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Festival de Cinema Judaico chega a São Paulo

Retrospectiva da produção de Tomer e Barak Heyman é o destaque de evento que começa hoje

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

06 de agosto de 2012 | 11h12

Eles são os mais famosos irmãos documentaristas de Israel, quiçá do mundo. Os Heymann Brothers são únicos. Numa das regiões mais conflagradas da Terra, eles fazem documentários que abordam os mais diversos temas - da convivência de pais e crianças árabes e judias num vilarejo árabe à herança familiar da própria avó num campo de concentração e ao retrato de gays numa sociedade conservadora.

Tomer e Barak recebem a homenagem do Festival de Cinema Judaico, que começa hoje. O evento será inaugurado com a animação francesa O Gato do Rabino, de Joann Sfarr. Deve exibir vários longas inéditos ligados à temática judaica através do mundo. Tudo isso é muito interessante, mas a retrospectiva dos Heymann Brothers será a revelação do evento. Sua fama é de cineastas marginais e Tomer Heymann é gay assumido (o assunto aparece em The Queen Has no Crown). Mas não filmam para escandalizar e sim, para mudar o mundo. A entrevista que se segue foi feita por telefone com Barak Heymann, que estará esta semana em São Paulo com o irmão.

Como apresentaria seus filmes ao público do festival?

Que ninguém se assuste porque somos responsáveis e queremos dar nossa contribuição para um mundo melhor. Temos feito filmes sobre os mais diversos assuntos, mas é claro que, por vivermos em Israel, a questão judaica, a herança nazista e as mudanças num ambiente conservador nos interessam bastante.

Como vocês fazem a escolha de temas e personagens para seus filmes?

Basicamente, eles têm de nos interessar para chegar a interessar aos outros. O documentário possui uma linguagem, como qualquer filme. Conta uma história. Para chegar a contar essa história, nós precisamos descobrir nossos personagens e o mundo em que vivem. Isso toma tempo, exige capacidade de observação e, no documentário, confiança. Ninguém se abre para alguém em quem não confie. Acho que o fato de ser documentarista me fez mais tolerante com o outro. Toda a questão do documentário é esse olhar para o outro.

Como vocês formaram essa dupla?

Tomer é mais velho que eu. Já fazia documentários. Eu estava numa fase em que ainda não sabia o que queria da vida. Comecei a fazer pesquisa para um documentário dele, fui me integrando à equipe, à produção. Foi assim que começou. Começamos a compartilhar cada vez mais ideias, projetos. Mas cada um de nós tem a sua personalidade, a sua carreira.

O crédito de The Queen Hás No Crown é de Tomer. Por quê?

Porque é um filme dele. É a história de nossa família. Somos em cinco irmãos. Três foram fazer a América, dois ficaram em Israel com a mãe. A história dessa família dividida pelo espaço permite uma abordagem metafórica de temas mais amplos, que ultrapassam o ambiente familiar. Uma política do pertencer, do abandono e da sexualidade. Permite que se fale de outras coisas - as tensões entre árabes e judeus, o conflito entre israelenses e palestinos, os direitos humanos e dos gays.

Como vocês abordam os documentários? Eles têm difusão em Israel?

Por certo que sim. Nossa empresa, a Heymann Brothers, produz e difunde documentários em cinema e TV. Nossos filmes são independentes, mas nos preocupamos muito com a questão da linguagem. Quando se inicia um documentário, ao contrário da ficção, a gente nunca sabe como ele vai ficar. Podemos até planejar, mas muitas vezes as filmagens tomam outro rumo. O que eu quero dizer é que nossos documentários não têm fórmulas, mas revelam a mesma preocupação - não fazemos filmes para nós. Queremos que o público nos entenda, mas isso não significa, necessariamente, facilitar as coisas.

Você tem o crédito de direção sozinho por O Samaritano Solitário. O filme é sobre o quê?

Ele fala da relação entre pai e filha e explora questões universais relativas à fé e à modernidade. O papel das mulheres na religião, o direito individual de ser independente, mesmo quando - ou principalmente - se isso representa romper com a tradição. Esse conflito entre tradição e modernidade é muito forte em qualquer cultura, mas eu diria que de certa forma é ainda mais forte no Oriente Médio e no mundo árabe. É só estar atento ao que se passa à sua volta.

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