Divlugação
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Festival de cinema nórdico dá ênfase na presença feminina

A suprema raridade é o primeiro documentário produzido na Groenlândia, sobre o primeiro grupo de rock a gravar em groenlandês – Sumé – O Som de Uma Revolução

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2016 | 04h00

Haja coração, e resistência. Passada a Olimpíada, agora é o cinéfilo que tem de se desdobrar para dar conta de todos os eventos de cinema que estão começando na cidade. Quem reclama da mesmice do circuitão vai ter de se desdobrar. O Festival Internacional de Curtas, a 8½ Festa do Cinema Italiano e o 1.º Festival Ponte Nórdica, que visa a estabelecer a conexão entre as salas e os espectadores brasileiros com o cinema nórdico. Estão todos começando ao mesmo tempo. O evento de cinema nórdico é promovido pelo Instituto Cultural da Dinamarca. São 12 longas e 8 curtas, e a curadora Tatiana Groff colocou ênfase na presença feminina.

Não necessariamente diretoras, embora elas sejam muitas. Também grandes atrizes e personagens fortes. São filmes dinamarqueses, suecos, finlandeses, islandeses, noruegueses e até da Groenlândia. A suprema raridade é o primeiro documentário produzido na Groenlândia, sobre o primeiro grupo de rock a gravar em groenlandês – Sumé – O Som de Uma Revolução. Será uma programação de descobertas, mas a pérola é um filme em pré-estreia, que terá lançamento na sequência. Em Berlim, em fevereiro, o diretor Thomas Vinterberg confessou ao repórter que A Comunidade era um filme que ele queria há muito tempo fazer. É seu melhor desde Festa de Família, uma das obras definidoras do conceito do Dogma. Lembram-se do movimento dos monges cineastas da Dinamarca?

Vinterberg e Lars Von Trier foram seus criadores. Redigiram o documento inicial, uma carta de princípios. Agregaram autores dispostos a seguir suas regras, a maior delas – o cinema sem artifícios – os próprios teóricos não seguiram. Von Trier trucou as cenas de sexo explícito de Os Idiotas, Vinterberg seguiu uma trajetória errática – fez até comédia boba em Hollywood – após o começo impactante. Mas agora ele se reencontra. “Meus pais eram hippies que queriam viver a utopia da vida comunitária. Meu filme, A Comunidade, é sobre essa utopia. E é mais pessoal que autobiográfico. Vivi em comunidade alguns dos melhores anos de minha vida. Para um garoto, era o sonho não ter de frequentar a escola, viver no meio de gente que parecia coelho. Sexo a toda hora, com toda liberdade. Existe até hoje uma comunidade em Oslo. É a mais antiga da Europa, entre as que foram criadas nos anos 1960. Mas aquela, a nossa, acabou.”

A Comunidade é sobre o sonho que vira pesadelo. Uma mulher convence o marido a se juntar ao grupo. Nenhuma hipocrisia, relações igualitárias. Mas ele se envolve com outra mulher, e o grupo desintegra-se. Para simbolizar crise, Vinterberg cria uma personagem de criança enferma. “Precisava dessa liberdade ficcional e poética para dar sustentação ao drama”, ele explicou. A Comunidade é um grande filme, com grandes atrizes. Trine Dyrholm é a maior de todas – a maior da Dinamarca. Venceu o prêmio de interpretação no Festival de Berlim deste ano, avalizada pela presidente do júri, Meryl Streep, que se curvou perante ela.

Apesar disso, dificilmente será lembrada no Oscar, mas sua interpretação é daquelas que fazem a diferença. “É emocionante propor um diálogo e ver uma atriz como Trine se apossar dele e transformá-lo, para melhor”, contou Vinterberg. Além desse – A Comunidade –, a 1.ª Ponte Nórdica tem mais 11 longas (e os curtas). Virão as diretoras de dois filmes para encontros com o público – Katjia Weik, de Ex-Mulher, e May El-Touhky, de Moral da História. Vão debater temas como Mulher, Imagem e Mercado de Trabalho. E outro filme no qual o público terá de prestar atenção é o sueco Martha e Niki, de Tora Martens. Negritude da distante e gélida Suécia. A dança como uma política do corpo. Como a excepcional atuação de Trine Dyrholm, Martha e Niki é desses filmes que têm feito as diferença por onde passam.

Para a atriz Trine Dyrholm, mundo precisa de reflexão

Já que a curadora Tatiana Groff, ao estabelecer o conceito do 1.º Festival Ponte Nórdica no Brasil, colocou a ênfase na presença feminina, então todas as honras cabem a Trine Dyrholm. Este ano, tivemos uma sueca, Alicia Vykander, como vencedora do Oscar de melhor coadjuvante feminina, por A Garota Dinamarquesa. E tivemos uma dinamarquesa de verdade, Trine, como melhor atriz em Berlim, pelo filme de Thomas Vinterberg. Na Berlinale, Trine disse que o filme de Vinterberg é crítico sobre a utopia dos anos 1960, mas também sobre a época atual. “E é um filme universal, creio que as mulheres, em qualquer latitude, podem se identificar com minha personagem.”

Num certo sentido, ela é comum e tem consciência disso. “Quer ousar, para não ser considerada ultrapassada por essas pessoas libertárias, mas, no fundo, tudo o que ela quer é o marido de volta. Quando ele enrosca com a garota, ela só consegue pensar nisso: ‘Volte para mim, para mim’. Muita gente tem me perguntado se simpatizo com a personagem. Não importa. O que queria é fazê-la convincente para o espectador. Acho que há muitas mulheres como ela. Posando de avançadas, mas no fundo demasiado tradicionais.”

Trine já havia feito Festa de Família com o diretor. Foi vista depois em importantes filmes nórdicos, como O Amante da Rainha, de Nicolaj Arcel, e Amor É Tudo o Que Você Precisa e Em Um Mundo Melhor, de Suzanne Bier. “Gosto de diretores autorais, não importa o gênero. Homens, mulheres. Só espero que escrevam personagens para as mulheres de minha geração, as que posso interpretar, com todas as nossas contradições.” Sobre Vinterberg, ela diz – “Thomas tem 47 anos, eu tenho 44. Somos muito próximos, e não apenas pela idade. Veja a obra dele. É de alguém que está querendo refletir sobre o mundo. Olhe o estado do mundo. Mais que nunca, é preciso reflexão.” 

DESTAQUES

- Revolução da Pia da Cozinha 

De Halla Kristin Einarsdóttir. 

O documentário mostra como a Aliança Feminina chegou ao poder na Islândia e elegeu a primeira mulher presidente em 1982

 

- Irmãos

De Auslag Holm. A documentarista filmou durante uma década o crescimento dos próprios filhos, desde que eles tinham 5 e 8 anos, para fazer um retrato da família norueguesa

 

- A Teoria Sueca do Amor

De Erik Gandini. Na igualitária Suécia, as mulheres, cada vez mais, recorrem a bancos de sêmen para ser mães. Por quê?

 

- Um Jogo Sério

De Pernilla August. Atriz de Pessoas Brancas, também na mostra Ponte Nórdica, a diretora Pernilla August filma, com roteiro da também diretora Lone Scherfig, uma história de amor proibido na Suécia do século 19

 

FESTIVAL PONTE NÓRDICA

Caixa Belas Artes. Rua da Consolação, 2.423, tel. 2894-5781. 

De 25/8 a 7/9. R$ 10 (R$ 30, 

para todos os filmes). 

 

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