Festival de curtas de BH mostra panorama abrangente

Foi o 4.º Festival Internacional de Curtas-Metragens de Belo Horizonte, mas para os organizadores do evento que terminou domingo na capital mineira foi o segundo. Os dois primeiros, com efeito, ocorreram há quase dez anos, por iniciativa do crítico José Zuba Jr. Ocorreram em 1994 e 1995. Com a morte dele, o festival foi abandonado. Até como homenagem ao amigo, foi retomado no ano passado por Walesca Fauci, no quadro das realizações da Fundação Clóvis Salgado, que mantém o Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Walesca, que coordena o festival, é chefe do Departamento de Cinema da Fundação.Durante 12 dias, de 4 a 16, o festival mostrou um quadro bastante amplo das tendências do curta no País e no exterior. Também exibiu uma retrospectiva nacional e uma seleção de curtas sobre futebol, cuja curadoria foi feita por José Roberto Torero. Só isso já transformaria o festival de Belo Horizonte numa vitrine importante, mas houve mais. No começo do ano, os organizadores negociavam a vinda, para o Brasil, de uma retrospectiva dos curtas de Marguerite Duras. Houve problemas de orçamento e a retrospectiva de Duras ficou para o ano que vem. Foi substituída por uma retrospectiva dos curtas de François Ozon, o diretor de Gotas d?Água em Pedras Escaldantes e do inédito Oito Mulheres. Foram exibidos trabalhos preciosos que reafirmaram a preferência do jovem diretor (34 anos) pelos temas da sexualidade e dos comportamentos atípicos ou anticonvencionais. Un Robe d?Été e Scènes de Lit, segundo o próprio catálogo do festival, destinam-se a pessoas sem preconceitos em relação às diversas manifestações sexuais, apreciadores do bom humor e do humor negro, GLS e amantes do bom cinema em geral.Houve mais duas seleções importantes. Woman Makes Movies trouxe uma seleção em homenagem aos 30 anos da organização nova-iorquina criada para enfocar a sub-representação e a má representação das mulheres na mídia. A WMM é hoje a maior distribuidora mundial de vídeos e filmes feitos por (e sobre) mulheres. No âmbito dessa seleção, houve uma retrospectiva dos curtas da diretora neozelandesa, radicada na Austrália, Jane Campion. Peel, Passionless Moments, After Hours e A Girl?s Own Story discutiram temas como o direito à diferença, expuseram cenas da vida cotidiana, denunciaram o abuso sexual e evocaram a beatlemania, por meio de experiências autobiográficas da própria autora de O Piano. Um acordo com o Festival de Clermond-Ferrand, na França, trouxe a Belo Horizonte três programas em homenagem aos que os curadores do evento francês chamaram de santíssima trindade da cultura latina: Família, Amor e... Futebol. Foram exibidos curtas da Holanda, Grécia, Inglaterra e Espanha.Uma mudança decisiva em relação ao evento do ano passado foi a criação de duas mostras competitivas. No ano passado, houve só uma, internacional, que englobou a produção brasileira. Este ano, as mostras foram separadas e houve uma competição nacional e outra internacional, cada uma com seu júri próprio. Além do troféu Cachoeira, em homenagem a Humberto Mauro, que dizia que o cinema é cachoeira, o festival atribui prêmios em dinheiro e em serviços (da Mega Digital e da, principalmente). Os vencedores internacionais foram: Helicóptero, de Ari Gold, dos EUA, prêmio do júri; Fait d?Hiver, de Dirk Beliën, da Bélgica, prêmio do público; e Copy Shop, de Virgin Widrich, também da Bélgica, prêmio do público. Os vencedores nacionais foram: Reminiscência, de Eduardo Nunes, prêmio do júri; Palace II, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, prêmio do público; e Passageiros de 2.ª Classe, de Luiz Eduardo Jorge, Kim-ir-Sem e Waldir de Pina, prêmio da crítica. O prêmio para o melhor curta mineiro foi para Françoise, de Rafael Conde.A festa de premiação teve dois momentos muito emocionantes: a homenagem ao criador do festival, sobre um fundo formado por fotos que mostravam o idealizador do evento em Belo Horizonte, e a homenagem a Helvécio Ratton, o diretor (mineiro) de obras como A Dança dos Bonecos, O Menino Maluquinho e Amor & Cia. Seu curta João Rosa recebeu o prêmio Resgate do Cinema Mineiro, criado com o objetivo de contribuir para a preservação da memória do cinema no Estado. Oferecido pela Prefeitura de Belo Horizonte, o prêmio consiste na aquisição ou restauração da cópia de um curta importante, histórica e esteticamente. João Rosa foi escolhido por sua relevância cultural e também porque o filme não tinha cópias depositadas em nenhuma cinemateca brasileira. A cópia restaurada de João Rosa ficará depositada no Crav, o Centro de Referência Audiovisual, na capital mineira, como estímulo ao projeto de criação de uma cinemateca da instituição.Cerca de 21 mil espectadores foram atraídos às salas de exibição (o Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, o Cineclube Savassi), no ano passado. No total, incluindo o público das palestras e oficinas, o evento mobilizou 30 mil pessoas em 2001. Para este ano, os números ainda estão sendo contabilizados, mas apontam para uma pequena ampliação. Esta se deve, em parte, à credibilidade que o festival está atingindo, ou já atingiu, mas também ao fato de que ganhou mais uma sala, a da Usina Unibanco. Orçado em R$ 250 mil, o Festival Internacional de Curtas-Metragens de Belo Horizonte capta recursos por meio das leis estaduais e federais de cultura. Não conseguiu nenhum apoio pela lei federal. Salvou-o a estadual. A TIM Maxitel, empresa de comunicação, assumiu o custo integral e o evento foi, por isso, rebatizado como 4.º Festival Internacional TIM de Curtas-Metragens de Belo Horizonte.

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