcão. Marieta pode ser uma trágica em As Três Marias, masadora a comédia. Adora o cinema. Sempre quis fazer parte dafamília do cinema brasileiro. O troféu Oscarito, como ela disse,"é a prova de que fui aceita pela turma".

Agencia Estado,

14 de agosto de 2002 | 18h10

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