Festival de Cinema Italiano no MIS homenageia o ator Pietro Germi

'Divórcio à italiana' e 'O ferroviário' podem ser vistos até domingo

O Estado de S. Paulo

20 de novembro de 2014 | 10h33

Como preparativo para a Semana Barilla do Cinema Italiano - que começa segunda-feira, 24, com a presença da bela Maria Grazia Cuccinota, a musa de O Carteiro e o Poeta, de Michael Radford -, começou nesta semana no MIS uma retrospectiva com seis filmes importantes do ator e diretor Pietro Germi. Ele morreu em 1974, aos 60 anos, deixando pronto um roteiro que foi escrupulosamente filmado por Mario Monicelli, virando Meus Caros Amigos. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard observa que Germi foi esquecido em detrimento de Monicelli e Ettore SCola, mas na verdade foi um dos pais da comédia italiana e responsável por grandes êxitos internacionais do cinema italiano nos anos 1960. Mas Germi nunca foi uma unanimidade. Os críticos gostam de lembrar que ele recebeu sua Palma de Ouro - por Confusões à Italiana/Signore e Signori, em 1966 - debaixo de vaias. Não foi a única vez em que isso ocorreu - em 1987, o agradecimento do francês Maurice Pialat, que também recebera o prêmio maior de Cannes por Sob o Sol de Satã, foi soterrado sob apupos e vaias.

Interessante trajetória, a de Germi. Nascido num meio modesto da Ligúria, tendo conhecido um começo muito difícil, ele se tornou diretor em 1946. O filme chamava-se Il Testimone/O Testemunho, e o título de alguma forma é revelador. O primeiro Germi foi marcado pela consciência social, fazendo filmes que expressavam os dilemas morais que a Itália enfrentava no pós-guerra. Pobreza, corrupção, degradação, colaboracionismo. A Itália saíra derrotada e dividida da guerra, e o cinema ajudou-a a olhar para dentro de si mesma, em busca de um renascimento. O Germi inicial possuía um talento rude - raivoso? -, e parecia mais preocupado com a ética que com a estética. Seguiram-se filmes com títulos não menos reveladores. Expressam a urgência de um cineasta comprometido com o social - Juventude Perdida, Em Nome da Lei, O Caminho da Esperança, A Cidade se Defende. E, então,. em 1952, Germi, por um momento, muda o tom e assina sua primeira comédia - A Presidenta, com uma grande estrelas da época, Silvana Pampanini.

Os críticos atacam o que lhes parece a facilidade do vaudeville. Germi recua, volta ao drama. O Bandoleiro da Cova do Lobo, Ciúme. E então, de novo, em 1956, algo se passa. Ele acumula direção e interpretação. Vira o protagonista de O Ferroviário, O Homem de Palha, Aquele Caso Maldito. Torna-se ator para outros diretores - Damiano Damianio em O Batom, Mauro Bolognini em Caminho Amargo/La Viaccia. É bom ator, talvez limitado. Um tipo, acima de tudo. E aí, em 1961, volta à comédia, na qual se exercitará na década seguinte e até a morte prematura. Surgem Divórcio à Italiana, que vale a Marcello Mastroianni uma aclamação internacional, Seduzida e Abandonada, Confusões à Italiana. Para um diretor/autor que se iniciara comprometido com as questões morais, em 19676 - sempre os títulos reveladores - ele faz o filme que muita gente considera sua obra-prima. L'Immorale, O Imoral, mas no Brasil o filme se chamou Como Viver com Três Mulheres.

A minirretrospectiva de Germi resgata O Caminho da Esperança, O Ferroviário, Aquele Caso Maldito, Divórcio à Italiana, Seduzida e Abandonada e Confusões à Italiana. Traz o Germi social, neorrealista, e o corrosivo, virulento. A coincidência é que a Versátil está lançando em DVD justamente Un Maledetto Imbroglio, de 1959, no qual o próprio Germi faz o policial que investiga roubo de joias no apartamento de um comendador. O caso terminou em assassinato, com a morte brutal da vizinha do homem que foi roubado. Eleonora Rossi Drago, atriz mítica de grandes filmes de Michelangelo Antonioni (As Amigas) e Valerio Zurlini (Verão Violenta), faz a vítima e as suspeitas recaem sobre sua empregada (a jovem Claudia Cardinale, sem glamour), que tem um namorado com ficha criminal (Franco Fabrizi). Só que as coisas não são fáceis e o caso tem desdobramentos. Vira maldito.

Nos dramas, Germi não tem muitas ilusões quanto aos homens e a organização social. Seu olhar é sempre o de um moralista apaixonado e desiludido. O humor o liberta. Ele continua crítico e condenatório - o siciliano Feffè/Mastroianni busca um jeito de matar a mulher, simulando um crime de honra, para se casar com outra em Divórcio à Italiana -, mas o sarcasmo, de alguma forma, se torna mais tolerante. O filme, de qualquer maneira, desperta um debate nacional sobre os crimes de honra e Germi volta ao tema em Seduzida e Abandonada, em que Saro Urzi é excepcional como o pai que vai ao limite tentando vingar a filha desvirginada (Steffania Sandrelli, o objeto de desejo de Feffè, na comédia precedente). Germi não recua diante do grotesco - ao romper a omertà, a lei do silêncio, e proclamar que foi desvirginada, Steffania não apenas não encontra solidariedade como despertará a ira da cidade contra sua família. Germi radicaliza e fecha sua trilogia siciliana com Signore e Signori. Narrado em três atos e subdividido em esquetes, o filme reveza maridos e mulheres num círculo vicioso em que o adultério é a regra. Cornutos e piranhas, eis a que se reduzem 'as senhoras e os senhores' de Germi.

A retrospectiva termina aí, mas a obra do diretor, além da combinação de comédia e drama de Como Viver com Três Mulheres, prosseguiu com Serafino, Alfredo Alfredo (em que Dustin Hoffman está ótimo) e Em Nome do Amor. Restaurada, a cópia de Confusões à Italiana voltou a Cannes Classics e, desta vez, postumamente, Germi foi aplaudido de pé. Pode ser que o jovem Dimián Szifron nem saiba disso, mas Germi foi o percussor dos relatos selvagens, em que o riso vira filtro, ou espelho, do atual estágio das relações humanas e sociais. O mundo ficou mais competitivo que nunca, e Germi já intuía isso. Há 40 anos, os críticos achavam que ele era grosseiro. Estava sendo profético. Há 40 anos, os críticos diziam que ele era grosseiro.

PROGRAMAÇÃO

Quinta-feira (20), às 18h, Signore e Signori (Senhoras e Senhores - 1965) e, às 20h30, Il cammino della speranza (O caminho da esperança - 1950);

Sexta-feira, 21, às 18h, Divorzio all’italiana (Divórcio à italiana - 1961) e, às 20h30, Il ferroviere (O ferroviário - 1956);

Sábado, 22, às 18h, Un maledetto imbróglio (1959) e, às 20h30, Divorzio all’italiana (Divórcio à italiana - 1961);

Domingo, 23, às 19h, Il ferroviere (O ferroviário - 1956) e, às 21h, Sedotta e abbandonata (Seduzida e Abandonada - 1964).

SERVIÇO

Endereço: Av. Europa, 158, e o Caixa Belas Artes na Rua da Consolação, 2.423 (ENTRADA GRATUITA)

Divórcio à Italiana

 

Seduzida e Abandonada

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