Cleiton Thiele/Agência PressPhoto
Cleiton Thiele/Agência PressPhoto

Festival de Gramado faz 'salada' em premiação contestável

Filme ‘Ausência’ foi o melhor nacional, uma rara escolha defensável dos três júris responsáveis pelo imbróglio dos Kikitos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo/Gramado

17 Agosto 2015 | 03h00

Além de ser bela mulher, Mariana Ximenes tem se envolvido em projetos interessantes – 'Operação Sônia Silk' –, mas daí a ter sido a melhor atriz no Festival de Gramado encerrado na madrugada de ontem vai uma distância imensa. O Kikito que ela recebeu por 'Um Homem Só', de Cláudia Jouvin, deve ser computado como uma das excentricidades do júri que atribuiu os prêmios da competição brasileira, e nem foi a maior. O mesmo júri achou que duplicar Vladimir Brichta superou o desafio da filmagem noturna, debaixo d’água, de 'Ponto Zero', o longa do gaúcho José Pedro Goulart e atribuiu o prêmio de fotografia a 'Um Homem Só'.

Não basta agora à crítica analisar e debater os filmes. Os júris de festivais, e os de Gramado, em especial, andam bem pouco razoáveis. Não há muito que objetar aos Kikitos de melhor filme e direção para 'Ausência', de Chico Teixeira, mesmo que seja inferior a 'A Casa de Alice', do próprio Chico. O júri acertou nos prêmios para 'Ponto Zero', melhor montagem e edição de som, mas foram insuficientes para recompensar a ambição estética do filme mais ousado da seleção brasileira. Em muitas categorias, havia sempre alguém melhor, que poderia e até deveria ter vencido.

Pode-se imaginar que, no júri de longas nacionais, como no de latinos, tenham havido divisões internas, e isso favoreceu as chamadas soluções de compromisso. Mas faltou bom-senso, senão grandeza. Com ótimos filmes para premiar – o mexicano' En La Estancia', o cubano 'Venecia', o colombiano 'Ella' e o uruguaio 'Zanahorria/Cenoura' –, como aceitar que o júri tenha escolhido o menos bom, já que não é propriamente ruim, da seleção estrangeira – o argentino 'La Salada?' A menos que o júri realmente acreditasse estar premiando o melhor, e aí a coisa é mais grave. Como admitir que o prêmio da crítica também tenha ido para 'La Salada'?

O ódio do júri pelo alegado esteticismo do concorrente colombiano – segundo diferentes versões que circularam para a premiação – levou o grupo à decisão cega de não premiar o admirável protagonista de 'Ella', Humberto Arango, e isso sim foi criminoso. O prêmio de roteiro para' En La Estancia' também não faz justiça às melhores qualidades do longa de Carlos Armella. Os prêmios de atrizes, no plural, e direção (Kiki Alvarez) para 'Venecia' foram os acertos do júri latino. Mas nada para o equatoriano 'Ochentaisete', de Anahi Hoenseisen e Daniel Andrade, foi realmente demais. 

O júri de longas nacionais também acertou nos prêmios de ator e atriz coadjuvante para Breno Nina e Fernanda Rocha, por 'O Último Cine Drive-in', de Iberê Carvalho. Ainda bem que existe o júri do Canal Brasil, senão o deslumbrante 'Dá Licença de Contar', de Pedro Serrano, teria passado em branco na competição de curtas. Haveria muito o que falar sobre o tema das relações entre pais e filhos em toda a seleção, mas os percalços da premiação ocupam o foco.

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