Festival de Gramado divulga no sábado os vencedores dos Kikitos

'Infância', adaptado da peça 'Do Fundo do Lago Escuro', é destaque

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2014 | 20h59

GRAMADO - Numa carta ao festival, lida por sua mulher e musa, Priscilla Rozembaum, Domingos Oliveira citou quatro ou cinco motivos 'incontornáveis' que o impediam de estar presente à apresentação de seu longa Infância, na quinta-feira à noite. Domingos não apenas tem participado com frequência do Festival de Cinema Brasileiro e Latino como deve ter uma estante só de Kikitos, de tanto que já foi premiado na serra gaúcha. É bom que o júri deste ano o leve, de novo, em consideração. Infância, adaptado da peça Do Fundo do Lago Escuro, do próprio Domingos, é um de seus melhores filmes.

O 42.º Festival de Gramado apresentou ontem os últimos concorrentes - o longa de ficção argentino Alguns Dias sin Música, de Matías Rojo, e o documentário brasileiro Esse Viver Ninguém Me Tira, de Caco Ciocler. Neste sábado, ocorre a cerimônia de premiação, que será transmitida ao vivo pelo Canal Brasil, com comentários do crítico do Estado, Luiz Zanin Oricchio. Os melhores nacionais foram exibidos nos primeiros dias - A Despedida, de Marcelo Galvão, e Senhores da Guerra, de Tabajara Ruas. O segundo, por seu perfil histórico (e gauchesco), está longe de ser uma unanimidade. A polarização dá-se entre dois musicais - A Luneta do Tempo, de Alceu Valença, irregular mas com uma primeira parte impactante, e Sinfonia da Necrópole, que já havia feito sensação em Paulínia por ser uma comédia com canto e dança passada num cemitério.

Como Sinfonia, Infância também integrou a competição de Paulínia, com curadoria de Rubens Ewald Filho (um dos três curadores de Gramado, com Eva Piwowarski e Marcos Santuaria). Se o júri buscar a unanimidade premiará Nelson Xavier e Fernanda Montenegro com os Kikitos de melhor ator e atriz, por A Despedida e Infância. Por mais que artistas adorem afagos, o prêmio, nessa quadra da vida, não acrescentará grande coisa à glória de nenhum dos dois. Se quiser ousar/causar, o júri disporá de muitos bons candidatos brasileiros, e gente jovem, para quem um prêmio desses poderá significar mais - Juliana Paes, por A Despedida; Rafael Cardoso, por Senhores da Guerra; Eduardo Gomes, por Sinfonia da Necrópole.

O melhor estrangeiro/latino será O Crítico, de Hernan Guerschuny? Esclavo de Dios, de Joel Novoa, tem qualidades para descolar alguns Kikitos. E não se pode esquecer de Las Analfabetas, de Moises Sepúlveda. Houve jurando fazendo rasgados elogios ao filme chileno nos debates. Quem leva os prêmios? É uma questão de horas até sabermos, à noite. À espera do resultado, podem-se tecer loas ao Domingos de Infância. Um filme pessoal, de cunho autobiográfico. Fernanda Montenegro faz Dona Mocinhas, a matriarca (viúva) de uma família de classe média nos anos 1950. Há um perfume de Nelson Rodrigues na história. O genro que se apropriou do dinheiro da velha, o filho que cobiça a doméstica, os meninos à beira de um troca-troca no quarto escuro.

Nos últimos anos e filmes, Domingos tem feito uma veemente defesa do método barato de fazer cinema. Sua produtora, Renata Paschoal, contou que os filmes anteriores andavam em torno de R$ 100 mil (cada). Aqui, o orçamento disparou, por meio das leis de incentivo, para R$ 2 milhões. Como em O Primeiro Ano de Um Dia Qualquer, a casa não é só cenário, mas personagem. Lá, Maitê Proença, que também era atriz, liberou o décor, que era a casa dela. Em Infância, a locação foi difícil de achar - Domingos queria uma casa com alma - e teve de ser paga. Dona Mocinha reúne parte da família. O álbum de família anima-se por meio de acusações e cobranças. O relógio corre implacável, porque tudo se passa num dia e Dona Mocinha já decretou que quer ouvir o programa de Carlos Lacerda, no rádio. De forma discreta, Domingos fez seu filme mais político.

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