Festival de filmes franceses, no Brasil

É um filme sobre a essência, e a aparência, da felicidade. Portanto, é também um filme sobre a infelicidade, que fala sobre medos e inseguranças das pessoas, que fala das doenças individuais e sociais, sendo a maior delas, talvez, a mentira. Todo mundo, de uma ou outra forma, mente em Amores Parisienses. E, se as pessoas cantam, é justamente para dar forma a essa mentira - para mascarar sua vida e dar um colorido mais róseo às pequenas misérias do cotidiano. Quem observa, ou afirma isso, é Agnès Jaoui. Atriz e diretora de O Gosto dos Outros, Agnès também é atriz e roteirista do filme de Alain Resnais, tendo recebido, por essas funções, duas das sete estatuetas - o César, Oscar do cinema francês - que consagraram Amores Parisienses no começo de 1998. O filme de 1997 inaugura hoje o Festival do Cinema Francês, uma mostra itinerante de sete filmes - seis inéditos, só um já conhecido do público: O Closet -, que, a partir de São Paulo, vai viajar por mais 13 capitais brasileiras. Agnès desembarca no dia 16, ou 17, em São Paulo. Daqui vai para Goiânia e Salvador, onde a mostra estará se realizando. Em São Paulo, o evento que começa com Resnais - On Connait la Chanson, rebatizado como Amores Parisienses -, vai exibir, durante duas semanas, os seguintes filmes: A Teia de Chocolate, de Claude Chabrol, o citado O Closet, de Francis Veber, mais as comédias Um Dia de Rainha, de Marion Vernoux, e Meu Pequeno Negócio, de Pierre Jolivet, e também Betty Fisher e Outras Histórias, de Claude Miller, e Encontro Inesquecível, de Christian Carion, que estará hoje na cidade. A idéia do Festival do Cïnema Francês é de André Sturm, o dono da Pandora Filmes, que participou, no ano passado, da Mostra do Cinema Francês em Acapulco, no México. Foi lá que começou a ser desenhado o evento que agora começa no Brasil. Distribuidor que também é cinéfilo - além de diretor: Sonhos Tropicais -, Sturm achou importante abrir essa vitrine para a divulgação do cinema francês no País. A França, com exceção da Índia - mas esse é um caso especial, pelas próprias condições culturais da sociedade indiana -, é o único país, hoje, no mundo, que tenta fazer frente à maciça dominação que Hollywood exerce sobre os mercados de todo o mundo. No ano passado, graças aos números de sucessos como O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet, e O Pacto dos Lobos, de Christophe Gans, o cinema francês chegou a ocupar quase 50% do próprio mercado. E não se trata apenas de resistir internamente. A França, para defender sua língua e a identidade, investe pesado em produções das cinematografias ditas francófonas. Também participa, com dinheiro, de programas internacionais como Cinémas du Sud, que ajuda a viabilizar a produção de países do Terceiro Mundo. Por tudo isso, Sturm acha que é preciso fortalecer a presença do cinema francês no mercado brasileiro, tão dominado por Hollywood. Todos os filmes que participam da atual programação vão estrear comercialmente. Um já estreou: O Closet. Outro já foi exibido na TV paga: A Teia de Chocolate, o thriller de Chabrol com Isabelle Huppert, que passou como Obrigado pelo Chocolate na TV paga, mais exatamente, no Eurochannel, há dois anos. Na entrevista que deu na sexta-feira, por telefone, ao Estado, Agnès Jaoui, falou do seu orgulho, como atriz e diretora, de saber que seu país tenta resistir a uma globalização que, no mundo, só serve para fortalecer a posição americana. Ela diz: "Acho que foi nos anos 1930 que o presidente Roosevelt disse que era preciso investir na produção de Hollywood como parte de uma estratégia geopolítica para consolidar a posição dos EUA no mundo. Ele dizia que, por meio dos filmes, seria possível vender não só o estilo americano de vida, mas também os produtos. E citava os carros, muito especialmente." Ao mesmo tempo que manifesta seu orgulho, Agnès revela também preocupação: "Temo que estejamos prestes a matar a galinha dos ovos de ouro. Há uma tendência, hoje, na França, que consiste em investir muito dinheiro na produção de filmes de grande espetáculo para concorrer com os de Hollywood. É um absurdo, porque você discute o conceito deles de cinema, mas não o fato de que eles são muito bons no que fazem. A dinheirama toda que vai para essas superproduções representa menos dinheiro investido em filmes de autor, que eu acho que representam o melhor da contribuição francesa, como alternativa a Hollywood. Para que tentar fazer mal o que eles fazem tão bem? E de que adianta fazer bem se eles possuem o sistema de distribuição nas mãos, em todo o mundo? É por isso que temo que estejamos quase matando a nossa galinha dos ovos de ouro, como na história infantil." Para Agnès, a contribuição que a França tem a dar ao cinema do mundo passa necessariamente por autores como Resnais, de Amores Parisienses. "É um grande artista e um grande senhor, na vida", diz. Ela e seu parceiro/marido, o ator e roteirista Jean-Pierre Bacri, já haviam trabalhado com Resnais em Smoking/No Smoking. Ele nos chamou, conversamos durante várias tardes e surgiu o projeto desse filme que incorpora canções, mas não é um musical tradicional, no sentido hollywoodiano. Nós, já que sou atriz também, cantamos trechos de músicas, mas as vozes são dos artistas que celebrizaram essas canções." Na França, On Connait la Chanson/Amores Parisienses ganhou sete prêmios César, entre eles os de filme e direção. "Resnais é único", ela diz. "Ele não escreve uma frase do roteiro de seus filmes, dá uma liberdade imensa para nós, roteiristas e atores, mas é um autor completo." Um dos maiores do cinema, ela acrescenta e, à luz de Hiroshima Meu Amor, O Ano Passado em Marienbad, A Guerra Acabou, Providence e Meu Tio da América, força-nos a concordar com a afirmação. 1.º Festival do Cinema Francês. Segunda, às 19 horas, quinta, às 21h15, ´Amores Parisienses´/97, de Alain Resnais; segunda, às 21h15, ´Um Dia de Rainha´/2001, de Mario Vernoux. Terça, às 19 horas, ´A Teia de Chocolate´/2000, de Claude Chabrol; terça, às 21h15, ´Meu Pequeno Negócio´/2000, de Pierre Jolivet. Quarta, às 19 horas, ´O Closet´/2001, de Francis Veber; quarta, às 21h15, ´Betty Fischer e Outras Histórias´/2001, de Claude Miller. Quinta, às 19 horas, ´Encontro Inesperado´/2001, de Christian Carion. De segunda a quinta. De R$ 7,00 a R$ 10,00. Cineclube Directv 1. Rua Augusta, 2.530, tel. 3085-7684. Até quinta

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.