Tiziana Fabi/AFP
Tiziana Fabi/AFP

Festival de Cinema de Veneza ganha ares de baile de máscaras

São poucos filmes, mas a decisão de realizar o festival num ano tão complicado foi política: para mostrar que Veneza está viva

Gildas Le Roux, AFP

02 de setembro de 2020 | 09h23

Em Veneza, os trabalhadores ainda estão ocupados com os preparativos finais na véspera da abertura do Festival de Cinema de Veneza na quarta-feira, 2. 

Tudo parece quase normal, se não fosse pelo muro erguido de um lado do tapete vermelho para proteger do coronavírus estrelas e atores que desfilam em frente ao lendário Palácio do Cinema, à beira-mar. Em vez das multidões de curiosos e fãs que tendem a se aglomerar todas as noites sob os flashes e aplausos do público, a parede é uma fortaleza inexpugnável. 

Da avenida que separa o palácio da praia não se vê nada, exceto uma parede cinza que manda uma mensagem clara: "Fique longe. Não há nada para ver aqui". 

Apesar de a Itália enfrentar um novo surto do vírus menos forte do que em outros países europeus, como é o caso da França, os organizadores não quiseram correr nenhum risco: o uso de máscara é obrigatório em qualquer lugar, tanto nas salas de projeção como nas espaços externos, além de álcool em gel e controle de temperatura em todas as entradas. 

"Este ano em Veneza confundiram a festa com o carnaval: somos como um baile de máscaras", brinca um jornalista italiano com um colega. 

"Espero que todos respeitem as regras", diz Roberta Zoppé, do bar La Dolce Vita, onde vende sorvete há quase 10 anos a poucos passos do palácio. 

A um quarteirão de distância, a dona do restaurante La Tavernetta, que funciona durante o festival há 27 anos, tem menos dúvidas. "Os americanos e os chineses não vão aparecer este ano", afirma Adriana Filipelli, com olhos azuis se destacam ainda mais na máscara.

Filipelli tem o prazer de receber seus clientes, mesmo que eles tenham que respeitar as normas anti-covid. "Se você se organizar bem fica mais fácil respeitar as regras", argumenta. 

Pelo palácio circulam todos com as suas máscaras: os jornalistas que correm para retirar as credenciais, os seguranças que afastam os curiosos, os eletricistas que ajustam as luzes.

No tapete vermelho, Alberto Barbera, o diretor da Mostra, com sua elegância impecável, dá entrevistas a jornalistas que vieram de todo o mundo para cobrir o primeiro festival internacional após o confinamento

A decisão de celebrá-lo de qualquer maneira desperta ceticismo entre alguns venezianos. É o caso de Walter, motorista de táxi aquático. 

"Quase não há filmes, apenas algumas produções italianas. É um festival político, que tinha que ser realizado aconteça o que acontecer, mesmo sem conteúdo, para mostrar que Veneza ainda está viva", afirma. 

Betelehem Pilastro, garçonete de 21 anos que trabalha no quiosque Mojito, é mais otimista. 

"Não sei o que esperar, o que preciso é trabalhar muito. Todo ano a Mostra é uma aventura”, sorri. "A ausência das estrelas pode ter muito impacto, mas estamos felizes que a Mostra seja realizada e ofereça trabalho para tanta gente", opina.

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