Festival de Curtas destaca Agns Varda

Agns Varda ficou estigmatizada por um observação que, sobre ela, fez a revista Cahiers du Cinéma. Numa edição especial sobre a nouvelle vague, o movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960, Cahiers perguntava: "É possível amar ao mesmo tempo Mao Tsé-tung e os antiquários?" E a própria revista respondia: "Agns Varda provou que sim." Ela acha que a piada dos Cahiers foi de mau gosto: "Nunca freqüentei os antiquários." Mas sua satisfação é evidente quando o repórter lembra que os Cahiers também a consideram a mãe da nouvelle vague. Agns Varda fala pelo telefone com a reportagem. Concordou em dar uma entrevista, apenas, para o Brasil. Está saindo em férias. É a grande homenageada do Festival Internacional de Curtas de São Paulo, que começa no dia 23. O festival, que privilegia este ano o olhar feminino, vai fazer a retrospectiva completa da obra de curtas da diretora.Seus longas fizeram sensação no auge da nouvelle vague, nos anos 60: Cléo das 5 às 7, a angústia, durante duas horas de uma mulher que espera o resultado do exame que vai dizer se tem câncer, e As Duas Faces da Felicidade, o famoso Le Bonheur, no qual Agns se colocou na cabeça de um homem, tentando descobrir o que é, afinal de contas, o desejo masculino. Antes disso, nos 50, ela já fazia os curtas. O primeiro, Ô Saisons, ô Chateaux, de 1956, foi montado por Alain Resnais. Agns conta a gênese daquele clássico. O Ministério de Turismo da França encomendou-lhe um documentário institucional sobre os castelos do vale do Rio Loire. Ela chegou ao local num dia triste, invernal. Não havia turistas. Encontrou o jardineiro e começou a conversar com ele sobre árvores. Incorporou a conversa ao filme. Transformou um curta institucional num trabalho pessoal. Foi sempre assim, ao longo de sua carreira. Em 1963, ela foi a Cuba, nos primórdios da revolução de Fidel. Trouxe de lá um de seus clássicos: Salut les Cubains. Em 1968, foi a Chicago. Descobriu, na lista telefonônica, o nome de um certo Varda. Era um parente que havia emigrado para os EUA. Fez Uncle Janco. Ainda na mesma viagem passou por Nova York e fez Black Panthers, sobre o grupo radical que pregava a luta armada para resolver os problemas dos negros americanos.Todos esses filmes serão exibidos na retrospectiva. Em princípio, a própria Agns deveria voltar ao Brasil, onde esteve nos anos 60, com o marido, o também cineasta Jacques Demy, de Lola, a Flor Proibida e Os Guarda-Chuvas do Amor. Teve de cancelar a viagem. Guarda excelente lembrança de Minas: "Adorei aquela cidade, como se chama?, com as igrejas barrocas" (refere-se a Ouro Preto). Lembra que conheceu muita gente inteligente. Era o auge do Cinema Novo. Cita Gustavo Dahl. "Como vai ele? Tivemos conversas muito enriquecedoras."Nascida em Bruxelas, de pais franco-gregos, Agns estudou na Sorbonne para ser conservadora de museus. Deve ser por isso que Cahiers fez aquela piada com os antiquários. Descobriu a fotografia. Virou fotógrafa profissional, considerada uma das maiores da França. A fotografia a levou ao cinema, por meio de encomendas como a do curta documentário sobre os castelos do Loire. É uma intransigente defensora do cinema de autor. Só acredita no cinema como expressão autoral. Agora mesmo, colhe um grande sucesso pessoal com Les Glaneurs et la Glaneuse, um documentário (de 82 minutos) sobre respigadores. "Surpreende-me a acolhida que teve esse filme; todos querem vê-lo, em toda parte; acho que é porque nos lembra de que a tal da globalização está longe de ter resolvido os problemas da humanidade; mais que nunca, é preciso falar dos excluídos."Não se refere apenas à massa de desempregados ou famintos que a nova economia globalizada vem produzindo, em todo o mundo. "De alguma forma, todos nós somos excluídos." Sempre foi de esquerda, mesmo que não fosse maoísta, outra mentira de Cahiers. E sempre teve a fama de ser uma baixinha irascível, autoritária, uma autêntica mulher macho francesa. Deve ser por isso que formava um par tão perfeito com Demy, tão delicado, num certo sentido, tão ´feminino´. Ela é capaz de ficar horas falando sobre o marido que morreu, em 1990. Se há um culto a Demy, ela é a sacerdotisa. Acha que ele foi um diretor adiante de sua época. Havia críticos que o chamavam de alienado, por seu lirismo, e no entanto Agns acha que hoje ficou claro que havia um projeto profundamente político na obra do marido."Quando ele fazia filmes sobre a busca da felicidade englobava todos os temas e todo o mundo; nascemos para ser felizes e é preciso denunciar tudo o que nos impede de atingir a felicidade." Deu, sobre Demy, um belo testemunho para o filme Janela da Alma, que ganhou o Cineceará. O filme trata do olhar. Agns filmou e fotografou o marido até o fim. Tirou imagens daquele rosto, daquela pele condenados ao desaparecimento. Cinema, para ela, é matéria de memória. Um dos grandes filmes da retrospectiva é Ulysse, de 1983. Agns encontrou uma velha fotografia que havia tirado em 1954. Na beira do mar, uma cabra, um menino e um homem. A cabra morreu, o menino é Ulisses e o homem está nu. A partir dessa imagem fixa, o filme explora o imaginário e o real. O tempo, sempre o tempo no cinema de Agns Varda. E o amor, a felicidade. A viúva de Demy, ainda apaixonada por ele, onze anos após sua morte, tem pronta a autodefinição: "Sou uma romântica. Às vezes, tenho a impressão de ser a última romântica."

Agencia Estado,

06 de agosto de 2001 | 16h43

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