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Festival de Gramado: a recepção tem sido fria como a temperatura

Aplausos protocolares têm marcado o evento; na programação, duas produções nacionais trazem atores perfeitos

Luiz Carlos Merten - Gramado, O Estado de S. Paulo

12 de agosto de 2013 | 18h59

Chuva e vento aumentaram ainda mais o frio no fim de semana, na serra gaúcha. Na segunda (12), saiu o sol e com ele veio a expectativa de aquecimento. Todo mundo se perguntava se os ânimos também vão se aquecer. A receptividade aos filmes concorrentes tem sido fria. Aplausos protocolares, em contraste com as torrentes de aplausos para homenageados como os atores Wagner Moura e Glória Pires. Ele ganhou o Troféu Cidade de Gramado, que também vai ser atribuído a Lima Duarte – e não Barreto, como saiu aqui no outro dia. O prêmio teria de ser póstumo para poder ser dado ao diretor do mítico O Cangaceiro, dos anos 1950.

Os aplausos foram pouco mais que protocolares até para o filme sensação do festival – Tatuagem, de Hilton Lacerda. Em Cannes, havia, na mostra Um Certain Regard, L’Inconnu du Lac, O Desconhecido do Lago, suspense gay de Alain Guiraudie – um serial killer age numa praia de nudistas que é ponto de pegação de homossexuais – tão bom que se igualava ao vencedor da Palma de Ouro, A Vida de Adèle, de Abdellatif Kechiche. O fato de um filme abordar o homossexualismo e ter cenas fortes pode ser um problema e terminar condenando certas produções mais ousadas ao gueto. Mas, se o filme é grande, sempre se pode esperar que, no final, vença as resistências até dos conservadores.

Tatuagem conta a história de uma companhia de teatro no Recife, durante os anos de chumbo. Um cabaré literário/transgressor, animado por gays e drags. O líder do grupo, casado (com mulher) e pai de um menino, envolve-se com um soldado do Exército. O jovem é objeto de escárnio (e desejo) do próprio sargento instrutor. Hilton Lacerda é conhecido principalmente como roteirista e, como tal, tem desenvolvido uma atividade importante no cinema pernambucano. É o roteirista de Febre do Rato, de Cláudio Assis, com o qual compartilha o protagonista – o ator Irandhir Santos, em ambos representando figuras libertárias.

O filme possui grandes cenas – um diálogo entre Irandhir e uma das integrantes da companhia, a mais escrachada, Paulette, e o momento em que o soldadinho, assediado pelo sargento, inverte o jogo e expõe a hipocrisia da homofobia do outro. Certos números musicais deram o que falar, mas, no geral, além de longos, são mais chulos que provocadores. O problema é, afinal, o que o diretor quer dizer. Como a história se passa em 1978, o soldado, inevitavelmente, coloca o problema da corporação – o aparelho repressivo do regime militar, que se volta contra a companhia. O filme arma um conflito que poderia ser forte, mas se dilui.

O latino da noite de domingo foi mais decepcionante ainda. El Padre de Gardel, de Ricardo Casas, do Uruguai, é um documentário que sustenta a tese de que Carlos Gardel não apenas era uruguaio como era produto da relação incestuosa de um influente coronel de Tacuarembó. Poderia ser uma grande ficção, mas exigiria mais recursos. Como documentário, torna-se interessante na segunda metade, quando, inclusive, entram as cenas cantadas de Gardel (e imagens de seus filmes). Sintetizando a vida do ‘padre’ (pai) no começo, o público só teria a ganhar.

A relação entre velhos e jovens em curtas afiados como navalha

Dois curtas movimentaram no domingo à noite o 41.º Festival de Gramado – Cinema Brasileiro e Latino. São dois curtas nacionais. Ambos tratam da relação entre velhos e jovens. Um avô e seu neto adolescente em A Navalha do Avô, de Pedro Jorge, e o avô é o crítico e escritor Jean-Claude Bernardet; dois estranhos, um velho solitário e um garoto negro que invade o território do primeiro em Arapuca, de Hélio Villela Nunes.

O que é o cinema? É uma pergunta que a gente não cessa de se fazer, e num festival de cinema mais ainda, pois as propostas costumam ser muitas. A Navalha promete, quem sabe, violência, e há um momento de (quase) terror em que o adolescente, ao barbear o avô sob o olhar inquieto da avó, parece que vai cortar o velho. Ele está mal de saúde e o garoto exaspera-se de andar com ele, para lá e para cá. Mas, de repente, ao penetrar no universo do idoso – a barbearia –, ele o descobre e entende.

É um cinema do cotidiano, de pequenos gestos e observações, de cenas familiares. O diretor admitiu que Jean-Claude, o crítico, sempre foi para ele uma referência e por isso ele já escreveu A Navalha do Avô sonhando em tê-lo no papel. Jean-Claude topou, e faz um belo trabalho. Ele já apareceu em outros filmes, mas sempre no próprio papel. Aqui, cria um personagem, e o cria bem. Seu carisma é impressionante. Sua persona é humana. A navalha não entra como instrumento de terror, mas de ruptura simbólica – de castração, Jean-Claude brinca.

O velho e o menino de Arapuca divergem em torno de uma árvore. O velho plantou a semente, a árvore deu frutos e agora o garoto invade o espaço. E come o fruto. Estabelece-se a tensão. O velho é duro, solitário. Cria uma armadilha com um boneco de palha – a arapuca – para surpreender o menino. Ele é negro, rosto de bravo. Não se entendem, ao contrário do avô e do adolescente no outro filme.

Villela Nunes disse que o filme dele nasceu de uma paisagem. Uma certa árvore da fazenda de sua infância, em Lins. Ele filmou em suntuoso preto e branco. A paisagem natural é importante como a paisagem humana, os rostos. Os atores são perfeitos nos dois filmes. Não importa o formato. Tamanho não é documento. Os curtas marcam presença em Gramado 2013.

Notas

Prêmio

Há uma mostra de curtas gaúchos. Os filmes foram exibidos sábado e domingo e, no próprio domingo à noite, houve a premiação. O vencedor foi O Matador de Bagé, de Felipe Iesbick. Como piada – o matador enfrenta rival mais jovem – tem seus momentos de humor, mas nada demais.

Homenagem

Gramado homenageia hoje com o Troféu Eduardo Abelim o Canal Brasil. O prêmio destaca o papel do canal, parceiro do festival, na preservação e divulgação do cinema do País.

Debates

Salvo ocasiões especiais, o tapete vermelho de Gramado perdeu muito do seu glamour. Um Wagner Moura, uma Glória Pires sempre deixam a imprensa louca. No restante do tempo, os debates, que atraem um público específico – de cinéfilos –, movimentam mais que as ‘estrelas’.

Chuva

Segunda, brilhou o sol. Na terça, a expectativa é de mais chuva. Talvez seja o ideal para um filme de ‘câmara’ como o de Lina Chamie, Os Amigos, que passa hoje e concorre na categoria filme.

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